27.6.11



o que escrevo é simples:
tem morte e vida no mesmo buraco do umbigo
tem desejos secretos de parir um boi
cabe em qualquer ferida
na língua sádica do coração
na demência precoce do trompetista
no mais pequeno cofre do amor

os meus versos são indecências acabadas de nascer
mas são da mesma forma que nasci
o que escrevo é o resultado da soma entre a fome e a sede
não preciso que venham matemáticos dizerem-me
que a morte é raiz quadrada de um escuro qualquer
ou de literatos dizerem-me que ódio leva assento no O
escrevo porque não me ensinaram nada sobre costura
escrevo para corrigir a minha vida
escrevo para conhecer o escuro por dentro
escrevo porque tenho dois ou três filhos
escrevo porque o taberneiro não aceita fiado
escrevo para aprender a bater asas

escrevo para fazer circular o ar 

escrevo porque a dor é um dom

escrevo porque não há carne no frigorífico

escrevo na medida do impossível
escrevo porque atrás de mim está outro mim
escrevo porque a psiquiatria fica dispendiosa
escrevo porque a esperança é uma espera
escrevo para me levantar do chão
escrevo porque não tive outra escolha 

escrevo porque o vazio ocupa-me bem

escrevo por saber que o amanhã não existe
escrevo porque vivo morrendo
escrevo para boi dormir
escrevo para ter noticias de mim
escrevo porque a palavra é um rim
escrevo porque não tenho terra para lavrar
escrevo o sangue ainda existe
escrevo porque a lucidez é uma chatice

escrevo porque a consciência é a minha empresa
escrevo porque fui picado por um insector

escrevo porque entendo que não entendo
escrevo para ter olhos nos olhos
escrevo porque o absinto não faz melhor
escrevo porque não sei morrer de outra maneira
escrevo porque estar sozinho é uma merda!

escrevo para não estar calado
escrevo para viajar sem ter de ir
escrevo mas depois não leio
porque a minha escrita dói!

enfim, o que escrevo é simples.
excepto quando as memórias vêm com tinta fresca!

23.6.11

Da primeira vez que fui ao teatro passei a amar o escuro
Da primeira vez que li um poema passei a existir por dentro
Da primeira vez que fiz amor passei a ficar mais tempo em casa
Da primeira vez que disse meu Deus dois pássaros suicidaram-se
Da primeira vez que olhei uma flor entendi a ópera
Da primeira vez que sonhei incendiaram-se-me as pálpebras
Da primeira vez que te vi o relógio tombou
Da última vez estavas no teatro a fazer um poema 
E pediste-me que te levasse a casa porque tinhas dois pássaros em flor
A sonhar com o tempo de agora.

20.6.11

Se for preciso
expira sobre o poema os tsunamis do oriente
e que do céu de Portugal
possas arrancar a mulher
como um cacho que espera as tuas mãos

E ainda que ao romper da noite
as árvores façam doer a terra
desliza no mármore do tempo
e canta como o Eugénio cantou
até que os versos rimem na carne

Se for preciso
vai à fonte encher os olhos
para que possas chorar pianisticamente
a partida e o regresso
daquele que lutou no travesseiro
por um melhor sono

Incendeia o interior das pedras
ergue em ti a catedral dos arvoredos
constrói um povo com o som de uma viola
e verás que nada se subtrai
tudo é fresco como as couves do meu jardim

Mulher ama o teu homem
homem ama a tua mulher
o poema também se faz de contra o vento
e haverá quem o ponha na língua do tempo
porque a seguir à garganta tem outra garganta

Se for preciso
levanta-se um morto sem lhe dizer porquê
unta-se-lhe um pouco de vida para que fale
de igual voz a um livro de memórias
em que os nós se multiplicam na corda dos dias
e perfeito é não saber que o dia tem cordas
mas saber que uma voz não se derrete

Ó cabos de alta tensão! Ó música idêntica a fogueiras!
Para que lado vão as feridas? Quantos santos se recusaram a ser santos?

Quem embala sempre corre mais depressa
e eu corro como um jumento que carrega - A vida
as manhãs inteiras na cabeça
a cana de pesca
as colheitas de uma solitária ramada
e todo o resto são varizes acomodadas

Eu digo:
As aves poisam nos astros simbólicos das minhas mãos
e penso nelas como quem espreme o sangue dos frutos
E o meu reino é o crepúsculo movimento
onde imito safiras
e lá num ângulo de uma musa
canto como uma onça no seu acasalamento

Ó rio que por mim atravessas! Ó solidão sem fronteira!
Agarra os pulsos da janela e escreve novas paisagens
inventa uma legião de estranhos para lhes dares a conhecer
os poemas mergulhados em saliva
os cantos maiorais do poeta
a vida enquanto é viva
para que a sede seja só uma expressão
pois nada é certo que o vinho termine amanhã!