28.2.12

Acredita que os homens nascem da terra tal como nascem 
as papoilas. Acredita que os amantes existem para salvar o amor,
que a morte é o espelho inconsciente da vida, que as andorinhas
vêm para matar saudades, que os filhos saem pelo coração. 
Acredita na chuva, principalmente na chuva miudinha, 
que na terra escreve cartas de amor. Acredita no pano cru 
para bordar histórias. Acredita no sorriso franco dos animais, 
nos livros do Daniel, nas cítaras, nos escribas noturnos, 
no pão cego do poema, nas manhãs de hoje da Sophia,
nos automóveis azuis, nos pullovers azuis dos insetos. 
Acredita na dor das palavras esdrúxulas,
no sangue circunflexo do silêncio. só não acredita 
nos domingos e dias santos.

13.2.12

Eis-me diante do altar da aurora
a pensar no porquê do recuo das marés
enquanto um filho nasce-me no interior dos ossos

Eis-me no colo das madressilvas
lançando lágrimas aos relógios
enquanto a terra procria as suas janelas

10.2.12

Quem disse que para ver o mundo de cima era preciso ir além da escada?
Quem disse que o amor é o alfabeto das pontes levadiças?
Quem disse que à tua porta a minha (esverdeada) solidão bateu?
Quem disse que o poeta cavalga vinte vezes mais que o sangue do vidro?
Quem disse que a morte tem pressentimentos e brinca como uma criança?
Quem disse que a vida escreve-se de bruços?
Quem disse que, afinal, loucos são os pedreiros?

6.2.12

O meu amor pode ser fraco,
mas tem voz que abraça
as árvores 

A minha poesia pode ser fraca,
mas imagina mães a guardarem
pássaros no ventre 

Os meus sonhos podem ser fracos, 
mas são da cor do mar
quando descalço os pés.

3.2.12

Que nunca te canse olhar o tempo, as flores, os rios, a poesia, ou sequer o amor. A sapiência está na capacidade de ler as legendas.