29.11.10

Quem sou? Muitos eus, muitos mins, muita variedade
de procurar, achar, traduzir a morte mais bela

27.11.10

não! ela não era maior e nem melhor que: o poema, o rio e os braços; era o amor que passava sem procurar dar nomes às Coisas e aprendeu nesta noite que amadurecer magoa

autor: C. G.

26.11.10

ela pediu-lhe que pusesse as mãos no fogo,
e ele pegou numa agulha em cada mão
e pôs-se a bordar pássaros de água

22.11.10

dueto

não questiones a sintaxe
olha-te para lá do verbo
sê-te livre como um livro a galgar caminhos
como as águas rebentadas de uma gravidez

não queiras ser suporte de uma lâmpada
nem a luz redonda que fica no chão do teatro
escreve o nós como se o nós
fosse a vida diante do espelho
ou como aquele profeta que foi à morte e voltou
apenas com o pretexto de repetir a cena

caminha para o poema
pelo centro da dor das palavras
agita-as numa vontade de mar
até veres no fundo da música
os pássaros brancos




Vejo que nunca te disse como escuto música e, fico assim, a pensar nessa forma de caminhar, quando não me vês, de poder tocar-te sem que me sintas e, por vezes a escrever-te longas cartas em mar alto. Este quadro preso por trás de ti, sensibiliza o arrepio de saber o sabor-a-ti  nos teus instantes de lembranças,  tão objetivos a escorrer pelos traços negros e finos. Ouve-me com teu corpo? Ouve-se a música. Pinto os meus quadros quando escrevo-te inteira na palavra intocada sem restringir tudo o que não se esquece, como aqueles pássaros de água na qual pintaste com dedos, contornando as asas como quem depositas segredos. É assim que crio os alicerces, pelas páginas que me dedicas. Nada como amanhecer em chuva e, perceber que no pensamento arrisca distraidamente o que não cabe nas entrelinhas; o casulo onde me recrias.

20.11.10

amanhã foi e o presente já era, disse o sr. Ontem
tomou o silêncio como um soro, e a partir daí, começou a entender o rock'n roll

19.11.10

pediram-lhe que amasse, e ele amou
pediram-lhe que sofresse, e ele sofreu
perguntaram-lhe quem era Deus, e ele sangrou pelas narinas

17.11.10

não dês a Deus aquilo que falta ao teu vizinho

15.11.10

a vida é um escândalo e a morte é pornográfica, disse o poeta mudo

9.11.10

falava de trás para frente por julgar que assim caminhava para o passado. atirava pedras para o fundo de um poço numa de acordar o silêncio. julgava que deus era uma planta com raiz no firmamento. agora que está a dois passos de morrer, percebe que toda a sua vida foi um pretérito imperfeito

8.11.10

evita sal na comida, assim como críticos na tua ferida

6.11.10

sempre quis ser ilusonista, homem que tira sonhos por magia e, ao contrário de muitos, nunca tirou coelhos de uma cartola, nem vez alguma se desintegrou no espaço-ar. o seu talento era simples e incalculado: tirar do peito a criança que há em si.