29.3.11

Era uma cidade pequena que tinha ruas pequenas casas pequenas os homens eram pequenos no entanto eu era o mais pequeno deles todos apenas e só pela particularidade de achar que a cidade era pequena e tinha ruas pequenas com casas pequenas e os homens eram pequenos quando afinal o tempo ensinou-me que tudo é uma questão de plano e a geometria é apenas osso

20.3.11

Livro vezes livro é igual a humanidade

17.3.11

Feitas as contas à vida verificou que os seus livros são um erro absoluto. 
Nem vale a pena reescrever tudo de novo. Voltar ao passado significa 
acender as mesmas fogueiras e os egoísmos. Todo o homem tem 
uma esperança de vida, é amamentado pelas tetas da esperança, e 
ganha cornos de poesia. O homem escreve-se em torno de si mesmo. 
Fala do outro como se o outro fosse a sombra de uma sombra de 
uma sombra. E fica tão fácil abrir portas ao firmamento quando 
a morte se nos derrete nas mãos. Os livros são a soma de muitas 
vidas, por isso é que, quando morre um livro, morre um país.

16.3.11


Deitar-se numa cama irreal, dormir ao lado de uma mulher absurda, sonhar com disparates e acordar religiosamente
Quando caminha tem o hábito de olhar para todos os lados, não vá uma faísca vir por aí desgraçar-lhe a vida. Sabe que tudo é vago na sua memória, que tem histórias alucinantes para dar cabo da literatura, mas fica-se pela frustração e o bater dos queixos até doer. As coisas vistas de cima parecem belas, mas, à medida que perdemos altitude o cheiro invade logo as narinas. 
Arrasta-se pelos dias, puxado por uma coleira de cólera. 
A magnitude de tudo isto é que pode sonhar com futuros cor-de-rosa e ninguém tem nada que reclamar. Na sua cabeça manda ele e ele é a sua cabeça e pouco mais. Um dia fez um filho à solidão e nasceram vinte poemas soltos que os reuniu em livro para editar quando for velhinho. 
A paciência é um lume. 
Tem acreditado bastante em fantasias, nomeadamente aquelas fantasias sem chão nem cama. Quando acordar para a morte quer ser um peixe que voa pelos instintos maternais. Sabe que está fora de toda a sincronização mas debate-se para libertar as algemas e chamar os astros. E assim, compassivamente, monta o seu próprio esqueleto.

14.3.11

É no teu colo que a paisagem se torna maior
É no teu sorriso que a confraria busca ideias
É na toalha quente da noite que o poeta constrói seu palácio
É no embrião da noite que Jesus Cristo sobe a rua numa jangada

Mas, o que é o Ser se ele não é nem pode ser?
Que culpa têm os mortos de não poderem falar sobre as orquídeas cheirosas? Que profecia tem o Sol quando não nos enamora?
A verdade é apenas um utensílio que o poeta traz ao peito
Um fósforo capaz de acender sua chama debaixo d’água
Uma grua que faz a ponte entre-luas

É no verso da noite que o silêncio é contrabandista
É no som da espingarda que as rimas são fracas
É no paladar da cegonha que se adivinha mais um filho
É com a cabeça dentro do poço que se escuta o avanço do mar

Mas que adianta se a lua é uma bujiganga vista aos meus olhos?!
Ou se os dias cinzentos são apenas lugares comuns?!
A escuridão pode ser um elemento decorativo deste Teatro
Mas a noite não! A noite é um território a decidir! Os amantes que falem!

Quem quer comprar a noite repleta de poetas e malabaristas?
Quem partiu o dia em dois sabe que o amor não entra na contabilidade
Sabe que o Homem é mistura de várias cores primárias
Sabe que as curvas não se endireitam ou se se endireitam
É porque sobre a pele traçam-se rotas de fogo
É porque o arqueiro treina de noite e de dia a sua astúcia

Entendes o dialecto do cigarro quando se consome?
Não?! Então experimenta o salto para uma roseira
Com o delírio a juzante do pensamento
Reduz o céu a um lápis e a uma sebenta
E nela escreve a noite e a escuridão com a fome de quem padece
Com o grito que agora é já a mulher com quem te deitas
O berbequim como última penitência
A virgindade das raparigas extraídas num assobio de macho valente

É na poltrona matinal que o incerto desata o fardo
É na manha do esquilo que se monta o esquema lunar
É no prelúdio do beijo que o chão mais parece um tapete persa
É na neblina sedutora que abrimos o peito e tocamos a conga

Tenhamos a orquestra sempre a nosso lado
Bordemos o pano antes que a velha Esperança se deite a valer
Transporta o piano para o mar alto com o cuidado de uma parteira
E toca a noite e a escuridão dentro da mesma mortalha
Toca a fome e a sede na boca operária do poeta

Os bandidos também padecem de incertezas
Os umbilicais conduzem-nos à nascente
Ó que viagem tão peninsular és tu ó Noite!
Meu quartzo dependente! Minha esposa de trocar lamentos!
Quem diria que só o Sol é quem nos afasta...
Quem saberia falar de ti para além dos poetas malditos?!

O teu traje de luar mandaste-o fazer ao cabo do mundo
Os teus olhos de ameixas não há Egípcia que os copie
Tens um colo que eu reconheço pela intensidade do faro:
Após vida inteira a cheirar pétalas e pétalas
Ó escuridão que poema te hei-de eu dar senão estes trechos de bicho a espreitar a toca?
Que mania tem a sombra de se parecer com o seu proprietário?
Se a noite é uma mulher como lhe pegar na cintura?

É na multiplicação das aves que o teu véu se produz
É na história sem fim que o anel cabe no dedo e jamais de lá ele sai
É no redemoinho do vento que nos parecemos irmãos
É na fé das buganvilias que eu corro para te ver

Que seria da noite sem a escuridão?
Que ilusionista tira o céu de uma cartola?
É justo não haver justiça
Senão o que seria dos que se amam às escondidas?

Ó noite posso perder toda a força mas o teu cântico não!
Posso enterrar todos os vícios mas a tua vontade sobrevive!
Talvez o absolustismo seja a tua veia solene
Talvez a estrela maior seja o nosso apartado
Quando às sete da manhã te vais a âncora toca no fundo

A noite é um grande cinema em que as cabeças estão duas a duas
É a loja sempre aberta onde o porteiro é um anjo pouco decidido
É o grevista que nos acompanha para todo o lado

Ó noite de famas glórias Que partido é o teu senão o nosso?
Quem te pôs escamas no dorso para que brilhes ainda mais?
Quero-te toda em versos a meu lado
Quero inventar-te um vestido com a saliva que me resta
Quero arranjar um prego que nos unifique sem magoar
Porque tu nunca me sobras Nem com lábio descaído
Não te derretes Nem com a voltagem do grito
Ó noite de várias comungações!
Ó fruto escolhido da escuridão!
É de ti o meu agrado A alucinante navalha que risco Liberdade
As papoulas que me salvam da fome do jantar

Sempre que o mundo se afasta ficamos mais unidos
Tocamos a corneta e os pássaros logo vêm À gruta do nosso sossego
Que é este nosso coração nocturno De sedas revestido

Que seria da noite sem a escuridão?
Que fato Deus mandaria fazer senão este que ela tem?
Que ovário pariria a sua luz de Natividade?
Confesso que à noite passeio pelo bosque do meu pensamento
Que desligo o cérebro e canto ao ritmo da nascente

Sou uno no meu relógio visceral
Um migrante do quarto para o pátio e do pátio para o curral
Sabes porquê ó flor do meu comércio?

Porque a noite é o espelho em que me demoro 
E retoco a farsa para o dia de amanhã
É o vinho que o taberneiro diz sempre que não há
É a mãe-preta que se preocupa se eu já inventei o amor
E que me põe o dedal para escrever assim
Que me põe a sorrir tal a perdiz que se escapou
E me deixa feito cisne a luzir na escuridão da noite!

6.3.11

não importa saber quem sou,
quem fui ou quem serei.
se escrevi nas linhas ou
nas entrelinhas. se a solidão
foi o meu melhor amigo ou não.
importa sim, é saber que
há ruas-acima, ruas-abaixo.

5.3.11


Que os teus abraços abertos sugiram o voo
e que na brandura do sono a tua cabeça seja o ceptro
onde nenhum servo põe a mão,
pois só tu és águia na raiz do firmamento

3.3.11



o surrealismo é tudo o que não consegues dizer,
é o que olha ao redor do interior dos frutos
é gesto-gesso-movimento

o surrealismo é o pescoço que dá a volta completa
é olhar de cima sem precisar de subir
é uma criança à beira-rio sacudindo as águas para fazer mar

o surrealismo são dez dedos na mesma mão
são ventos, são viagens por dentro
em barcos à manivela
em dias puxados pelos dentes