30.5.11

A vida sem poesia é uma música morta


a vida sem música é uma poesia morta

27.5.11

quando a um poema nada se recusa
as palavras desbravam em nós a emoção celta das gaivotas
que, por saberem de fuso-horários,
correm traduzidas para o mar.

26.5.11

abre-me o corpo e vê como a noite dorme.
pousa os olhos no sossego da terra,
naquele espaço em que se aprende a sonhar como os marinheiros,
e faz de conta que o amor é uma viagem sem retorno.

25.5.11

sei do mar, sei das trevas, sei da vida;
sei que demorei muito para lá chegar.

24.5.11

sonho com as coisas invisíveis
e vejo-as ao redor da minha sede

sonho com as coisas infindáveis
e percorro-as pelo centro da minha fome
se morrer agora, que seja num poema teu
para que numa só palavra me devolvas à vida
e acorde rio no dia seguinte
num pais verde e amarelo
com um sol grande ao meio
a derramar-se

18.5.11

quando a força de sonhar ergue a flor descendente
e as corolas fazem-se de passadeiras
então é hora de poema
de cuspir a mais perfeita dor
com toda a pele e sem vacinação

6.5.11

não me importa a solidão nem a literatura. não quero saber 
dos pássaros nem dos campos nem de marinheiros que 
atracam em manicómios. só quero saber onde raio andas tu, 

ó Deus de uma figa, que me deixaste aqui a escrever sozinho, 
feito palerma, no meio de tanto poema, tanta ferida, tanta
sede impotável, tão cheio de ausência até empossar a garganta, 
sem silêncio para adorar, sem infância para envelhecer,
para que muitos possam ler e rir da primeira à última dor!

2.5.11

Só tu poeta, escutas a prenhe terra, adivinhas 
quando um fruto vem em queda livre e atiras a tua vida 
estendida como lençol para o amparar. só tu poeta, nasceste 
na colisão do sol e lua, maturas a semente feito um outono ao chegar,
tão crente como a terra a fechar uma ferida. só tu poeta, corres 
atrás da imortalidade, porque sabes que por detrás das palavras
estão outras palavras, que são as tais que brilham
no útero ardente do pensamento.