31.3.10
29.3.10
26.3.10
23.3.10
19.3.10
hoje sim amanhã não
Era terrível se não houvesse amanhã.
Se soubéssemos que isto tudo, pum.
E as bibliotecas em chamas.
E os heróis sem nada a fazer.
E os poetas com dores intestinais.
Eu chupava um rebuçado e aguardava serenamente o desfecho,
saldando os pecados, preparando duas mudas de roupa lavada,
uns quantos cigarros para o caso de a viagem para o outro lado ser longa.
Depois ligava a uns bons amigos e contava-lhes a última adivinha do século
ao mesmo tempo que lhes recomendaria calma.
Afinal de contas amanhã vamo-nos todos encontrar. Só que em outro lugar.
Despedia-me dos pássaros e das árvores,
olhava a terra com a leveza de uma música gregoriana,
aos meus vizinhos era um até já.
E, se ainda restasse um tempinho, terminaria um poema que anda comigo às voltas pelo mundo.
Algo sobre o amor de um peixe com uma gaivota.
Claro que tudo isto não passa de uma suposição já que ninguém vem cá dizer que esta loja universal vai encerrar para obras.
Divirto-me a calcular suposições, a tirar partido da minha ironia.
A fé está criando versões do original.
Os homens lamentam-se por saberem que a vida não é uma vida inteira.
Bem, já estou atrasado, já escuto um comboio a apitar que, por certo, fascinado em cortar os montes e os céus.
Se não houvesse amanhã acenderia um cigarro com os dedos,
dizia a deus: espera aí que já vou,
corria até ao mar para lhe dizer: sinto muito.
A dúvida é sim a maior certeza.
Amanhã pode estar calor mas o frio conserva melhor, até os pensamentos.
Portanto, antecipo a minha morte para amanhã,
porque hoje, ó porque hoje posso não estar aqui.
Se soubéssemos que isto tudo, pum.
E as bibliotecas em chamas.
E os heróis sem nada a fazer.
E os poetas com dores intestinais.
Eu chupava um rebuçado e aguardava serenamente o desfecho,
saldando os pecados, preparando duas mudas de roupa lavada,
uns quantos cigarros para o caso de a viagem para o outro lado ser longa.
Depois ligava a uns bons amigos e contava-lhes a última adivinha do século
ao mesmo tempo que lhes recomendaria calma.
Afinal de contas amanhã vamo-nos todos encontrar. Só que em outro lugar.
Despedia-me dos pássaros e das árvores,
olhava a terra com a leveza de uma música gregoriana,
aos meus vizinhos era um até já.
E, se ainda restasse um tempinho, terminaria um poema que anda comigo às voltas pelo mundo.
Algo sobre o amor de um peixe com uma gaivota.
Claro que tudo isto não passa de uma suposição já que ninguém vem cá dizer que esta loja universal vai encerrar para obras.
Divirto-me a calcular suposições, a tirar partido da minha ironia.
A fé está criando versões do original.
Os homens lamentam-se por saberem que a vida não é uma vida inteira.
Bem, já estou atrasado, já escuto um comboio a apitar que, por certo, fascinado em cortar os montes e os céus.
Se não houvesse amanhã acenderia um cigarro com os dedos,
dizia a deus: espera aí que já vou,
corria até ao mar para lhe dizer: sinto muito.
A dúvida é sim a maior certeza.
Amanhã pode estar calor mas o frio conserva melhor, até os pensamentos.
Portanto, antecipo a minha morte para amanhã,
porque hoje, ó porque hoje posso não estar aqui.
15.3.10
Amor
peço-te que juntes todas as estrelas num monte
e mostra-me o pormenor do hálito do silêncio
Põe a escada pensativa para descer e vê quem sou
Abraça-me com modos às cegas
desse modo saberás então que em meu corpo o xisto brilhará
Escrevo porque o vinho é coisa muito
Se pensas que a Verdade não existe
Experimenta o diálogo com as águas
Os peixes virão à tona segredar-te
O que é o amor
Essa beleza predadora
Amor
O movimento de translação só é possível com a força do ódio
Mandemos parar o Tempo com um grito
Antes que a boca mastigue em vão
E o polvo que habita algures no corpo ressuscite
Não faças do silêncio uma eterna apólice
Recusa essa sábia beleza
Em minhas mãos terás o conhecimento da terra que fora revolvida
Onde o silêncio defeca com serenidade
Sei lá que montanha me dedica o seu desnorte
Sei lá que horizonte combina com o meu traje de poeta
Sabias que tenho vindo a adiar sucessivas mortes
E nada me deste
Lembro que em teu corpo perdi a consciência
Agora ando por aí como o fruto que não vai ter a mão nenhuma
Enrolado no útero da terra
Onde um bicho morde o ânus
Amor
peço-te que juntes todas as estrelas num monte
e mostra-me o pormenor do hálito do silêncio
Põe a escada pensativa para descer e vê quem sou
Abraça-me com modos às cegas
desse modo saberás então que em meu corpo o xisto brilhará
Escrevo porque o vinho é coisa muito
Se pensas que a Verdade não existe
Experimenta o diálogo com as águas
Os peixes virão à tona segredar-te
O que é o amor
Essa beleza predadora
Amor
O movimento de translação só é possível com a força do ódio
Mandemos parar o Tempo com um grito
Antes que a boca mastigue em vão
E o polvo que habita algures no corpo ressuscite
Não faças do silêncio uma eterna apólice
Recusa essa sábia beleza
Em minhas mãos terás o conhecimento da terra que fora revolvida
Onde o silêncio defeca com serenidade
Sei lá que montanha me dedica o seu desnorte
Sei lá que horizonte combina com o meu traje de poeta
Sabias que tenho vindo a adiar sucessivas mortes
E nada me deste
Lembro que em teu corpo perdi a consciência
Agora ando por aí como o fruto que não vai ter a mão nenhuma
Enrolado no útero da terra
Onde um bicho morde o ânus
Amor
10.3.10
Que me ceguem as tardes
Que me roubem a alegria ao subir da estrada
Ou que todos os bichos me visitem quando estiver a fazer amor
Se esse amor não tiver contornos de uma rosa
Eu amo uma mulher
Uma epopeia de ventos e sóis
Uma árvore que cresce no sentido dos meus pulmões
Pergunto:
Tenho a janela aberta, será que dói?
Quem tem gramática para compreender o implacável silêncio?
Aqui estou de frente ao tempo invisível
A dar-lhe palha por uma fechadura
Multiplicando abelhas para sermos muitos mais que um Desejo
Que a minha loucura seja tabaco de enrolar
Que a solidão seja o espelho em que me olho e não veja porra nenhuma!
Amo as coisas que se formam no precipício da carne
Os azuis tão inocentes de um nada
A claridade que bate e perfura o mais íntimo de nós
Eu digo: a minha cabeça é um rebanho de ovelhas
O meu corpo: o pastor que se perdeu no pasto
Pena é que a lucidez não se beba por um copo
Nem que a verdade aceite fiado
O amor é aqui e agora: pele contra pele
E não sequer pensar que futuro é
Para a semana que vem
Amo sem nunca ter assinado contrato
Sem nunca ter ido a uma biblioteca
Ou escutado a dor em greve de fome
Crio o vazio e nele creio
Como creio na libertação das minhas mãos
No barro que moldo as manhãs primordiais
Amo o analfabetismo do meu sangue
Amo os insectos que me esperam no caminho
Amo o cansaço com que me deito
Amo e sou feliz nessa contradição
Posso até ser a morte viva
Um lápis à espera de ser aparado
Mas amo! Amo!
Amo e canto a serenata no hall do silêncio
e faço sexo com o meu nariz!
Que me roubem a alegria ao subir da estrada
Ou que todos os bichos me visitem quando estiver a fazer amor
Se esse amor não tiver contornos de uma rosa
Eu amo uma mulher
Uma epopeia de ventos e sóis
Uma árvore que cresce no sentido dos meus pulmões
Pergunto:
Tenho a janela aberta, será que dói?
Quem tem gramática para compreender o implacável silêncio?
Aqui estou de frente ao tempo invisível
A dar-lhe palha por uma fechadura
Multiplicando abelhas para sermos muitos mais que um Desejo
Que a minha loucura seja tabaco de enrolar
Que a solidão seja o espelho em que me olho e não veja porra nenhuma!
Amo as coisas que se formam no precipício da carne
Os azuis tão inocentes de um nada
A claridade que bate e perfura o mais íntimo de nós
Eu digo: a minha cabeça é um rebanho de ovelhas
O meu corpo: o pastor que se perdeu no pasto
Pena é que a lucidez não se beba por um copo
Nem que a verdade aceite fiado
O amor é aqui e agora: pele contra pele
E não sequer pensar que futuro é
Para a semana que vem
Amo sem nunca ter assinado contrato
Sem nunca ter ido a uma biblioteca
Ou escutado a dor em greve de fome
Crio o vazio e nele creio
Como creio na libertação das minhas mãos
No barro que moldo as manhãs primordiais
Amo o analfabetismo do meu sangue
Amo os insectos que me esperam no caminho
Amo o cansaço com que me deito
Amo e sou feliz nessa contradição
Posso até ser a morte viva
Um lápis à espera de ser aparado
Mas amo! Amo!
Amo e canto a serenata no hall do silêncio
e faço sexo com o meu nariz!
5.3.10
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