31.10.08

Como se o sol lhe dissesse: vem daí para a minha beira!

Como se pelo buraco do peito se avistasse o pântano espiritual

Mete-se a mão e zás!, recollhemos o amor em bagos

Depois espanta-se com a cara de quem vê o preço do branco a subir

E fica-se a saber porque dói o silêncio

ou o ferro quente não engoma o pêlo do lobo


Como se a tempestade fizesse arrasar a colheita de sangue

Como se o jejum dobrasse a forquilha à felicidade

O amor bem que podia dar meninas pelo quintal

Regadas com suor de flores

Prata líquida percorrendo o pescoço – a maravilha da pétala


O homem sentou-se.

Triste e absorto. Mimando uma lâmina usada.

Nunca beijara a face aberta de uma mulher

Tem por uso plantar cactos no quintal

E dos espinhos santifica-se

Com o dedo na terra alimenta a oração


Os olhos como faróis. Ou vice-versa

Escorre o veneno pela luz vinda do solo

Jaz a música no cântaro abandonado

O fogo estala ante a carne borealesca

A solidão escapa-se do gavetão-memória

Tecidos podres

Podres tecidos

vestígios de alma que esperam pendulares

A morte é um veículo veloz Que segue sempre na auto-estrada

No poço todos os murmúrios são cantos de galinha

Ó que zumbie tão estridente é o mar!

O Homem tem as plantas como seu tesão

A gravidade está prestes a ser um feno comido pelos bois

E a certeza é que debaixo da pele: um fogo-posto


Como se a matéria fogo nos viesse dar novo baptismo

Como se o relojoeiro argolasse o tempo à cadela que dorme no prédio

Investir na vida não é preciso saber

para que lado

é que se há-de morrer

Ao contrário da morte a vida é um equívoco raro: o momento em que o carneiro se despe catedraticamente

Perguntem a este homem

Gélido

Putrefacto

Electro-iluminado

Que ressuscita a cada minuto num coágulo de sangue fresco

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