27.9.10

escreve com absurdos
com palavras Bêbedas ou não
com palavras vindas do altar
escreve com ganância
como quem pare a noite
e vem devolver o desejo
a quem o viu nascer

escreve com fogo na voz
e incendeia os lábios
de quem não ousa dizer
escreve como quem ama
a sua própria nudez
e sê inteiramente criança
a falar sem falar
a sonhar toda a noite
em cada asa
está um parapeito
para que olhes
a linha
que não é linha
eu e tu
única pessoa
a olhar de dentro
pela persiana do mundo

vomita de ti o ser mais delirante
despe-te
e escreve nua
porque eu quero um poema nu
somos o que a vida nos trouxe
e o amor perpétuo em cima da cabeça de um anjo mudo
sonha comigo nesta realidade
canta o azul enquanto é verde
cria o rio neste meu deserto
que eu tenho barco e remos
e um sopro para dar na vela
deixo-te neste meu cais peitoral
com voz esmigalhada

escreve o dom de morrer
a certeza que seremos eternamente
um sol em nossas mãos

escreve com loucura sempre em pé
com letras terrivelmente belas
e sorri
como se aprendesses o verbo
e um sonho invadisse a tua garganta
que não é garganta
é o caminho que estou
dá-me um beijo
enquanto escreves

14.9.10

O que me inspira é o farwoest aqui no meu país,
Os piratas em terra,
A maravilha da burla,
Os equinócios trocados,
Os dias de festa na casa do marquês,
São os sonhos que buscamos no meio da lama,
É o primeiro-ministro quando abre a boca para dizer ei pá,
É o secretário do primeiro-ministro que não abre a boca para não dar com cheiros,
É saber que amanhã pode não haver pão,
É a fé em alvoroço por saber que há homens na terra que, enfim…
O que me inspira-me são as altas máquinas a exporem as suas vaidades,
É o grito que rasga a boca de quem o gritou.
É a dona Miquelina
que desconhece que hoje em dia existe muitas ruas que vão dar à morte,
Que é leiga em saber que mais vale uma dor de dentes
do que dentes cravados no amor.

Depois há a esperança que não vê um boi,
Há o sol a derreter as poucas fantasias,
Há o pouco que muito se tem,
Há o dom de tombar e recomeçar de novo,
Há a miséria que não passa com comprimidos.
Tudo isso inspira-me, e amo o azul do céu que vai caindo sobre nós,
Amo a crise do meu país que nos deixa a pensar friamente,
amo os políticos,
as mulheres dos políticos,
as amantes dos políticos,
os bandarilheiros, os forcados, os enforcados
os que vão à forca, os que estão para ir,
os que sonham ser felizes, os que não sonham,
os que sei lá bem

Amo pensar que estou fodido para a vida inteira.
E isso inspira-me a ser homem que corre imaginado para o sul,
A amar o défice público,
A noite que atravessa os dias,
O silêncio que não é menos do que uma espinha na garganta.
Amo a hipocrisia dos que prometem e se ajoelham por uma falinha mansa,
Amo a lúxuria e a vaidade dos novos-ricos,
O tom sarcástico do futuro,
A perna alçada da ministra a dizer é bom mas não é para ti.
Inspira-me também o ladrão que vai a fugir,
O outro que trabalha em gabinetes e despacha ofícios a preço xis,
Mais aquele que com lei ou sem lei
Mete-nos a mão na dentadura.

Tudo isto é lindo,
É bom ser português e não ter casa para dormir,
Casar com uma velha que nos é desleal,
Ter um copo fundo para uma sede funda,
Chorar a contra-relógio, a sonhar com paralelepípedos,
Pedir clemência aos peixes para que venham ao prato
porque a isca acabou, comemo-la nós.

O que me inspira é a matança lenta de um porco,
E a carne mal repartida,
e a história que nos contam para acreditar
Que há lugares no autocarro para o amanhã,
E o desejo de não sobreviver em caso de incêndio,
O paleio dos que vêm à televisão atirar flores,
As cartomantes que sabem-na toda,
O isqueiro aceso ao pé da botija de gás,
O crédito bancário que nos prende pelas pernas, pelo pescoço,
A música que toca em Sol tenebroso,
A saia justa da esperança.

Inspira-me o não saber da noite nem da luz,
O caviar que nunca comi, nunca vi
Mas sei que existe na barriga de uns
E na ganância de outros

Aquela rapariga que anda na moda cujo nome é desigualdade,
as altas patentes da dor,
O sorriso rasteiro de uma criança,
A chuva que nem aquece nem arrefece,
O amor sem telhado,
O delírio de ser gente, o sangue analfabeto do burguês.
Inspira-me os anéis de ouro nas vitrinas à espera de dedos finos e delicados,
O manual de instruções para se sobreviver,
A bandeira que só serve para limpar os cantos da boca,
Os que não aguentam tudo isto e põe fim ao que ainda não começou,
As árvores sem posição para dormir,
Os painéis solares sobre a cabeça da morte,
O pensar que Deus nos vai valer.

Amo ficar aqui à espera,
A ser comido pelo desassossego,
Andar de quatro para me encontrar,
Ruir sonhos para começar outros,
Fumar a paciência sem deitar fumo para fora,
E sonhar com as greves do país,
E chorar porque sou tão feliz,
Dizer ao taberneiro que amanhã fica tudo liquidado,
Olhar a paisagem mal dividida,
A cidade a roubar aos campos,
A verdade em contra-mão,
As janelas com vista para o passado.
Amo saber que o destino é um prego voltado para cima,
Que a pequenez é mais do que imagino

Amo e sou feliz nessa foda,
Que não tenho salário digno mas imagino-o,
A solidão a arrombar o corpo e a mente,
A velocidade do naufrágio,
A burra inteligência do dia-a-dia.

Inspira-me o litro do combustível sempre a subir,
A mão-cheia de rosários e a outra decepada,
As estatísticas de quem não trabalha,
Os mendigos que vêm bater à minha porta,
Os amantes nunca antes vistos,
A porrada que o invisível me dá,
O atirar a moeda ao ar e ela não cair,
As mulheres que se vendem
As mulher que se dão
As que estão por decidir.

Inspira-me saber que não sou o único
A pesar o céu e o inferno
A construir barracas no ventre da lua,
E sonhar imperfeito como um Deus talhado à pressa,
E ser vento por não poder ser outra coisa
E amo os porquês, e a vida inteira atrás de mim,
Porque sou poeta e triste,
Sou um ser que não existe.

- Ó Portugal, se fosses uma gaja boa, juro que fazia-te um filho!

7.9.10

Sento-me num banco
Como todos os dias me sento neste banco
De encosto perfeito e quatro pernas
Como podia só ter três pernas
Ou duas
Ou nenhuma

Um banco é uma força construída
Por alguém que imaginou
E eu imagino-me
Sentado
Nas calmas de uma poeira a assentar no chão
A puxar pela cabeça
A ver se estico o pescoço
Para ver o seguimento deste mundo
Mas nada disso acontece
Porque estou sentado
E o sangue estabilizou
Na estrada nacional do silêncio

Às vezes ponho-me a olhar os peixes
Que pairam sobre mim
E a forma como dançam aos pares
E piscam os olhos uns aos outros
Mas sempre sentado nesta cadeira
Que é do tempo do meu avó
Em que também ele se sentava
A atirar pequenas pedras ao infinito
Para que a morte não lhe trouxesse a dor

O meu avô morreu sentado nesta cadeira
Que tem quatro pernas mas não anda
Pois o que anda é o pensamento
E o desejo de construir um lugar
Onde o amor é tão real que parece pessoa
Mas na verdade
Sentei-me num banco vazio
Para assistir ao fim do mundo
E, o que é triste,
é que daqui a nada batem-me à porta