27.6.09
sobre o michael jackson disseram-me isto assim:
eu preciso ir para voltar
com outro corpo
com uma outra mente
e com a clarideia
que tenho de recomeçar ou terminar o que deixei
23.6.09
nem ácaro nem ácarozinho
Gosto de promoções. Gosto de ser enganado um bocadinho. Mas só um bocadinho. É que se passar de um bocadinho já me altera o nível do colestrol, o ácido úrico dispara e, a diabetes, nem vos digo. Gosto de comprar a metade do preço embora sem saber qual o preço inteiro. Gosto de pensar que os meus eurinhos foram bem investidos apesar de não entender nada de aplicações financeiras.
Outro dia vieram-me à porta bater, e desta vez não era da Jeová, ufa!, era um tipo bem arrumado dentro de um fato escuro que me queria explicar as funcionalidades múltiplas de um aspirador moderno, com desavinte botões coloridos que, com um bocado de jeito, até serve para tirar calos dos pés. Ao início pensei em despachar o senhor com o meu péssimo humor, fruto de assistir às assembleias camarárias, mas, e como diz um verso da Amália Rodrigues, “foi por vontade de Deus”, que eu abri as portas de minha casa para que o técnico de aspirações de ácaros e verdetes fizesse uma demonstração prática ao meu simplório T1, sem garagem e com vista para o acampamento de ciganos.
O senhor, com cerca de trinta anos, dotado de uma inteligência para assuntos de mecânica de aspiradores, tratou logo de me surpreender com a quantidade de lixo que microscópicamente coabitava num tapete que, por ter sido comprado na Festa do Avante, eu jamais imaginaria que insecto ou ácaro algum pudesse aderir ao tapete. Mas não! Os ácaros lá estavam, no meio de cinza de cigarro, nódoas de Borba e outros materiais que só a medicina forense é capaz de identificar. O meu espanto foi entendido com um riso efectuado pelo senhor dos aspiradores.
Passou à fase seguinte: verificar o colchão da minha cama. Feitas as manobras essenciais ao aspirador, este, mal accionado o botão, começou a sugar quanta porcaria existia no colchão. Mas que eu desconhecia! Garanto-vos que eu não sabia que as minhas lindas costas, como quem diz, assentavam naquele rectângulo fofo, mas cheiínho de ácaros quanto basta para que eu me sentisse envergonhado perante o agente dos aspiradores que, pelos vistos, não perdoava nem ácaro nem àcarozinho. Fiquei sem palavras perante aquele espectáculo de lixaria a subir pelo cano do aspirador até a um saquinho que ele fez o favor de me mostrar como prova da minha falta de asseio.
- Está a ver!
Feito isto, o técnico dos aspiradores miraculosos despiu o seu lado de fachineiro e vestiu-se de um outro que era: o de técnico de contratos. Só ao fim de dois minutos é que me apercebi que aquilo que ele falava de facto não era chinês, mas sim uma linguagem quase perto de ser considerada um Chamamento. Pela simples razão de o técnico, aquando o seu discurso meio filosófico, fazia uns gestos, de que me lembra, só o Papa João Paulo II é que os fazia quando na sua varanda orava para os seus fiés. À parte disto, e o seu ar angelical a propor “ande lá, compre o aspirador!”, fiquei cem por cento embriagado quando ele me disse o preço: 400 euros. Por extenso: quatrocentos euros a serem pagos em cómodas mensalidades. Aqui foi o momento crucial. Como lhe dizer que estou sem emprego e que não tenho crédito em lado nenhum? Comecei por lhe falar de estrelas cintilantes e astros por descobrir, mas o técnico, que era sabido como um raio, voltava ao assunto que o trouxe até mim: vender-me um aspirador moderno! Pedi-lhe mais uma prova das capacidades do aparelho, desta vez no meu escritório, pouco recomendado a ambientalistas, ao que ele, todo vaidoso, pegou no sofisticado engolidor de bactérias e, zás!, deixou-me o escritório num brinquinho. Depois mais uns tectos difíceis de alcançar, mais umas paredes mortas, mais uma divisão da casa, e por aí. De facto o aspirador tinha muitos aspectos positivos, excepto um: o preço. Tentei negociar. Que absurdo!, disse-me ele. 400 euros e nada menos! Comecei a ficar farto de limpezas, o tom da nossa conversa afiou-se, de senhor para aqui e para acolá comecámo-nos a tratar por tu, entretanto já era noite e, após longo impasse, sem querer abusar mais da paciência do homem virei-me para ele e perguntei-lhe:
- Quanto tempo demora a formação de novos ácaros?
- Cerca de seis meses – Respondeu-me ele de pronto.
Fiquei mais de sessenta segundos a admirar o aspirador numa contemplação quase-poética. Era lindo! Tinha uns encaixes bonitos, mas, feitas as minhas contas de cabeça, e olhando agora para a minha casa limpinha, os tapetes e colchões a reluzirem, isentos de pó e ácaros que ele fez o favor de os limpar sem pedir nada em troca, eu a ver como é que contornava a coisa e tal, eureka!, disse-lhe com a maior das latas, num jeito só meu:
- Sabes...acho-te um tipo especial, um artista, inclusive...olha que conto contigo daqui a seis meses, ouviste?
- Ahaa...ahaa...
- Que ahaa, deixa-te de modéstia homem, quando a minha família inteira ouvir falar de ti...!
22.6.09
todos os homens têm uma história para contar, principalmente às sextas
sanguinários,
cobardes,
pisar o sangue.
- Na tropa dei um tiro no pé de um sargento.
Para ele é uma medalha que transporta na memória. Dar um tiro no pé a um sargento não acaba com a guerra. Todos os homens são estúpidos quando estão a dormir.
Um:
- Na Guiné dei um pontapé nos tomates a um preto.
Outro:
- Eu estive no coração de Amesterdão e mordi a cabeça de um touro.
A história dos povos é feita de personagens que conquistaram e varreram o mundo à base da espada e da flecha. Fizeram-se países, delimitaram seus territórios com carne falecida.
Nenhum homem é herói quando está a defecar.
Um agricultor deu uma sacholada na mulher e põe a culpa no demónio, nesse bicho vermelho que tem cornos e unhas para agarrar.
Os jornais falam de casos extremos em meia dúzia de caracteres. Eu tenho uma história para vos contar: a menina foi atropelada após ter sido violada. Não consigo contar mais do que isto. A menina fica sem história para contar e na escola vão reparar que ela escolhe sempre a carteira do fundo.
O escritor tem o hábito (ou vício) de imaginar e criar circunstâncias. Para ele a estratosfera não é o que os astronautas dizem. Nem com provas ele acredita.
A estratosfera é um lençol azul que vai escurecendo, escurecendo.
Depois há que criar o estilo e aplicar a metáfora de acordo com a luz.
Meu pai bateu-me quando fiz o primeiro poema, lembro. Tinha cinco anos quando fiz vinte riscos numa folha e disse-lhe que era uma flor. Bateu-me novamente. Quase não lembro. Pratiquei atletismo, subi ao pódio e puseram-me duas noites no curral.
Esqueci.
Todos os homens têm uma história para contar, principalmente às sextas à noite, que é quando entre eles cada um paga uma rodada, o absinto faz calor e no sábado ressaca-se.
O sábio fica em casa a prometer solução, um filho espreita da janela do trigésimo andar e dá-lhe cá uma vontade de experimentar o voo, a água da cafeteira desaparece porque subiu-nos à pele um desejo de amar a esposa que está a dar o biberão ao filho, um amante rodou a chave do carro e o carro explodiu.
Os minutos são contas mal feitas.
Em sessenta segundos apodrece o amor, passa de ouro a latão, numa décima de segundo o bombista aperta o botão. E é aqui que nos despedimos.
Estás a ver por que não conto?
21.6.09
esta gaja droga-se. pica-se. puta-se
Preste atenção ao que vou dizer, acha que alguém pode pedir um mar? A vida não é mascar chiclete e já está. A vida é a soma de todos os mares, mesmo aqueles que acordam de repente pessimistas, sem talco para as feridas.
Esta gaja droga-se. Pica-se. Puta-se. Ninguém pode pedir um mar. Nem praia nem o raio que a viole. Ela insiste e volta a pedir
- Um mar por favor.
Há razões para se desistir da vida, alfinetadas que nos tiram o prazer. Esta rapariga droga-se? O mar não pode ir a lado nenhum. As putas podem. Metem-se nos carros de qualquer um e voltam menos desejadas, descompostas da cintura para baixo.
A literatura repete-se a cada novo milénio. Para o ano tenho marcada uma queda livre de um sexto andar. Mesmo frente à biblioteca. Sonhos são sonhos. Evidências nem a pata de um burro.
Se eu bebesse um gole de tintura tratava-me por dentro, como não tenho aguento a democracia. Ouviste?
Para quê querer um mar se ele está sempre aqui?
O afogamento é uma carta do feiticeiro.
Esta não quererá certamente um sufoco igual ao do pequeno joão que largou a mão da sua avó para sentir o que é ter água pelo pescoço.
A verdade e a mentira são duas irmãs gémeas, embora que: uma seja puta e outra não. E a Mãe Vida sofre com isso. Repara como ela chora.
A rapariga caminha nua na praia. Se os cães soubessem a que horas ela vai, iam espiá-la e contemplá-la às escondidas.
O mar acolhe todas as alcunhas, desde os Pereiras, os Macedos, os Gomes, os Pedrosas.
Sofre-se com os sinos,
com a derrocada do prédio do lado,
com os epitáfios das campas. Para quê mais água se a cerveja faz melhores progressos?
Chamo-lhe Maria e, como todas as Marias, esta também sofre num canto da casa antes e depois do croché, corta os lábios num copo esquinado.
Parte da imaginação tem um gosto proibido, um sentimento cigano. Maria, de santa tem o seu nome. Seu corpo: uma bacia de roupa por lavar. Talvez seja por isso que ela queira um mar. Para se lavar por dentro, cicatrizar a alma com escamas de peixe.
Alguém lhe fez uma surpresa e ofereceu-lhe um aquário para remedeio. O aquário tinha um único peixe que dava com a cabeça minúscula no vidro. Com a água suja mal se percebia o fundo.
- Um mar por favor.
Deixaram de lhe responder, de lhe perguntar porquê porquê porquê. Maria sentiu-se verbalmente nua e, como achada na imensidão do espaço, meteu-se dentro do aquário e fechou o tampo.
Mais tarde alguém reparou nesse facto:
- Este aquário tem um peixe muito bonito. A que espécie pertence?