18.11.11

Quando eu morrer chorai por mim ó minhas velhas
ressuscitai os meus cabelos sentimentais
façam da dor algo mais que sofrer
façam-me cocegas nos pés com penas de pavão
acendam-me um cigarro inglesado
ponham-me poemas eróticos em vez de flores
rezai para que não abra a boca
quando eu morrer contem-me o dia de amanhã
não façam caso dos meus olhos fechados
pensem antes que estou a fazer amor às escuras
ou a meditar como em tantas outras vezes
ou a contar os tostões para logo à noite
Quando eu morrer não peçam para contar uma última piada
deixai-me ver a vida através das sombras
mas podeis falar alto e dar palpites sobre como morri
se o que fui foi ignorar-vos
ou se a minha única virtude foi saber cambalear
Quando eu morrer as crianças podem vir à janela
lançar confetis e tartes de morango
os tambores podem dividir a fome comigo
e os anarquistas lançar panfletos de amor sobre mim
Quando eu morrer esqueçam que há greve na Carris
que o governo é um travesti sem cosmética
que os banqueiros cobram altos juros por cada lágrima
esqueçam que o fogo é uma valsa lenta
dançai a meu redor
toquem cornetas e reco-recos
cantai até a terra ficar azul
quero provar das vossas indecências
quero ensandecer com um forte abraço
quero possuir o tempo como nunca fui capaz
quero-me vir só de saber que o infinito é já acolá
quando eu morrer haverá mais de mil homens e mulheres a sofrer
não porque eu tenha morrido
mas porque a minha voz ficou inacabada.

14.11.11

Porque enxotas o silêncio?
- Para dar de beber ao pensamento-casa

Porque morres todas as noites?
- Para aprender o instinto das libélulas

Porque amas as iniciadas flores?
- Para encontrar a fuga dentro do sono

Porque lês as mãos?
- Porque sou uma mulher amena, a inclinação da tarde.

11.11.11

vivi inúmeras palavras
assanhei a terra com os dedos
construí girassóis ao lado da casa
fiz poemas que são como mapas
pus crepúsculo numa jarra 
sou um quase Lugar
uma ideia sem promessas -  sem cal
e sobrevivo na folhagem do sossego
rente às estações.

10.11.11

À noite a música vomita o seu perfume
encosta-se ao lirismo das violetas
e sente-se o chão cada vez mais longe

9.11.11

ando há dias para te escrever
mas só hoje aquela luz vinda do nada
me entrou no peito como um salmo
e quase desmaiei ao ver que a verdade
é tão certa como o cheiro de uma rosa
sabias que colecciono mortos?
que o meu quarto está repleto de poetas loucos
sinais de vida em cada andor
cometas que sangram e deixam rastos
pelas páginas que vou pisando
e temo Deus porque ainda sou criança
e sou daqueles que chora pelos barcos
confio o futuro aos heróis da banda desenhada.
ando há dias para te escrever
tenho sonhado com poucas-vergonhas
porque no princípio de mim há
um anarquista de cabeleira verde
de pés enterrado na terra
à espera de sinónimos tão claros
que a Água dá um grito.
Todo barco é uma dor
os pássaros inventaram a religião - Felizes são 
os guarda-florestais no mês de janeiro!

8.11.11

 .: Quem desenterra, quer achar .:

7.11.11

- Questiono-me como uma dor. E percebo a voz dos insectos -