21.12.10

o pai não o deixava escrever poemas, porque para o seu pai,
escrever poemas é coisa de maricas, não deixam crescer a barba de um homem e,
um rapaz, para ser homem a sério, tem de primeiro ir à bola, aprender
como se racha lenha numa só machadada.
mas o rapaz, lá na mesa de jantar, dizia que tinha um pássaro
dentro do coração que queria voar e, só por dizer,
o seu pai batia com a mão na mesa que o fazia assustar e fugir para o quarto,
onde, sozinho vai crescendo com os seus poemas escondidos na cabeça,
lá num cantinho,
pois para ele, a cabeça é o melhor lugar para se esconder de tudo
e de todos. Um dia, enquanto brincava na rua, caiu, deu de corpo inteiro
no chão e desmaiou. O seu pai estava por perto e foi de
imediato socorrê-lo e, ao ter o filhos nos braços, cheirou-lhe a morte.
E chorou. Chorou tão intensamente que, uns pequenos pássaros,
vindos da ferida aberta do lado esquerdo do peito do rapaz, foram-lhe beber água aos olhos.

10.12.10

O sol bate nas pedreiras como o aniz em teu rosto orvalhado. a densidade cósmica quando tocas os lábios na toalha da tarde adia a greve. imagina o que seria da tempestade sem obstáculos para derrubar. ou corações sem bocas-de-incêndio.
como o vinho azeda também as pernas perdem os seus jeitos náuticos. as aves perdem a permissão de repousar nas linhas telefónicas. a cal para sempre nos bidões. o mar sempre mais além. a literatura resumida a uma estante de sonetos vazios. não olhemos as marés como sequestros. as árvores que sonhamos darão um dia ameixas pelos beirais

9.12.10

se te farta a primavera, chama o Outono para a derrubar.
se te irrita o ar que te rodeia, manda-o levar no traseiro.
se te puseres no lugar do morto, saberás o valor de uma vida.
se crês que o amor é uma longa história, então começa já a escrevê-la

8.12.10

Daquilo que amo, demoro o olhar sempre
mais um bocado. ainda que um traço no quadro
da vida me atire para fora da moldura, insisto
olhar o mar à montanha como um camelo à sede,
levando às costas a paisagem muda. não importa
se verto lágrimas pelas narinas ou se o que choro não
escreve o poema mais fraco, sujo, ordinário.
importa-me sim o tempo, os sonhos com as cabecinhas
de fora, os olhos a entrarem pelo ânus da felicidade. como
um guerreiro que perdeu a sua espada, espero o
amor na minha pele, na carne volumosa do
coração, no mais dentro de mim onde ninguém
possa sequer ter ouvido falar.

6.12.10

e prometeste-me que nos amaríamos até à última gota
de sangue, e eu prometi-te que nos amaríamos
até á última gota do meu sémen, que no verão
faríamos sexo no ar como fazem os insectos, e que
morrer seria dar a deus o amor que nos pertence, e
que eu ia conhecer o teu cão, esse guardador de
insónias, e depois a tua tia que está louca, e o teu
pai morto nos braços da tua mãe morta, e que de
todas as vezes que eu me calasse ias ouvir a vida
por dentro, e que as lágrimas dariam para lavar
os nossos sexos, e que no fim da noite o sol voltava
a casa, e que eu deixaria de fumar e de beber para
não sujar o teu hálito, e que o silêncio jamais criaria
vertigens, e que a dor seria apenas e só objecto
cardíaco, e que do fundo viríamos à superfície mostrar
ao mundo o nosso amor, e depois voltar ao coração
do coração, ao lugar mais infinito onde a morte
não existe, e a vida também não, só tu e eu, a nadarmos
entre sombras e poemas, feitos a tinta de água

2.12.10

vou fazer muitos poemas e engatar muitas raparigas. e fazê-las
pensar que sou daqueles que passo horas em frente ao mar, a estudar
o voo ascendente dos peixes, a deitar gotas de
cio nas palavras para
que se sintam desejadas. vou fazer muitos poemas de amor, tantos
quantos possíveis para engravidar todas as raparigas solteiras do
mundo que me queiram ler. e ter filhos
que mais tarde vêm ter
à minha porta e ver que eles são aquilo que inventei para serem.
ter nos versos um certo desgosto para que tenham pena e me
atirem beijos do mar em que estão. quando me sentar para
escrever quero ser homem aos poucos, ter a felicidade de uma
rameira ao finalmente chegar a casa, pôr o fogão no mínimo,
abeirar-se da cama e sonhar com o milagre das coisas boas.
vou fazer muitos poemas, tantos que a minha mãe me dirá
para parar se não quiser enlouquecer. mas eu digo-lhe, que
assim seja, que me afunde contra as palavras e o mundo seja
apenas um verso
em que arrisco a vida.
as raparigas solteiras vão ficar palermas ao ler os meus poemas
que falam e soletram
aquilo que elas escondem debaixo das suas saias. vão querer
tatuar frases minhas no fundo das costas para que junto delas
reclame direitos de autor.
e vou rimar fogo e água no mesmo coração,
e vou tirar as botas às letras
maiúsculas, depois abrir a torneira aos dias claros e existir longamente.

as raparigas solteiras não vão querer ficar menstruadas no dia em
que fizer poemas, e o meu pai bater-me-á
se cometer uma qualquer discordância ortográfica, e nem me deixará mudar de linha
enquanto a noite tiver escárnio na língua. as casadas que me perdoem
mas vou fazer muitos poemas para as raparigas solteiras, tirar-lhes
as medidas letra a letra e acabar nos seios delas com uma
menção honrosa. quando escrever quero mijar no tempo
para não perder demora, fazer de conta que a vida me fascina
e ser a terra onde o cão esconde o osso.
inventarei um morto
e roubarei ao Herberto Hélder sangue e luz dos seus livros
para assim cantar como canta o fogo

Vou fazer muitos poemas, tantos que a caneta ejaculará a
sua tinta azul fluorescente por toda a página e as raparigas
solteiras pensarão que a proeza foi toda minha, e
perguntarão à minha mãe onde vou morrer esta noite,
onde guardo o nome dos remédios valiosos
vou escrever nos bilhetes de comboio,
nos manuais de instruções,
nos peitos das aves,
nos sinais de trânsito,
no coração da luz,
no cu do judas,
no céu do meu quarto,
vou ter grandes erecções
só de pensar que nenhum crítico me vai ler, que nas estantes
bibliotecárias só os poetas loucos me dirão, podes vir.
ah, vou fazer tantos poemas que os animais vão querer provar desse pasto,
a lua vai-se algemar e a solidão vai fugir com um italiano.
vou dar cabo das religiões,
entrar no fogo da simbologia,
abrir o túmulo do Fernando Pessoa e sacar-lhe inéditos. e as raparigas
solteiras vão-me admirar toda a eternidade, vão querer casar com
todos os meus eus, os meus mins que andam de cá para lá algures
entre o crânio e os carpos. e eu, assombrado como um deus
a aprender o instinto, a ter amor em cada palavra
e matar
a anterior.
E as raparigas solteiras que não sabiam que matar
era morrer, choram, ao perceberem que o poema afinal, acaba mal

1.12.10




Zeca Afonso (letra)

A Paz viajou em busca da silêncio
Sitiou Berlim
Abdicou em Londres
A Paz saltou dos olhos do poeta
Atacada de psicose maniaco-depressiva
Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas nao viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa

A Paz saiu aos saltos para a rua
Comeu mostarda
Bebeu sangria
A Paz sentou-se em cima duma grua
Atacada de astenia
Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas nao viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa