30.9.09
Mãe, ó mãeeee!
por ti eu nem ia ao café ali ao lado, tens medo que eu me perca pelo caminho, tenho de te pedir licença por tudo e por nada, sabes que eu gosto das camisas em tons de verde, mas tu, não, trazes sempre camisas azuis só porque meteste na cabeça que assim é que estou bem e longe de mim que diga o contrário!
Por ti casaria com a prima Joana só porque os tios têm umas terrinhas espalhadas em Bragança e têm um sotaque provinciano que tu elogias e eu detesto.
Tenho os meus direitos. Fui à escola por alguma razão! Não aprendi apenas as contas que me mandavam fazer.
Olha, por vezes aprende-se mais no recreio do que dentro de uma sala de aulas, entulados de teorias até o tutano.
Quando me acordas, com teus tiroteios na voz, a puxar os lencóis, bem antes das dez da manhã, nem sabes o quanto fico impuro. Nem dois bidões de lixívia dariam para limpar a minha alma de impurezas pelo excesso de ansiedade.
Quero dinheiro para ir ao Rock in Rio e tu, primeiro que te decidas a dar é um pandemónio de primeira categoria, quero um portátil novo e tu vens com a velha história, «deixa as coisas melhorarem», falar-te em aumentar a minha mesada é coisa para debater em assembleia num jantar de família.
Também te digo, peço-te que me deixes crescer, só isso, olha, escusas de me dar o beijinho da seca logo após eu me deitar. Ou julgas que eu não sinto a tua boca tocar-me na testa?
Mãe, por favor, sabes quantos são hoje não sabes?! Diz-me que não farás mais questão de me acompanhar até ao outro lado da rua porque os carros são muitos, que não me vais mais esperar às xis horas à saida da piscina.
Mais, a partir de hoje ligarás para o meu telemóvel apenas quando uma urgência apertar e não para perguntares se está tudo bem, se já lanchei, cuidado com o trânsito, etc.
Mãe, olha para mim, esta barba rija e abundante não te diz nada?
Vê os meus braços, olha as minhas pernas, não achas que cresceram como deve ser? Devias saber que eu já não uso nem bonézinho na cabeça, nem meia rendada até aos joelhos e, as borbulhas que tinha no rosto, só tu é que te lembras delas quando vens com os teus cremes Dove para limpar a minha cara como se fosse o rabinho de um menino de cinco anos. A minha voz está mais grave, não notas?, não sentes?
Quando me dizes que nasci cansado eu bem sei que é só para me negares dinheiro para tabaquinho, sabes que eu não sou doutor como o irmão porque as coisas não me correram lá muito bem. Mas não foi das noitadas, como dizem as más-línguas.
Se me deres uma nota de cem, eu prometo-te que vou arranjar emprego quando me tratarem pelo apelido e não por este diminutivo que carrego.
Mãe, não te esqueças que amanhã faço anos, são tantos que me perco a contar pelos dedos. Vá lá, quero um fato novo para vestir, preto de preferência, quero aquele perfume que te dei a cheirar uma amostra no outro dia mais uma Consola para as noites em que o sono não vem.
Oh please, me dá mais um tempo para eu arranjar uma namorada bem sucedida na vida! Alguma me há-de levar ao altar, nem que seja ao pontapé. Eu te prometo, mas desta vez sem fazer figas por debaixo da mesa.
Porra mãe!, quantas vezes já te disse que estas olheiras são de ver muita televisão?!, não me toques no cabelo, por favor, ele já é pouco, não insistas mais para eu me levantar cedo, para ir procurar um trabalho,
que me deixe de aventuras,
eu sei como se faz à vida,
vou fazer quarenta e três anos,
achas que ainda não sei tomar conta de mim?
Wak up!
26.9.09
“o amor é fodido”
febre alta,
comichão nas partes,
olhos de quem não vê senão a luz ao fundo do túnel, tremuras, escarros para o velho e refiscado penico debaixo da cama centagenária.
cristo na parede com ar de gozista.
rezei,
cantei em tom desmiolado,
não atendi chamadas telefónicas,
trostky à cabeceira, sonho e realidade em guerra, não sabia de que lado me ia pôr.
o dia lá fora: um retrato antigo. chamem o padre que eu preciso de me salvar, por dentro principalmente.
ter a mão na bíblia, acariciá-la, espetar-lhe uma unha,
invocar santos tresmalhados,
arranjar uma palavra para salvação.
pensei em desistir.
o frio era muito. talvez demasiado.
tenho cartas por escrever. as amantes que esperem.
é pena que as coisas acabem assim, sem cerimónia, sem um som que estremece.
não sei o que me fascina. se um vodka ou fatia de melancia. adio decisões.
o meu patrão que espere.
penso em poesia de fazer chorar. e choro.
sou assim. que me desculpem os homens com quem eu refilei. o amor é uma pedra em bicos-de-pé. qualquer doença dá que pensar. apetece-me partir para aventuras e levar livros com menos de cinquenta páginas.
a noite é já outra vez.
os grilos cantam porque cantar faz sonhar. mas eu não sei cantar. talvez um dia. a bem dizer, moro na curva do desespero e tenho a sorte de ver espectáculos de graça sobre miséria e frustrações.
não sei se vos contei, estive carente. foi preciso dois baldes de cimento para não deixar ruir meus sentimentos.
tudo abalava. desde o carpo à carótida.
por quê não sei. não porque fume demais, nem é o facto de certa vez ter sido enganado pelo silêncio. ou engasgado?
nem sei se tenho as vacinas em dia para combater a solidão. ou se vale a pena mais xaropes e messinhas.
mas de uma coisa tenho a certeza: “o amor é fodido”.
21.9.09
18.9.09
o dia morre sempre no dia seguinte.
teus filhos correm para o futuro ancorados nos pés.
fermenta em ti o mais puro poema, de um desses autores que morreram ao escrever a sangue suas palavras. não duvides da palavra amor, não queiras sombras de réplicas. a verdade constrói o seu palácio do outro lado do rio, tens de saber pelo lado que caminhas.
acorda antes que venha a nave espacial e te convoque para uma partida de futebol lá em cima. sê capaz de derreter aço em tuas mãos, cuidado com a cibernética do amor...
a ideia passa em seres feliz e que cantes como as crianças dos pátios.
15.9.09
cagar é viver!
sei que não acrescento nada de novo, pois toda a gente sabe que heinsten descobriu a fórmula da teoria da relatividade num momento alto em que puxava a rectaguarda com uma ferocidade medonha, onde no seu pico máximo, gritou: e=mc, que, depois de ficar mais solto, aliviado o trânsito intestinal, suspirou: ao quadrado! e desta forma teve a sua eureka: e=mc ao quadrado.
o senhor kafka, segundo notícias do sanatório, escreveu o Processo e a Metamorfose comodamente alapado na sanita, sem se preocupar com quem estivesse a seguir.
não se surpeenda com estas revelações, eu próprio estou a escrever este texto com as naldegas numa retrete branquinha, enquanto espero pacientemente de fazer a minha vida. aliás, e desculpe o meu exagerado presuncionismo, pergunto: quem é que nunca leu uma página de livro, revista, carta de amor ou enviou mensagens pelo telemóvel? quem é que nunca se sentou com o portátil nas coxas enquanto obra?
é um prazer, você sabe que sim, a gente ali, em módicos pensamentos ancestrais, num auto-conhecimento, deitando por fora toda a tristeza, ora diga lá se não é. mais: cagar é como o sexo: para bom funcionamento do corpo e alma é preciso quase um ritmo diário, um reloginho interno que, se falha por dois ou três dias, ah pois é, vai a nossa valentia para o tanas, e ainda por cima sujeitos a ser supositoriados.
aliás, esse equilíbrio é tão importante que, se houver greve em uma das partes, o nosso pensamento foge-nos para guerras frias.
saibam desde já que discurso de político também ele é feito dentro desta magia.
nossos olhos viram para dentro, há um arrepio de pele, uma força cósmica nos queixos e pescoço quando puxamos por ele, o tal, que começa em ca passa por ga e acaba em lhão.
meus amigos, este texto pode não ter poesia necessária, mas uma coisa vos digo: cagar é viver! e não se sensibilize, nem feche os olhos por ler o que leu, pois a vida termina no dia em que a tripa der um nó. dirão vocês que sou um desavergonhado, que a minha literatura é feita de esterco. enganam-se aqueles que pensam que sim, já que a maior parte dos profetas antigos foram altamente iluminados antes e depois do tal acto que vos venho falando.
é certo que a espiritualidade aumenta, a nossa comunhão com as questões universais, idem aspas, a nossa relação com a literatura é um caminho de descoberta. vejamos, eu próprio descobri, por estes dias, no frescor da minha casa-de-banho, margarida rebelo pinto, o que me deu um enorme prazer, pois agora sei - e recomendo - que há géneros literários especializados em casa-de-banho. a TV7+ também tem boas crónicas para o efeito. a revista Maria, já não, pois tem um formato muito pequeno e as folhas têm uma textura que...sinceramente...seca os dedos.
poderemos largar todos os vícios, negar os prazeres da amante, deixar de dar banho ao cão, mas, meus senhores, por mais bons costumes que tenhais, acabarais sempre numa retrete e, na maldita hora em que fizermos por nós abaixo, lá se vai o nosso Ser, a nossa metade, por que, enquanto tivermos forças para puxar, o nosso sorriso é de oiro.
nunca se esqueça: cagar é viver! e, quem diz que a vida é assim ou assado, não sabe o que diz, por que, como diz e bem o meu amigo poeta laureans: “a vida é a única merda que vale a pena cheirar”.
8.9.09
contra-pilas
para quê olhar o céu quando no teu bikini caminho por olhares nunca dantes olhados
para quê saber da felicidade se não sabemos o caminho das pedras
para quê ir, se verdadeiramente nunca chegamos onde queriamos chegar
para quê levar a amante para praias distantes, se mesmo lá vais encontrar os teus amigos
para quê um poema com fios de tristeza se mesmo a alegria nos faz chorar
para quê um peluche falante se eu próprio sei fazer melhor
meu amor, este poema é feito de carne, mas cuidado, que quando a fome aperta vai e pescoço e tudo.
Teste chinês aos olhos
6.9.09
4.9.09
bom dia! bom dia!
Bom dia pátria, bom dia meus ex-colegas de turma, meus cultivadores de amoras, meu sino que agora tocas piedoso. bom dia vento, vento suão, vento parado, vento ventoso.
bom dia irmãzinha, como vai a nossa vida para além dessa túnica? serafim, joão, teresa, manela, bom dia! a todos que vão na estrada chuchando o dedo, ao sinatra na rádio, ao polícia que aceitou mais uma burla, à criança que pinta a sua passadeira, bom dia, aí comboios para a índia, bom dia céu, olá inferno, há quanto tempo,
olé olá petroleiros desesperados, jean sartre levantado da campa, saramagobytes, bom dia configurações do homem, bom dia ó pétalas, ó ideias, ó mar da apúlia, ó abastados e outros sem nada, sérios e moinantes, carecas e peludos, letrados e aprendizes, comunas e descomunados,
bom dia ao sol, à chuva que perfura a terra, ao senhor matias da tabacaria, à dona filomena da cavalaria. como vais relojoeiro com o teu bico doirado, e tu, cego da concertina, tudo bem meu irmão de outra mãe, ó ana das minhas loucas lembranças, ei carro-de-bois de onde vens para onde vais,
allô rio de janeiro, é só para te lembrar que estou aí pra semana que vem, então meu cavalo branco, estás pronto para mais um dia, ei pregador de manias, cuspidor de salivas.
olé olé limousines e carros velhos, como vai a nossa vida meu anjo meu escaravelho, bom dia portugal de jeans cossados,
aleluia carteiro, estava a ver que não vinha, olha aí carniceiro, cuidado com os dedos,
bom dia todos ouvintes outrintas ouquarentas, bom dia bife de fígado para o jantar, minha roda de moinho movida a hidro-pensamento,
olá pescador onde pescaste a minha dor,
ó silva pereira ó pereira da silva estamos juntos separados, bom dia, bom dia, bom dia centrais nucleares que desejais não serem acordadas, bom dia senhor ministro o que é que vem a ser isto, ei tu aí de saco cheio na cabeça, bom dia, paisagem, antenas, gruas, bichos-carpinteiro, a todos aquele abraço da manhã,
sem me esquecer de ti camisa rota,
surfistas em campo de milho,
dançarinas da meia-noite,
a ti também ó jesus que lá vou eu, e a ti ó tás-te a passar,
senhor doutor não fale mais em partir, ai que me arrepio, vai mais uma bolacha comendador. buenos dias a tu padre y a tu madre em limpeza espiritual, good morning capitão para que lado vou morrer? já agora um xi-coraçao à minha alma que conduz o meu sapato, ao meu peito em ruínas, que saudades de outros tempo!
um bom dia ao amor, mas que não volte a acordar tarde,
aos ombros deste grandioso andor,
aos manetas que me querem cumprimentar de mão e não podem,
ao lobo que anda por aí, ao salário que ainda há-de ser,
às amizades futuras que não contem comigo.
bom dia fortunas colossais, bom dia miséria sem inventário para descrever, famosos desconhecidos, à lógica sem ter lógica,
polícia ladrão,
padre sem vocação,
cabeça de pescada no prato,
os meus carnurentos bons dias,
ah quase me esquecia de vós outono\inverno que quando soprais, escolheis mal quem ides ferir,
ó sogreguidão que mal te fiz eu,
ih psicólogos armados em dramaturgos, oh tostão furado no olho direito da felicidade, eh batalha de leões contra formigas,
cantai ó velhos-novos acamados, ó lepresos, leprosozinhos parabéns a vocês,
se ainda tenho forças para vos dar bom dia é para vós arcanjos enganosos, reis de copas sem dama, minhas traças na roupa, minhas queridas revolucionárias, que vos saiba bem a minha pele também, os meus pensamentos cuidado, que dão azia,
xau aí minha santa, boa viagem para a coreia, que mal fiz eu em ser assim, bom dia greves e feriados, olho negro da costureira que diz que se aleijou,
a todos, a muitos todos, a minha voz ao alto, no empedrado onde deus pinta retratos, os meus sinceros bons dias, até outro dia, que eu agora...ah...que eu agora... vou dormir!
