Assim não pode ser! Fora a gota d’água. A mulher tomou coragem e foi à esquadra fazer queixa do seu marido, estupor!, anos e anos a dar porrada na pobre coitada, a fazer-lhe a vida negra. Nem será preciso falar muito, os seus olhos denunciam logo o estado imperfeito da sua saúde. Nem tampouco é bom recordar na pancada a que o seu corpo estava sujeito: gritos, penicões, insultos, etc.
Mas a partir de hoje ele vai ver, garante que é o fim dessa vidinha da maria-faz-tudo-lá-em-casa, escrava de vários prazeres, dos recadinhos, do leitinho com bolachas na cama, do vai tu primeiro à casa de banho que eu cá me aguento, do pega lá para tomares um café. Esse vadiola nem sabe o que lhe espera quando contar tudo tintim por tintim à polícia. Vinte anos de prisão no mínimo, na cela, com homossexuais assanhados, desejo-lhe isso e muito mais!
Na esquadra contou tudo ao polícia de serviço, pormenores de quando tinha de fugir, meter-se debaixo da cama, quando o marido, esse salafrário, perdia as estribeiras por tudo e por nada.
Como prova levantou a blusa e mostrou umas manchas negras, mapa de África, de um pontapé na barriga, os seus dois dentes em falta foi de um soco directo que ela sofreu quando apenas dizia que não sabia. Contou.
O Polícia, experiente nestes casos, ia tomando notas, abanava com a cabeça em mostra de compaixão pela mulher. Era grave!
- Nestes tempos é impensável uma coisa destas acontecer! – Comentou o polícia que, por vezes, acariciava a pistola no coldre para dar a ideia de que se pudesse, ai se pudesse... dava um tiro no gajo, pumba, arrumava-se o assunto.
A mulher, com uma tristeza que até incomodava, para reforçar a sua desgraça, acrescentou: - Hoje, por exemplo, só por eu dizer que não conhecia Luís de Camões e os Lusíadas, levei logo um par de estalos.
Neste seco segundo, o polícia, em tom de voz semi-alterado, arrastando algumas palavras, interveio:
- Ah, vo-cê não co-nhe-ce Luís de Ca-mões nem os Lu-síadas?
- Não, não conheço, senhor agente! – Respondeu a mulher com seus modos provincianos, sem lá entender o porquê da pergunta.
Foi então que o polícia, em honra da pátria lusa e da cultura portuguesa, decretou que ela se fosse embora imediatamente dali, mas primeiro... ah primeiro, deu-lhe dois bons estalos como manda a lei. Próximo!
31.3.09
28.3.09
um mail que recebi...
Para ele era importante porque, se fosse ferido, na sua camisa vermelha não se notaria o sangue e os seus soldados não se preocupariam e também não deixariam de lutar.Toda uma prova de honra e valor.
Duzentos anos mais tarde, Sócrates usa sempre calças castanhas...
27.3.09
24.3.09
22.3.09
fome, desgraças, doenças raras e outras negações
Atirem-me para o lado mais negro da vida
e soltem os caninos a sorrir
Atirem-me à cara a Língua Portuguesa,
a gramática inteira, enciclopédias, S. Ciprianos,
e que o poema me saia num vómito
e a minha alma se magnifique com o estrondo!
Ó palavras minhas, como vos hei-de entender
se eu próprio me perdi na origem?
Ó palavras humanas, tão cheias de carne,
como pegar na caneta sem me aterrorizar?
Sempre ouvi dizer que o poema tem de sofrer
que em cada verso o chão treme e sisma em enlouquecer
por isso abram portas às colmeias quando eu por lá passar!
diante do altar não é pecado; já muitos me vieram contar
...mas a mim falta-me o à-vontade.
A inspiração é um redemoinho sempre ligado à cabeça,
torna-nos loucos,
a ganhar ramagem entre os dentes e os dedos.
Pergunto: como fazer um poema sem perder a erecção?
Como dizer ao mundo que sou poeta se nunca chupei a teta à poesia?
Ó palavras altas, tesas, ardentes, vinde com trinta olhos,
trinta sóis apontados,
tenho o compromisso de terminar este poema
a minha morte é já acolá
E ainda tenho uma estrela para devorar
Preciso de escurecer,
tenho pássaros e peixes algures entre os rins e o coração,
que, se lhes faltar o pasto, ó meu deus,
se lhes faltar o pasto,
ficarei entregue e exposto ao mundo das coisas,
apostando tudo numa última reza.
20.3.09
Cientistas explicam por fotos... porque é que os homens são infiéis.....
......está entendido agora?
17.3.09
a vida tem destas coisas
PAI - Que é isso minha filha, tu ainda há poucos dias estiveste no aniversário da paulinha!
FILHA - Mas papá, todas as minhas amigas têm saído e ido nesses bares de diversão.
PAI - A noite é para os vadios!
FILHA - O papá ainda vive muito no antigamente!
PAI - Foi assim que me ensinaram é assim que vos ensino!
FILHA - Mas papá, sabes que eu preciso de refrescar ideias para continuar meus estudos!
PAI - Tomas um banho de água fria que isso passa-te já.
FILHA - Eu prometo que chego a casa cedo. Bem perto da meia-noite.
PAI - Meia-noite?! Eu ouvi direito?! Já te disse que a noite é para os vadios ou para os morcegos! Vai para o quarto estudar, pois lá é que aprendes.
A rapariga deu-se por vencida e, entre uma lágrima e outra, lá se conveceu que tem um pai duro de vergar. Entretanto, o filho mais novo dirigiu-se ao seu pai, que estava estendido no sofá, a ver um episódio da série dos Serranos, e disse-lhe:
FILHO - Pai, vou sair, vou a um bar da ribeira ter com um people, beber uns canecos e depois quem sabe se o isco pega mais uma vez.
PAI - Vai meu filho, sabes que tenho muito orgulho em que sejas um homem a sério, um macho. Outra coisa: tu dá-lhe nelas ,e não perdoes! Elas têm de saber quem é que construiu o mundo!
A filha que tinha o ouvido atento à conversa, logo que o seu irmão saiu, foi ter com o seu pai e ripostou:
FILHA - Não é justo papá, ele faz tudo o que quer e tu apoias-lo, e eu que fique a olhar o tecto do quarto!
O pai da rapariga desta vez sensibilizou-se e, para não ser o mau da fita, não ser acusado de machista, disse-lhe que sim.
PAI - Mas só desta vez, e sou eu quem te levo até à porta da discoteca e espero por ti no carro para te trazer de volta!
A rapariga deu um salto e foi ligar às amigas que já estava no ir. Pelo caminho o seu pai deixou-lhe uns alertas com frases bem prensadas para que ela não se esqueça que anda por aí uma cambada de matulões que só querem é arrancar pedaços das raparigas indefesas. Chegaram ao local.
Enquanto o patriarca esperava a sua filha dentro do seu carro, ouvindo uma música ligeira, com meio vidro aberto, o ar do verão a entrar, mordendo um cachorro que comprou na barraquinha ao lado da discoteca, observa o comportamento de vários rapazes, aos abraços e beijinhos.
“Uma pouca vergonha”, intuia ele enquanto abanava a cabeça daquele jeito de inconformação que nós sabemos.
No meio daquela balburdia de mãozadas nos rabos uns dos outros, grandes slallons com as ancas, percebe uma palavra vindo de um dos maricões:
- Ó bijouzinho, vê lá que se faz tarde!
- “Bijouzinho!” - Riu-se cínicamente o homem, por nem ao diabo se lembrar de tal pouca vergonha, nomeadamente de macho para macho - Estamos no fim do mundo!!!
Bem, a garota chegou ao carro ilesa, aparentemente, claro, já que, resultados, só após uns bons pares de meses; foram-se embora com destino a casa.
Chegaram perto da uma manhã. O homem vinha cansado como só a tropa o cansou.
Entrados em casa, a rapariga subiu para o seu quarto enquanto o seu pai ficou mais um pouco na sala a esticar as pernas, tomando o seu copito antes de ir para o “choco”.
A televisão ligada mas sem ouvir patavina, o sono a tomar conta dele, a ser embalado como um menino, entretanto, lá fora, alguém pára um carro no lugar vago de estacionamento, em frente à sua casa.
Curioso, num salto calculado, foi espreitar por entre o cortinado. Era o seu filho, aos beijos e amassos dentro do carro.
- Ah, valente! – Falou alto o orgulho do pai.
Não querendo incomodar, voltou-se a sentar no sofá e, assim que bota as nâdegas no tecido esfarrapado do sofá, outra vez o sono e o cansaço juntos, os olhos quase a revirarem, quando, escuta uma voz vinda de lá de fora:
- Xau bijouzinho, amanhã voltamo-nos a ver!
O homem, apesar de ensonado ainda captou algo que lhe pareceu ter ouvido nessa noite, esfregou as orelhas, olhou o copo vazio, a televisão com o ruído de final de emissão e, meio taralhouco pela sua sonolência, disse baixinho:
- Bijouzinho?!!! Ou é de mim ou este whisky deve estar estragado!
14.3.09
É preciso poemas em vez de luas
é preciso um cravo na lapela em vez da morte biográfica
é preciso cinco mil reis numa batalha de flores
cinco mil raparigas à espera de serem mães
e outras tantas à espera de serem filhas
É preciso um relógio com um cuco bem atinado
uma eléctrica emoção para nos acordar
um colchão com predicados de amor
um cântaro de fina sabedoria para beber
Uma casa bem ou mal decorada
mas uma casa vinte e quatro horas aberta
e nela me deite de olhos para baixo
e me lembre que o sal grosso não cura feridas
É preciso uma firme roldana a segurar o tempo
este tempo que mal levanta o tampo
Um deus do tamanho da aceitação
um diabo fácil muito fácil de subornar
um abismo para o que pouco nos importa
pois o que importa é inspirar e expirar o poema
É preciso cantar ainda que submersos
é preciso alguém mais do que ninguém
como um pedaço de carne para o estômago
precisamos de poemas à prova de fogo e água
uma nota de vinte para um santo é que não
Não é preciso contribuir para o banquete
para que amanhã haja de novo Sol
porque é a dor dos homens que puxa a claridade aos dias.
