30.8.10
26.8.10
Um dia na casa amarela
Estou aqui
Como podia estar acolá dentro de um vaso
Numa de experimentar ser flor
Que come e bebe do que lhe dão
Podia estar na Jamaica a apanhar calor
Ou no fundo de um poço possante
A criar laços de amizade com o silêncio
Podia estar em qualquer parte do mundo
A contar anedotas num palco
Estar viciado em literatura moderna
E comer páginas inteiras para fingir que morro
Podia dizer que sou outra coisa
Para além daquilo que sou e teimo
Pedir a direcção do mar a uma gaivota
Que veio à cidade comer uns aperitivos
Podia ir mais abaixo que o fundo de mim
Verificar se por lá existe alguma porta aberta
Por onde o vento arrasta os mendigos,
Os frutos e as manhãs nucleares
Cantar o amor à janela de uma janela qualquer
Ou medir distâncias entre o passado e o futuro
Com um morto em pé
Ou fundar o amor a par da revolução que aí vem
Podia engolir a bússola que me há-de dizer
Para que lado fica os poetas mortos
que nas mulheres fazem alegrias
Onde é que se sonha com uma perna às costas
Quem anda por aí a dizer que a verdade pariu pela boca
Podia evitar sal na comida e assim evitar poemas salgados
Cair ao chão, partir-me em quatro
E aprender como se inicia uma nova vida
Sem dar baixa nas finanças
Procurar um céu dentro do céu
Ver Deus a costurar asas aos Homens
Com o fio de uma extensa lágrima
Podia morrer de vez em quando
Para assustar o sonho e a vida
Cantar como se fosse o primeiro
A quem a morte o beijou
Podia ir à casa do Herberto H.
E falar-lhe das minhas plantações de poemas
Mas sei que o Herberto H. tem a sua plantação de poemas
Mais bem cuidada do que a minha
E está louco, mas a rir,
Porque os homens acham que a plantação faz-se na terra
Espero um dia colher bons poemas à boca de sino
E chamar os amigos cá a casa para um almoço
Dar um verso a cada um
E no final chamar o cão-poeta para fazer um bailado
Podia ser marinheiro, ideia a percorrer o mar,
Azul terra, verde céu, menino branco no colo de mãe-preta,
Podia ser grande como o Herberto H.
Ou como o Daniel
Que antes de ser livro fora árvore andante
E eu podia ser o nem tão pouco mais ou menos
Ou aquela luz que a noite roubou
Sim podia, mas a verdade é que eu estou aqui
E daqui vejo tudo a crescer
Os poemas também
Isto é,
Desde que o sol não seja em demasia
E os minhas mãos não façam tremer a paisagem
Como podia estar acolá dentro de um vaso
Numa de experimentar ser flor
Que come e bebe do que lhe dão
Podia estar na Jamaica a apanhar calor
Ou no fundo de um poço possante
A criar laços de amizade com o silêncio
Podia estar em qualquer parte do mundo
A contar anedotas num palco
Estar viciado em literatura moderna
E comer páginas inteiras para fingir que morro
Podia dizer que sou outra coisa
Para além daquilo que sou e teimo
Pedir a direcção do mar a uma gaivota
Que veio à cidade comer uns aperitivos
Podia ir mais abaixo que o fundo de mim
Verificar se por lá existe alguma porta aberta
Por onde o vento arrasta os mendigos,
Os frutos e as manhãs nucleares
Cantar o amor à janela de uma janela qualquer
Ou medir distâncias entre o passado e o futuro
Com um morto em pé
Ou fundar o amor a par da revolução que aí vem
Podia engolir a bússola que me há-de dizer
Para que lado fica os poetas mortos
que nas mulheres fazem alegrias
Onde é que se sonha com uma perna às costas
Quem anda por aí a dizer que a verdade pariu pela boca
Podia evitar sal na comida e assim evitar poemas salgados
Cair ao chão, partir-me em quatro
E aprender como se inicia uma nova vida
Sem dar baixa nas finanças
Procurar um céu dentro do céu
Ver Deus a costurar asas aos Homens
Com o fio de uma extensa lágrima
Podia morrer de vez em quando
Para assustar o sonho e a vida
Cantar como se fosse o primeiro
A quem a morte o beijou
Podia ir à casa do Herberto H.
E falar-lhe das minhas plantações de poemas
Mas sei que o Herberto H. tem a sua plantação de poemas
Mais bem cuidada do que a minha
E está louco, mas a rir,
Porque os homens acham que a plantação faz-se na terra
Espero um dia colher bons poemas à boca de sino
E chamar os amigos cá a casa para um almoço
Dar um verso a cada um
E no final chamar o cão-poeta para fazer um bailado
Podia ser marinheiro, ideia a percorrer o mar,
Azul terra, verde céu, menino branco no colo de mãe-preta,
Podia ser grande como o Herberto H.
Ou como o Daniel
Que antes de ser livro fora árvore andante
E eu podia ser o nem tão pouco mais ou menos
Ou aquela luz que a noite roubou
Sim podia, mas a verdade é que eu estou aqui
E daqui vejo tudo a crescer
Os poemas também
Isto é,
Desde que o sol não seja em demasia
E os minhas mãos não façam tremer a paisagem
22.8.10
19.8.10
Procura-se poema?
Encontra-se perdido numa rua talvez
Um poema branco de olhos hebraicos
Mãos de quem já versejou toda a terra
Pernas sujas de cortar caminhos
Tem um chapéu que o faz levitar
E pele de um linho que a terra amou
Não o procurem nas galerias de arte que ele não é desses
Nem em igrejas, nem em casas de diversão
É um poema simples com uma rosa ao peito
Não fuma, não bebe, nem se mete com mulheres bonitas
Gosta de olhar o céu porque é de céu que ele é feito
Ama como quem ama
E chora porque só assim mata a sede
O poema fugiu do pai que o escreveu
Por ser filho de uma insónia,
É provável que nele encontrem vestígios de sangue
Pois fora parido entre uma espada e uma parede
Da última vez tinha uma grande cabeleira
Vendia incensos pelas portas
E cantava a liberdade como o cego de Maio
afim de alimentar uma estrela polar
a troco de uma miragem
Não é Pedro nem João, chama-se Poema
E não é desses que anda por aí a urinar contra os prédios
Ou a apostar forte no amor
Mas sim alguém a quem a Vida não tem cão à porta
Quem vir o meu poema que o traga de volta
À cobrição do silêncio
À febre e à loucura sem retorno
Antes que o seu sangue, os seus versos,
Violem todas as leis, avancem para o abismo,
Enquanto eu, que sou homem evitável, mal caligrafado,
Preciso dele para me salvar.
Um poema branco de olhos hebraicos
Mãos de quem já versejou toda a terra
Pernas sujas de cortar caminhos
Tem um chapéu que o faz levitar
E pele de um linho que a terra amou
Não o procurem nas galerias de arte que ele não é desses
Nem em igrejas, nem em casas de diversão
É um poema simples com uma rosa ao peito
Não fuma, não bebe, nem se mete com mulheres bonitas
Gosta de olhar o céu porque é de céu que ele é feito
Ama como quem ama
E chora porque só assim mata a sede
O poema fugiu do pai que o escreveu
Por ser filho de uma insónia,
É provável que nele encontrem vestígios de sangue
Pois fora parido entre uma espada e uma parede
Da última vez tinha uma grande cabeleira
Vendia incensos pelas portas
E cantava a liberdade como o cego de Maio
afim de alimentar uma estrela polar
a troco de uma miragem
Não é Pedro nem João, chama-se Poema
E não é desses que anda por aí a urinar contra os prédios
Ou a apostar forte no amor
Mas sim alguém a quem a Vida não tem cão à porta
Quem vir o meu poema que o traga de volta
À cobrição do silêncio
À febre e à loucura sem retorno
Antes que o seu sangue, os seus versos,
Violem todas as leis, avancem para o abismo,
Enquanto eu, que sou homem evitável, mal caligrafado,
Preciso dele para me salvar.
17.8.10
6.8.10
ÀS VEZES confundo arte com conhaque
Arte é dor que vai doendo
Conhaque é conhaque
Que pensará o fósforo quando se acende?
Realmente é tudo uma questão de se lhe perguntar
Um velho acamado espera a sua justiça
As infâncias raramente se acham
Nada tem de negativo
É apenas uma questão
Que terei de colocar a um fumador de charutos
De preferência cubanos
Com Havana em espiral movimento
E o Fidel quase morto ainda aceso
Ponho um lápis na orelha
E finjo-me poeta
Terei de rever as minhas análises
O sangue perfeito
O motor ainda dá
De amores não acusa nada
Na gaveta tenho inúmeros verbos
Se calhar mal conjugados
Arrisco?
Às vezes dou uma passa no cigarro e aperto os lábios
Tiro fotocópias à minha cabeça e falo com ela
Do duplicado escolho o mais feio
Fico então com a impressão que a escolha é de arte
Depois de ler Cruzeiro Seixas vejo que não
Que não há arte nenhuma nos cabelos que ficaram
na lente da fotocopiadora
Os monstros são só para criar cenários
A pornografia é um estado de alma
E Galileu tinha muita alma com certeza
Os versos das meninas do bar sete são compostos por exageros
Empastam a tinta entre os dedos
Sujam seus caracóis e publicam mesmo assim
Depois do editor cometer o seu crime
Um ladrão ao dar-me um esticão no saco levou-me o braço
Por sorte nasceu outro braço no lugar do outro
Acha que isto é arte?
Estou farto de dizer
Arte é o desenho que faz as varizes
E conhaque é a mesa misturadora dos egos e super egos
Passe bem!
Arte é dor que vai doendo
Conhaque é conhaque
Que pensará o fósforo quando se acende?
Realmente é tudo uma questão de se lhe perguntar
Um velho acamado espera a sua justiça
As infâncias raramente se acham
Nada tem de negativo
É apenas uma questão
Que terei de colocar a um fumador de charutos
De preferência cubanos
Com Havana em espiral movimento
E o Fidel quase morto ainda aceso
Ponho um lápis na orelha
E finjo-me poeta
Terei de rever as minhas análises
O sangue perfeito
O motor ainda dá
De amores não acusa nada
Na gaveta tenho inúmeros verbos
Se calhar mal conjugados
Arrisco?
Às vezes dou uma passa no cigarro e aperto os lábios
Tiro fotocópias à minha cabeça e falo com ela
Do duplicado escolho o mais feio
Fico então com a impressão que a escolha é de arte
Depois de ler Cruzeiro Seixas vejo que não
Que não há arte nenhuma nos cabelos que ficaram
na lente da fotocopiadora
Os monstros são só para criar cenários
A pornografia é um estado de alma
E Galileu tinha muita alma com certeza
Os versos das meninas do bar sete são compostos por exageros
Empastam a tinta entre os dedos
Sujam seus caracóis e publicam mesmo assim
Depois do editor cometer o seu crime
Um ladrão ao dar-me um esticão no saco levou-me o braço
Por sorte nasceu outro braço no lugar do outro
Acha que isto é arte?
Estou farto de dizer
Arte é o desenho que faz as varizes
E conhaque é a mesa misturadora dos egos e super egos
Passe bem!
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