Já me cansa o mar, sempre aquele mesmo vai e vem das ondas,
a paisagem fixa do poente quase a desmaiar,
o pontinho negro lá ao fundo de uma embarcação
a confundir-nos com um pássaro que regressa,
o vendedor de gelados a puxar pelas veias do pescoço para gritar,
a bandeira verde,
amarela e vermelha, sem gente para tomar conta,
porque ser e nada é a mesma cousa
os godos qua atiramos à agua e voltam,
a areia fina e molhada que escreve os nomes,
a areia grossa que não deixa escrever os nomes,
os amantes nas dunas em espectáculos ao ar livre,
os homens de camisa aos quadrados à pescador
mas que não são pescadores,
a espuma do mar que nunca chega a dizer para que serve.
Também me cansa a terra,
os automóveis alterados, já sem cor primária,
as ruas largas onde cabem cinquenta mil pessoas sem
nenhum grau de parentesco entre nenhuma delas, as lojas
com manequins modernamente equipados a fazer
de chamariz, as fontes ali esquecidas, substituídas
pelas águas em garrafas de plástico, os semáforos
intermitentes a esquecer memórias, os sinais de proibição a decidir
para que lado tenho de ir, os cães à espera de um dono, os chulos
a falar de literatura, as casas valentemente arquitectadas a
esganarem-se umas às outras,
os jardins onde os homens libertam cheiros dos sovacos.
Também me cansa o ar,
o sol a mostrar quem manda, as estrelas de aluminio,
o azul que cá para mim nem sabe ser claro nem escuro,
as nuvens carregadas de revolta e há quem diga que é de chuva,
o deus lá mais em cima, muito lá em cima,
a imprimir livros de banda desenhada, a festejar os seus milhões de anos,
os anjos mudos, o vento mortinho por se revelar, os relâmpagos a fazer dos homens tão pequeninos.
Cansa tudo isto, sempre esta dor revestida de veludo,
as manhãs,
as tardes e as noites a disputarem o dia, os relógios de pulso
a quererem ser donos do tempo, a dona Maria à janela
a perguntar se esta semana escrevi para o jornal,
e sobre quê,
as crianças que chutam a bola sem direcção, as árvores tristes
por não conseguirem vergar a espinha,
os gatos de língua presa no novelo, as mãos sem pulso
o senhor Dantas a dizer que se não fosse o destino
daria um bom guarda-redes, o cardeal que quando se lembra
põe-se a cantar à varanda. O amor escondido no colo de um filho da mãe.
Cansa-me perguntar onde dormem os pássaros,
elaborar sonetos para atingir o amor, acender um cigarro já aceso,
lembrar a vida, esquecer a morte,
lembrar a morte, esquecer a vida, passar a ferro os poemas amarrotados,
enlouquecer por uma ninharia, cansa dizer caramba,
mais aquela dor exótica do romancista,meditar sobre a palavra palavra,
perdoar a masculinidade da solidão, entrar em guerra para sair em paz.
Cansa-me pensar que amanhã voltarei a pensar em tudo isto,
no mar,
na terra,
no céu da minha boca, na minha idade à beira rio,
no sol que me aleijou, na carga que tive de deitar borda fora do silêncio.
Por bem existe um poema de tempo interminável,
versos de muletas à espera de ficarem curados,
sonhos na manga que um deus não soube bem costurar,
pedaços de nada e fartura, rimas por rimar, a loucura sem tratante,
cores,
música,
vinhas simbólicas que o poeta transformará em pétalas,
água, mistério, ruínas,
comboios por cima das cabeças,
ilusões retalhadas a canivete,
lume, pedra,
sombra na sombra,
flor, grito, coração recheado com baunilha,
gaveta, e tudo o que a verdade mentir,
tudo isto é preciso para a vida inteira,
para a morte incompleta,
a saber que o Ser é muitas coisas,
tantas outras que até o gato comeu, já que, depois da festa,
só a poesia salva!
31.5.10
29.5.10
28.5.10
Qualquer descrição tem o poder de iludir, de disfarçar o que é mais concreto. O amor é o amor e, por muito que se ande às voltas, seja ele poeta, alquimista ou filósofo comum, o amor vai dar sempre ao amor.
Toda a gente sobrevive com a espinha partida mas, sem amor, dificilmente se levanta. Ao contrário daquele que corre atrás de si mesmo, o amor tem caminho próprio, embora com inícios de solidão, acaba por dar em luzes, sopros de luz a sabermos onde podemos colocar os pés e as mãos e, o que é miragem, deixa de o ser.
O amor, perde a sua beleza quando é centro das atenções, pois ele é como um fado que pede silêncio e recusa o aplauso. Para amar basta chegar. Partir, nunca é o bastante.
Liguei-lhe para que viesse ter comigo ao lugar A, que fica na rua G, lá para os lados de K onde existe um restaurante muito bom a servir um vinho que faz libertar todos os ômegas guardados.
Ela depressa se despachou, retocou suas pinturas sem grande precisão e meteu-se no carro e veio.
A meio do caminho disse-me estar a chegar e que desse modo podia já pedir aquele arroz de pato à casa.
A meio do caminho disse-me estar a chegar e que desse modo podia já pedir aquele arroz de pato à casa.
Quando chegou, a travessa da comida tinha sido colocada na mesa nem há um minuto. Sentou-se como que um nada incomodada pelo atraso, pois havia parado na loja T para comprar um verniz e um par de brincos feitos de marroquinaria.
Conversámos sobre X, Y, Z mas principalmente sobre o assunto que nos fez sentar,
frente-a-frente, numa mesa, nesta noite em que a lua é um O perfeito.
frente-a-frente, numa mesa, nesta noite em que a lua é um O perfeito.
Chegamos a um acordo bilateral e, para vincar o acordo, demos um cumprimento de mãos. Acabada a refeição, cada um pegou no seu casaco das costas da cadeira. Vestimo-los e saímos calmamente para a rua.
Como é normal, a rua tem dois sentidos. Eu tomei o sentido da direita e ela, o da esquerda. Uma troca de olhos foi o bastante para nos despedirmos ali e cada um seguir o seu destino, porventura para casa, onde, mais tarde, nos havemos de novo encontrar e aí sim, depois de atravessarmos o pequeno corredor da sala, na cama do quarto, esquecer por umas horas todas as incógnitas.
25.5.10
Não se compreende os lugares afastados da casa. o sítio onde deixámos os chinelos e o miolo do pão. as silvas que nascem e cobrem janelas. sem poesia. dedos que riscam janelas de ténue olhar. despeja gavetas como se ninhos violasse. existir não é verbo reciclável - basta perguntar a uma pedra. fechou-se bem fechada a espaços náuticos incompreendidos. sacos de plásticos em vez da roupa de domingo. anda pela casa amarela. tocando-se nua. à mulher bateu-lhe sol no ventre. muito sol. colocou-se em posição fetal e pariu um filho silencioso. o sol virou costas ao baptismo e partiu
18.5.10
15.5.10
E se eu te disser que o atlântico não é mais que um rio?
se te disser que as algas não são exclusivas do mar?
rir-te-ias com certeza da fauna que me cresce nos dedos.
do rumor da minha carne que sacia os pássaros daquele pinheiral.
não repares no meu estilo torto de andar.
foi provocado por um livro que li à nascença. não sei bem o que dizia.
talvez fosse tarde demais para aprender
se te disser que as algas não são exclusivas do mar?
rir-te-ias com certeza da fauna que me cresce nos dedos.
do rumor da minha carne que sacia os pássaros daquele pinheiral.
não repares no meu estilo torto de andar.
foi provocado por um livro que li à nascença. não sei bem o que dizia.
talvez fosse tarde demais para aprender
11.5.10
Escrevo-te com a ternura de uma criança ao nascer
com a mesma intensidade de um tronco a furar a terra
Escrevo-te porque estou de regresso
deixo para trás os silêncios apunhalados
assim como a escrivaninha que era meu leito preferido
Se diluíres as sete luas a guache e carvão
encontrarás meu cadastro em pequenos versos
sem que no poema se note uma mancha de sangue
Escrevo-te com um olho aberto e outro fechado
na esperança de inventar uma raça à prova de tristeza
trabalhando a terra
de onde emergirá a Primavera
tão lúcido quanto a loucura iluminada
Alcançar assim desse jeito uma braçada de estrelas
a aproximação dos nossos corpos esquecidos
que a seu tempo lhes darei o pão e o ensinamento das palavras
Por saber que Grande poema é a noite e o mar que me detém
escrevo-te
Ainda que o meu sangue esteja cego e gasto.
com a mesma intensidade de um tronco a furar a terra
Escrevo-te porque estou de regresso
deixo para trás os silêncios apunhalados
assim como a escrivaninha que era meu leito preferido
Se diluíres as sete luas a guache e carvão
encontrarás meu cadastro em pequenos versos
sem que no poema se note uma mancha de sangue
Escrevo-te com um olho aberto e outro fechado
na esperança de inventar uma raça à prova de tristeza
trabalhando a terra
de onde emergirá a Primavera
tão lúcido quanto a loucura iluminada
Alcançar assim desse jeito uma braçada de estrelas
a aproximação dos nossos corpos esquecidos
que a seu tempo lhes darei o pão e o ensinamento das palavras
Por saber que Grande poema é a noite e o mar que me detém
escrevo-te
Ainda que o meu sangue esteja cego e gasto.
7.5.10
Depois do sucesso do concurso, "Acha que sabe dançar", agora, envio a sugestão para um qualquer canal televisivo que queira aproveitar a ideia. AQUI VAI O SLOGAN, que pode bem ser acrescentado
Acha que sabe roubar?
Se é daqueles que tem dinheiro e ninguém sabe de onde veio, consegue suportar duas amantes, não tem qualquer pudor em falar em público, faz gestos delicados para impressionar o freguês, tem o talento de esconder com um sorriso o que lhe vai na alma, veste bem porque sabe que com isso ganha pontos, tem os colarinhos sempre nos trinques, rouba aqui e rouba acolá sem dar muito alarido, foge às finanças, suborna dois ou três, pede fiado para nunca mais pagar, sabe mentir com os dentes todos e depois desdiz, volta a dizer o que já não se lembra, gosta de ajudar os amigos porque é bom tê-los por perto para ter com quem partilhar o champanhe e o marisco, a troca de favores. Se acha que sabe ler um texto de política em frente aos ecrãs sem carregar muito nos erres, sabe prometer como gente grande, tem um anel de oiro no dedo que, tanto que reluz, que faz cegar os outros, então, esta é a sua hora!
Inscreva-se neste concurso televisivo que lhe dará muitos proveitos onde, os cem finalistas, terão como prémio um cargo político à sua disposição e o vencedor, o apoio de um partido para se candidatar às próximas eleições.
Basta que saiba roubar e apontar as culpas a outro.
Inscreva-se já! Tem um país à sua espera.
nota: o vencedor desta edição, irá disputar com outros finalistas da zona euro, cujo prémio aliciante será um lugar de destaque no parlamento europeu. De que é que está à espera, oupa!
5.5.10
Caso raro, mas acontece. O homem comia-se a si mesmo. Sem trabalho, sem dinheiro, sem ajudas de ninguém, o homem, aos bocado, lá se ia desaparecendo, comendo-se. No outro dia foram as duas orelhas para o tacho que, após bem condimentadas, meteu-as dentro de um pão e comeu-as. Isso segurou-lhe o estômago por dois dias. Depois comeu meia perna. De seguida, meio braço. Como se pode perceber, o homem ia desaparecendo. As pessoas no fundo admiravam-no, pela coragem, pela sua luta de sobrevivência.
Chegou um dia em que só tinha a cabeça e o tronco mas, como não tinha mãos para fazer o que quer que fosse, chateava-se. Tanto se chateava tanto se chateou, que acabou por morrer de ansiedade.
3.5.10
Certo é que Xis não consegue parar de escrever e Épsilon não consegue parar de ler o que Xis escreve. Pode parecer uma doença, pode, mas não creio em evidências. Alguma justificação deve haver.
Reparo: quando Xis abranda de escrever, ou por cansaço ou por falha de ideias, Épsilon começa a suar, a antever a sua queda para o chão. Noto que existe ali, além da cumplicidade, uma mútua dependência.
Todos os dias Xis escreve o que lhe vem à cabeça, tendo em conta que tudo vale a pena ser escrito.
A seu lado, está Épsilon que, mesmo lendo em voz alta, em nada incomoda o raciocínio de Xis.
Os vizinhos sabem desta loucura e comentam que eles deviam ser expulsos do prédio pois dão maus exemplo às criancinhas.
Para eles, este acto, é comparado a um cão em permanente cobrição numa cadela. Logo, todos concordaram que este não é melhor local para pessoas cuja personalidade foge às regras internas do condomínio, onde está explicitamente bem claro, e assinado por todos os residentes que, naquele prédio, independentemente do grau de instrução, só se aceitam pessoas que vivam de boas aparências.
Reparo: quando Xis abranda de escrever, ou por cansaço ou por falha de ideias, Épsilon começa a suar, a antever a sua queda para o chão. Noto que existe ali, além da cumplicidade, uma mútua dependência.
Todos os dias Xis escreve o que lhe vem à cabeça, tendo em conta que tudo vale a pena ser escrito.
A seu lado, está Épsilon que, mesmo lendo em voz alta, em nada incomoda o raciocínio de Xis.
Os vizinhos sabem desta loucura e comentam que eles deviam ser expulsos do prédio pois dão maus exemplo às criancinhas.
Para eles, este acto, é comparado a um cão em permanente cobrição numa cadela. Logo, todos concordaram que este não é melhor local para pessoas cuja personalidade foge às regras internas do condomínio, onde está explicitamente bem claro, e assinado por todos os residentes que, naquele prédio, independentemente do grau de instrução, só se aceitam pessoas que vivam de boas aparências.
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