Encontra-se perdido numa rua talvez
Um poema branco de olhos hebraicos
Mãos de quem já versejou toda a terra
Pernas sujas de cortar caminhos
Tem um chapéu que o faz levitar
E pele de um linho que a terra amou
Não o procurem nas galerias de arte que ele não é desses
Nem em igrejas, nem em casas de diversão
É um poema simples com uma rosa ao peito
Não fuma, não bebe, nem se mete com mulheres bonitas
Gosta de olhar o céu porque é de céu que ele é feito
Ama como quem ama
E chora porque só assim mata a sede
O poema fugiu do pai que o escreveu
Por ser filho de uma insónia,
É provável que nele encontrem vestígios de sangue
Pois fora parido entre uma espada e uma parede
Da última vez tinha uma grande cabeleira
Vendia incensos pelas portas
E cantava a liberdade como o cego de Maio
afim de alimentar uma estrela polar
a troco de uma miragem
Não é Pedro nem João, chama-se Poema
E não é desses que anda por aí a urinar contra os prédios
Ou a apostar forte no amor
Mas sim alguém a quem a Vida não tem cão à porta
Quem vir o meu poema que o traga de volta
À cobrição do silêncio
À febre e à loucura sem retorno
Antes que o seu sangue, os seus versos,
Violem todas as leis, avancem para o abismo,
Enquanto eu, que sou homem evitável, mal caligrafado,
Preciso dele para me salvar.
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