Quando eu morrer chorai por mim ó minhas velhas
ressuscitai os meus cabelos sentimentais
façam da dor algo mais que sofrer
façam-me cocegas nos pés com penas de pavão
acendam-me um cigarro inglesado
ponham-me poemas eróticos em vez de floresrezai para que não abra a boca
quando eu morrer contem-me o dia de amanhã
não façam caso dos meus olhos fechados
pensem antes que estou a fazer amor às escuras
ou a meditar como em tantas outras vezes ou a contar os tostões para logo à noite
Quando eu morrer não peçam para contar uma última piada
deixai-me ver a vida através das sombras
mas podeis falar alto e dar palpites sobre como morri
se o que fui foi ignorar-vos
ou se a minha única virtude foi saber cambalear
Quando eu morrer as crianças podem vir à janela
lançar confetis e tartes de morango
os tambores podem dividir a fome comigo
e os anarquistas lançar panfletos de amor sobre mim
Quando eu morrer esqueçam que há greve na Carris
que o governo é um travesti sem cosmética
que os banqueiros cobram altos juros por cada lágrima
esqueçam que o fogo é uma valsa lenta
dançai a meu redor
toquem cornetas e reco-recos
cantai até a terra ficar azul
quero provar das vossas indecências
quero ensandecer com um forte abraço
quero possuir o tempo como nunca fui capaz
quero-me vir só de saber que o infinito é já acolá
quando eu morrer haverá mais de mil homens e mulheres a sofrer
não porque eu tenha morrido
mas porque a minha voz ficou inacabada.