27.2.10
26.2.10
22.2.10
20.2.10
19.2.10
sim, meu irmão, um dia chegará a hora de vestir novo fato. meter a cabeça no silêncio. construir nova infância.
até lá remamos. com braços de leme. grito de farol quando um barco se despenha. poderia falar-te da morte. mas é de vida que os mares são feitos. nossas rugas assinaladas são férteis memórias. o que dói é tudo o que está vivo. escuta-te para lá dos ossos e da carne. recorda-te que ao subires o monte também cresces. porque algo em ti renasce a cada instante. e não há poema maior do que o céu em noite de s. joão. sim, meu irmão, espero-te no cume desta montanha, o amor é já, mais intenso que uma colina, dedos na boca de um assobiador que chama pelos pássaros. vem, meu irmão, subir a terra, olhar o sexo do mar, entender de vez o sistema lunar. diz-me lá se não é bom estarmos aqui nestas alturas, tão próximos do céu que a verdade é uma cereja em nossos lábios
***
Não existe noite neste lugar: que são músculos salientes da terra. por aqui passaram poetas e trovadores, cientistas e saltimbancos, na tentativa de tocarem no céu. os pastores conhecem os trilhos, traçados pelos cascos dos animais. sabem que mais ali existe um rio pelo cheiro das amoras silvestres, pela chuva que cai e no chão da terra desenha um mapa. Os pastores tocam flauta como se fosse assobios de anjos. olha meu filho, vê os cavalos no expoente máximo da liberdade! pede ao arcanjo miguel que assim sejas quando fores grande. dar-te-á asas se à noitinha lhe pedires conselho. não temas a noite nem tão-pouco o uivo dos lobos. eles são ventos que outrora também foram à escola aprender. sabias que o senhor Torga passou por aqui e deu nome às pedras e às plantas? sabias que o silêncio da noite é uma pausa para olharmos as estrelas nos seus esplendores? çalca as botas, chama pela tua ovelha e vai. diz à mãe que acenda a lareira no quintal. esta noite, enquanto sujamos a boca com os grelhados e o eco do riso se prolongar até ao amanhecer, o poço vai encher-se de estrelas.
15.2.10
12.2.10
Por favor, queria dois quilos de ilusões. Ilusões, já não temos, acabaram ontem. Mas temos fantasias tenebrosas, sei que não é o mesmo, mas tem efeitos desejados. Contra-indicações? Para já, queixa nenhuma. Melhor não arriscar. E sonhos avulsos, sei lá, qualquer coisa em promoção, um ir e vir num jacto celeste. Tenho apenas um, que veio devolvido de uma senhora muito rica que sonhava ser um navio de oito patas para rasgar o firmamento. Como se deu mal pelo caminho, teve de regressar de imediato, acabando por aterrar em si mesma e, quando se viu ao espelho, tinha a boca cozida por um grosso fio de silêncio. Dizem que viu algo semelhante a um céu a arder. Enfim, enlouqueceu-se.
Mas ainda tenho na prateleira esperanças em comprimidos a bom preço, ou então ideologias ficcionadas sobre a atitude animal no colo de Deus. Desculpe, não sou homem de conflitos, preferia algo mais concreto, sem peso de consciência, mais do tipo aventura. Venha comigo! O homem, vestido com um fato de grilo, conduziu-me para uns escombros onde anjos e saltimbancos e anões jogavam à bola. (pausa para respirar) Por favor, dê-me apenas um comprimido para acordar.
8.2.10
Por que não olhas pelas criancinhas, pá? Por que não estás onde devias estar? Por que não respondes quando te perguntam? Deus, que conversa vem a ser essa de andares para aí a dizer que uns se salvam e outros não? Quem te fez assim tão ventoso que por vezes nem te escuto? Responde, pá! Inventaste os super-heróis para fazer serviço extra? Mandaste os poetas para a terra despachar certos assuntos que não ousas falar? Deus, e o amor? Responde, pá! Serás tu o nosso Deus bandido? Será o teu silêncio a maneira romântica de seres alguém? No fundo admiro-te, pá, porque, embora triste e olhar distante, mãos deprimidas, eu sei que tens as costas largas.
6.2.10
5.2.10
Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma .
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...
(Fernando Pessoa)
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