31.10.09
e havia pássaros e anões na folia
e havia uma voz a sair da boca de um cavalo
e um cavaleiro de asas a dar boas-vindas
também tinha árvores de frutos reluzentes
onde as crianças enchiam os seus aventais com pedrinhas
tudo era calmo como nascimento de um caroço
talvez mais calmo ainda do que os espelhos de água
os homens não envelheciam com os dias
pois as horas eram esteios de luz sobre a paisagem
e nos campos havia um senhor a construir naus de cartão
para que o vento espalhasse os poemas mais virgens do planalto
e nesse instante acordei absoluto e orfão na casa do silêncio em que me demoro
29.10.09
27.10.09
25.10.09
eu escuto as grandes máquinas de produção humana
o delírio de uma gaivota que canta livremente
as ventoinhas siderais na fabricação do Outono
eu sou outra coisa! vida e morte em simultâneo
escutando homens que descem fundo para se conhecerem
como um cavalo cego em busca do seu nome
24.10.09
passei o dia a colocar a minha colecção de quadros nas paredes. finalmente preguei meus amigos numa parede que, segundos familiares meus, seria um bom modo de tapar buracos. a minha família é assim: toda cheia de tiques burgueses quando na verdade não passam de meros decoradores de cortinados. a casa ganhou outra respiração, eu próprio reciclei o ar dos pulmões. uma vida nova a circular pelo corredor, pelos quartos, na casa-de-banho mal arejada, como se a beatriz tivesse voltado para cá, carregada de filhos de outros homens. foi um facto, as pinturas deram cor, luz e imaginação, sossego, extensão de mar ao pensamento. até calhou bem, porque eu andava com falta disso tudo.
19.10.09
17.10.09
ora quilha-se!
14.10.09
9.10.09
as amizades só fodem um gajo.
o desenrasque é diploma que não posso fazer fé, pois dependo sempre dos materiais que tiver à mão. os sacos de cimento de 50 kg fizeram mazelas em meus ombrinhos.
logo, despedi-me da firme, com uma carta do médico, a diagnosticar-me demência precoce, para me dedicar a chular o estado.
foram dois anos de vida de morcego. muitas noites a jogar à batota e a ser servido por boas mulas. época de lorde, a bem dizer. e de dia, movido a remédios, escrevia umas croniquetas remelosas para o jornal da terra por vinte paus e umas buchas de trigo.
recordo ainda que comecei a engordar feito camionista, tudo à base de ovos e cebolada e, para contrariar esta decisão do meu corpo, dediquei-me a fundo à pratica da masturbação. desporto este que me fez ganhar bons bícips e com eles ganhar um campeonato regional de braço-de-ferro.
a helena tinha rompido comigo por uma merda de nada. uma noite estávamos em epiléctrica dança sexual quando troquei o nome dela por outra. não me perdoou e desopilou para a casa dos pais, levando consigo os meus vinis do manitas de plata. fiquei furioso e, como paga disso, fiz uma sande com os peixinhos dela, que ela tanto amava. quando soube, meteu dois capangas em perseguição contínua, um deles tinha ar de quem gostava de enrabar, e eu, jorge da conceição, como virgem que sou nessa área, tratei de mudar de cidade.
lisboa estava com um ritmo alucinante, as boites cheias, os pedintes enfeitam muitas ruas, há mulheres a venderem-se ao preço da chuva. os mariconços são mais sofisticados do que os do norte, sabem muito de cultura neo-realista. por enquanto nunca me caiu nenhum na sopa. pelo contrário, os meus amigos eram amigas de vários quadrantes sociais, desde empregadas de loja de ferramentas até a bailarinas de varão.
as boémias só produzem um mal, aliás, dois, mal à saúde e à carteira. ainda a receber o fundo de desemprego, ideias não faltavam e, de quando em quando, ia a uma casa de fados para descongestionar.
foi lá que conheci a andreia, divorciada há dois meses, a sofrer como um moranguito, cheia de vontade para arrombar uma braguilha. conversámos muito na primeira noite. ela tinha um porte bem arejado e umas mamas que, segundo a minha fértil imaginação, eram duas bondades. tratei logo de adiantar conversa. ela prestes para falar do novo livro do saramago, mas eu, assim sem mais nem menos, inventei uma dor de barriga, saímos de urgência do local e fomos apanhar ar numa encosta ali ao pé. pelo caminho deu-me uma vontade poética de comê-la, mesmo ali atrás do quiosque, mas mantive-me sereno, a meio pau.
afinal de contas eu sou um leão que sabe esperar.
para dar veracidade à minha dor de barriga, pedi-lhe que esperasse um pouco e fiz de conta que fui fazer atrás de uns bidões de gasolina. isso deu-me tempo para pensar na falta de respostas que o mundo tem para dar aos homens ao mesmo tempo que media o meu entusiasmo.
após esta rapidíssima tertúlia entre eu e o meu alter-ego, chegado à beira dela, convidei-a a conhecer um moinho sitiado em plena praia deserta. ela logo entusiasmou-se, sobretudo quando eu lhe disse que no seu interior ainda havia vestígios de visigodos. embora eu não perceba um caralho disso, disse-lhe isso.
a noite estava num estado fenomenal, diria mais, a noite estava perfeita para dar uma trolitada à luz da lua cheia. penso que, segundo o meu diário mental, será a primeira vez que farei em chão duro. só tenho de ter cuidado é com as aragens.
o meu corpo aquecia como se fosse a gás carbónico, eu só estava concentrado em. e ela sempre na sua meiguice, a olhar para todos os lados a ver se via os tais vestígios que falei, com aquele olharzinho de eucaristia mas que me dava cá um arrepio na costela número sete.
ao fim de dois minutos lá nos sentámos de frente para a lua cheia. eu não me importei, desde que ao fim de outros dois minutos ela tocasse violino aqui nas cordas dos meus pintelhos, está-se bem. no silêncio soube-lhe dizer coisas magnífcas, e na heráldica dos segredos dos amantes, também.
a minha mãozinha, com a prática de outros tempos, lá pousou na coxa dela, senti ali, um querer mais que bem que querer como disse o camões. comecei a subir, a subir, até à luz secreta. ela a contorcer-se mas a participar na borga. apertei-lhe a carne como uma vez vi aquele gajo italiano, peludo, dos filmes porno, a fazer. vocês conhecem.
quase perto de lhe conhecer o quinto império, dei tudo por tudo, passei-lhe a mão de leve na calcinha e, merda! desculpem o palavrão, mas foi aqui que descobri que ela tinha um enchumaço! e por sinal maior do que o meu! desmacarei-a, aliás, desmascarei-o com dois socos de cada lado. ele tirou a peruca e disse-me chamar-se rui!
(mudou o tom de voz, mais à homem)- então mano, não te lembras de mim? sou eu, o rui zincas, do liceu! óculos redondos, nariz de picareta, isso não te diz nada??
- o rui solha? o maricas? aquele que foi caço atrás do ginásio com a mão na massa de dois moçambicanos?
- esse mesmo!
- ei rui, estás...com um óptimo aspecto! dá cá um abraço, há que tempos! ó rui, desculpa lá, essas mamas são mesmo tuas? e esses biquinhos em tom de aveia, como conseguiste? posso...
antes que me atrevesse a comprovar a tenacidade delas, basei, a correr, a correr muito, a querer lá saber de artroses, que só parei em casa, dentro da bacia que faz de banheira, contemplando um sei lá bem o quê.
a partir desse dia cheguei à conclusão que as amizades só fodem um gajo.
5.10.09
poema: inspira, expira
os coelhos nos seus regressos a casa,
a dona maria a sacudir as passadeiras
os pássaros bocejando visões
as gruas
os automóveis azuis
as árvores a chuva e o milho
Mas mais que gruas que levam homens ao céu
inspira-me as luzes que cegam os mortos
O sol umbilicalmente aos dias
nas marquises
nos frutos
nas formigas a construirem suas pátrias
É você aí desse lado que me inspira
a descobrir que o silêncio é um bosque
a somar à dor de parto com que fico
Depois
expiro a casa que guarda o nome e os ossos dos meus avós
a criança na sua dicotomia de crescimento
este deus hipócrita partido em quatro
mas que eu amo
E se tiver tudo isto tenho amor
tenho Obra
e manjedoura
e Nath King Cole a dar voz às manhãs
Ó mar faz de mim um bonito cadáver!
3.10.09
monarcas e republicanos
protestantes e católicos romanos
senhor canalizador que no outro dia esteve lá em casa a consertar os meus livros editados
homens e mulheres dentro e fora de tempo
crianças no jardim das minhas estrofes
políticos sem sexo e caganeira.
Louvados sejam os meus críticos que resistiram à dor da minha dor
bibliotecários que não sabem em que estante me hão-de meter
senhora da loja que me baixou a baínha das calças velhas e assim poder continuar a usá-las.
Joaquim, obrigado pelo café do outro dia
pedro, que cigarro era aquele que me deste a provar, pá?
pai, amanhã falámos
mãe, o peixe estava bom
irmãos, guardem pelo menos o meu nome
isabella, desmarca a consulta
benfica, há muito que espero alegrias vossas!
doutor, algo me diz que o meu sangue está envenenado, ora confirme aí, por favor.
Cidade minha, qual é a tua?
ó pescador, que vai ser da tua vida quando os peixes voarem?
não digas nada, o futuro foi ontem.
ó índio, cede-me aí o teu cachimbo.
e se eu plantar os pés na terra, irei mais alto?
Meus queridos e desamados profetas
pensadores indecentes como eu
meu deus, desculpa aquilo do outro dia.
o meu país só chora, por que será?
digam-me na cara quantos anos afinal tem o mundo!
que raios afinal é um raio?
um dia o touro vai ganhar...
sentem-se à mesa que eu quero-vos dizer.
minto, na verdade não vos quero dizer nada.
niente, como dizem os italianos
apenas que aguardem um pouco nos vossos lugares
nessas poltronas onde a solidão reina com a sua coroa de alfinetes
mas não estranhem se a música tombar
ou se um fio de terramoto vos provocar enjoo
é que, pronto, vou ali cortar o fogo e volto já!