28.4.09

facadas

Quem viu testemunhou tudo. Foi quase flagrante. Ele vai contar como foi como não foi. O suspeito vinha correndo rua abaixo, transportava uma cara de medo, suava por todas as entranhas (não é exagero, parecia pingue de porco derretido) não se percebia se ele fugia ou se se escapava de alguém.

O certo é que ele ao lado do Obikwelu daria desforra. Tinha a roupa rasgada, uns ligeiros arranhões no pescoço, um ar de quem deu o que tinha a dar. A sua correria fez com que um polícia o tomasse como suspeito e desse a correr em cima dele, para interrogações. Por momentos o trânsito parou.

O agora o corredor estava tramado, fazia gincana por entre os carros parados que olhavam a cena, outros fotografavam para a posteriori. Metros adiante o suspeito deixou cair uma faca. O polícia, por estar bem treinado, pegou na faca com um lenço para não apagar as impressões digitais, mas nem por isso perdeu avanço sobre o presumível assassino. A sua cara de vagabundo, olhando agora com mais clareza crítica, não enganava ninguém. Uns olhos de horror, uma quase morte.

Ainda tentou iludir o polícia, metendo-se por várias ruelas, mas acabou sendo detido quando o agente ligou o turbo das pernas, botando-lhe as mãos às goelas. Entretanto, juntou-se muita população, como é costume nestes casos hollywoodescos, em burburinhos, palpitando, juntando os pedaços de história de cada um e fazendo da versão original contrafeitos.

O vagabundo estava visivelmente cansado, mal podia falar, o agente pegou nas algemas para lhe prender as mãos atrás das costas.

- Você vai ter que explicar muito bem explicadinho lá na esquadra.

O homem, no seu poder de síntese disse:

- Foi só uma facadinha!

O agente não quis saber da contra-argumentação do suspeito e levou-o, quase a empurrão, para a esquadra que ficava a dois minutos dali.

Dentro da esquadra, numa averiguação mais minuciosa, com polícias especializados em sacar confissões com métodos ortodoxos, após vinte minutos de tortura psicológica, à base de cócegas debaixo dos pés, o vagabundo não aguentou a pressão e abriu a boca para responder às perguntas que lhe foram feitas:

- Chama-se Amélia, mora na avenida dos combatentes da Grande Guerra, 2º esquerdo.

- Quantas facadas deu nela?

- Talvez umas quatro, foi o meu máximo. Nunca tinha dado tantas.

- Tem algo a acrescentar em sua defesa? – Perguntou o do ministério público.

Depois começou a contar:

- Assim que dei as facadas nela o meu arrependimento começou a gerar lava quente no meu peito, um ódio, um nojo de mim. Eu estava sobre ela como um touro endiabrado, tapando-lhe a boca para que ela não gritasse alto, não fosse os vizinhos ouvir, ela por sua vez arranhava-me, esperneava, e isso fazia-me espetar a faca mais fundo. E eu que tinha jurado nunca pecar desta maneira. Por isso é que dei a correr como um louco, no intuito que viesse um automóvel e me fizesse uma paga. Depois do que eu fizera, eu sei que merecia a morte.

Continuou:

- No intervalo de cada facada, cada uma mais forte do que a anterior, pensava, isto não se faz Armindo joão, com tão pouco tempo de casado, um filho pequeno nos braços, e já te estás a enterrar para o resto da tua vida! És um canalha! Mas aquele clima de quem luta na lama sabia-me a bem-bom. Ver a cara dela a tornar-se vermelha, a suar sem saber o porquê da sua origem...

Os agentes especiais, sentados ao contrário em suas cadeiras, ouvindo a história como se fosse canção de embalar, tentavam recriar a cena quer em suas cabeças quer em esboços.

Passados uns largos minutos, depois de avaliada a confissão do autor do crime, o representante do ministério público, que não se escapou a um choro de pena que a história trouxe, concluiu o relatório, considerando o crime da seguinte forma:

- Facadinhas no matrimónio em forma consumada e continuada...declaro-o: Inocente!

23.4.09

liberdade é ver mais que os nossos olhos e as nossas pernas
a liberdade vive me mim como eu no desemprego
liberdade é uma mulher que se perde com a idade?
liberdade é a escada que nos tira do poço
a liberdade é o melhor alimento de um povo
liberdade é pensar (filipe)
...

faça crescer esta lista, deixe aqui a sua definição\intuição de liberdade

21.4.09

- O Sócrates vai à televisão falar sobre a crise e eleições.

- Bem, pelo menos vai ser giro ver o nariz dele a crescer, a crescer...

17.4.09

o cura das hemorróidas

O mito correu pela aldeia. O curandeiro, entre outras habilidades, tem um dom especial: mulheres com dificuldade em engravidar, em fazer correr a vida dentro delas, e ele, o Special One das bruxarias, mais especialista que um especialista, mais entendido na matéria do que esses médicos que andam por aí só a pensar no fim do mês, consegue, por milagre ou não, com artes e magias, iluminar os ventres apagados de muitas mulheres.
Acredita quem quiser mas, que as há agora com filhos no colo, há. O que era dantes não é mais o que é hoje. Mulheres rendidas ao infortúnio de não poderem ter filhos são agora mulheres felizes, voltadas para a graça de Deus.


- Ó home, esse bruxo não foi o tal que há uns anos te curou das hemorróidas?! - Comentou a Maria Júlia enquanto amassava o pão que irá ao forno.
- Nem é bom tocares nesse assunto que me começa outra vez a doer a rectaguarda! – Respondeu o marido que só de lembrar que andou quinze dias sem se poder alapar na sanita, e a deitar pomadas...


A Maria Júlia riu-se, mas não disfarça a lágrima seca e desgostosa que lhe corre por dentro por não dar ao seu marido o que ele tanto deseja: um filho, ou dois, ou três, um batalhão de filhos que fosse.
Mas a incapacidade de Maria Júlia adiava a cada dia o sonho de ter filhos à sua volta. Ela a ensinar a rezar, sonha, ele a mostrar como se trata do campo e dos animais. Para já são só sonhos. Pelo menos estes não os deixavam morrer.


- Temos de lá ir!


E concordaram que sim. Nem a viagem longa, nem o ter de atravessar os matos calcorreados por jacarés esfaimados que aguardam a passagem de intrusos, nem os calos que diariamente fazia o homem se queixar, os fizeram transviar.
No dia xis, à hora tal, lá foram eles, montados na sua mula, uns quilómetros cada um, de coragem nos olhos rumo à casa do bruxo na creditação de que o mal será feito em bem, a tristeza ficará longe e, no ventre da Maria Júlia, virá uma criança, ou pelo menos uma semente a nascer. Pelo caminho fizeram projectos de vida, sonharam de cabeça cheia de esperanças.
Entre sonhos e realidades chegaram à aquela que após muitos anos ainda é a casa do bruxo: tecto baixo, com pouca cortesia, ervas mal aparadas, um cheiro a gado que incomodava, mas, a vida também cheira e ninguém reclama. Tudo igual. Bateram à porta e foram mandados entrar.
Havia pelo menos umas cinco mulheres que esperavam na salinha, cada uma com um mal diferente. Cada sessão demorava aí uns trinta minutos, dependendo da gravidade do caso. Se era mau olhado, traição do marido, azares na vida, infertilidade, mal da gota, etc.


- Seguinte! – Diz uma velha que dava a sensação que neste mundo era eterna, pelo seu olhar fixo e ligeiramente aterrorizador.


A espera sempre incomodou muita gente, mas a cada minuto incomodava muito mais ao marido da Maria Júlia que não havia meio de parar quieto com as mãos a tremer, as pernas sem posição, a dizer alguns disparates baixinho, só para si, como se um arrependimento viesse em catadupa pela garganta acima, como se lhe viesse um cheiro a esturro.
A mulher, por não se concentrar em suas preces, mandou-o ir arejar. Ele aproveitou e foi verter águas na primeira árvore que deu de caras.
Ao mesmo tempo que poluia a árvore ia dando umas vistas pela paisagem, quando nisto, reparou que a sua mula já estava fazer das suas.


- Maldita mula que não sabe estar quieta!


Ao chegar-se perto dela, uma janela meia escondida por umas ramagens agrestes, chamou-lhe a atenção. E ele, curioso com um mulo, foi espreitar.
Por uma frincha que mal se podia, arreguichando o olho ao mais que puder, vê o seu interior meio ofuscado. Era o consultório do bruxo. Sempre era o tal que há uns seis anos lhe livrara das malditas hemorróidas. E o que fazia? Um minuto depois, quase que lhe dava o fanico, pois viu o que nunca viu nos seus quarenta e seis anos de vida: o filho da mãe do santeiro, deu uma loção qualquer para a mulher beber, esta bebeu e logo adormeceu num estalar de dedos, sobre um sofá, para depois, ó que filho de um cabrão que não tem outro nome senão este, saltou-lhe à espinha, como quem diz, despiu a saia à mulher e, zumba, toca a fazer sexo com ela. E a inocente, a dormir na sua inocência.


- ...ai meu grande calabresto, filho de um suíno!...agora sei qual foi o remédio que me deixou quinze dias sem me poder virar na cama!


Furioso, numa velocidade atómica, regressou para junto da sua mulher, ainda compenetrada em suas orações, imoblizada mas com os lábios a mexer, interrompeu-lhe, dizendo em voz apressada:

- Ai mulher vamo-nos embora, esquece o filho, esquece tudo! Antes o poço da morte que tal sorte!
- Ó home que foi, parece que viste o diabo!
- E vi, mulher, e vi, era enorme!