16.11.09
e ainda que cegas escrevem no chão a direito - as sombras
15.11.09
e tenho um barco que roubei numa história
tudo é imaginação,
excepto o roubo
que eles não vão entender
lavam as almas e guardam os ossos
constroem castelos invertidos com
finos pedaços de pensamento
e deixam sonhar a troco de uma lágrima - os mares
14.11.09
7.11.09
é preciso pensar como um relógio sem fundo
ter afecto igual a uma girafa
e sonhar que debaixo de um rio existe outro rio
que é lugar culto e heróico
onde os pássaros dormem e procriam
é preciso acreditar nas mãos
nas águas que correm imaginadas
e no fogo que estampou os mandamentos
olhar uma mulher sem a desconfiança de um touro
para construir o futuro não é preciso tábuas do passado
é preciso pensar como as árvores e como os frutos
que nos seus namoros terão filhos exactos
pois é no Creio que as imagens se tornam lúcidas
6.11.09
e haviamos de ter o arado para rasgar nossos caminhosde sonhar tão inabaláveis que a terra transpirava música
e os dias de primavera não teriam cápsulas
para escorregar melhor na garganta
mas depois veio o inverno
e a falta de lenha
ao que o meu corpo desprendeu-se do teu
como um cristo a separar as águas
e deixámos promessas nas folhagens
que mais tarde leriamos
assim que tu soubesses ler, e eu escrever
3.11.09
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.
31.10.09
e havia pássaros e anões na folia
e havia uma voz a sair da boca de um cavalo
e um cavaleiro de asas a dar boas-vindas
também tinha árvores de frutos reluzentes
onde as crianças enchiam os seus aventais com pedrinhas
tudo era calmo como nascimento de um caroço
talvez mais calmo ainda do que os espelhos de água
os homens não envelheciam com os dias
pois as horas eram esteios de luz sobre a paisagem
e nos campos havia um senhor a construir naus de cartão
para que o vento espalhasse os poemas mais virgens do planalto
e nesse instante acordei absoluto e orfão na casa do silêncio em que me demoro
29.10.09
- Ó meu, quem vê capa, nao vê miolo!
27.10.09
25.10.09
eu escuto as grandes máquinas de produção humana
o delírio de uma gaivota que canta livremente
as ventoinhas siderais na fabricação do Outono
eu sou outra coisa! vida e morte em simultâneo
escutando homens que descem fundo para se conhecerem
como um cavalo cego em busca do seu nome
24.10.09
passei o dia a colocar a minha colecção de quadros nas paredes. finalmente preguei meus amigos numa parede que, segundos familiares meus, seria um bom modo de tapar buracos. a minha família é assim: toda cheia de tiques burgueses quando na verdade não passam de meros decoradores de cortinados. a casa ganhou outra respiração, eu próprio reciclei o ar dos pulmões. uma vida nova a circular pelo corredor, pelos quartos, na casa-de-banho mal arejada, como se a beatriz tivesse voltado para cá, carregada de filhos de outros homens. foi um facto, as pinturas deram cor, luz e imaginação, sossego, extensão de mar ao pensamento. até calhou bem, porque eu andava com falta disso tudo.
22.10.09
19.10.09
17.10.09
ora quilha-se!
14.10.09
9.10.09
as amizades só fodem um gajo.
o desenrasque é diploma que não posso fazer fé, pois dependo sempre dos materiais que tiver à mão. os sacos de cimento de 50 kg fizeram mazelas em meus ombrinhos.
logo, despedi-me da firme, com uma carta do médico, a diagnosticar-me demência precoce, para me dedicar a chular o estado.
foram dois anos de vida de morcego. muitas noites a jogar à batota e a ser servido por boas mulas. época de lorde, a bem dizer. e de dia, movido a remédios, escrevia umas croniquetas remelosas para o jornal da terra por vinte paus e umas buchas de trigo.
recordo ainda que comecei a engordar feito camionista, tudo à base de ovos e cebolada e, para contrariar esta decisão do meu corpo, dediquei-me a fundo à pratica da masturbação. desporto este que me fez ganhar bons bícips e com eles ganhar um campeonato regional de braço-de-ferro.
a helena tinha rompido comigo por uma merda de nada. uma noite estávamos em epiléctrica dança sexual quando troquei o nome dela por outra. não me perdoou e desopilou para a casa dos pais, levando consigo os meus vinis do manitas de plata. fiquei furioso e, como paga disso, fiz uma sande com os peixinhos dela, que ela tanto amava. quando soube, meteu dois capangas em perseguição contínua, um deles tinha ar de quem gostava de enrabar, e eu, jorge da conceição, como virgem que sou nessa área, tratei de mudar de cidade.
lisboa estava com um ritmo alucinante, as boites cheias, os pedintes enfeitam muitas ruas, há mulheres a venderem-se ao preço da chuva. os mariconços são mais sofisticados do que os do norte, sabem muito de cultura neo-realista. por enquanto nunca me caiu nenhum na sopa. pelo contrário, os meus amigos eram amigas de vários quadrantes sociais, desde empregadas de loja de ferramentas até a bailarinas de varão.
as boémias só produzem um mal, aliás, dois, mal à saúde e à carteira. ainda a receber o fundo de desemprego, ideias não faltavam e, de quando em quando, ia a uma casa de fados para descongestionar.
foi lá que conheci a andreia, divorciada há dois meses, a sofrer como um moranguito, cheia de vontade para arrombar uma braguilha. conversámos muito na primeira noite. ela tinha um porte bem arejado e umas mamas que, segundo a minha fértil imaginação, eram duas bondades. tratei logo de adiantar conversa. ela prestes para falar do novo livro do saramago, mas eu, assim sem mais nem menos, inventei uma dor de barriga, saímos de urgência do local e fomos apanhar ar numa encosta ali ao pé. pelo caminho deu-me uma vontade poética de comê-la, mesmo ali atrás do quiosque, mas mantive-me sereno, a meio pau.
afinal de contas eu sou um leão que sabe esperar.
para dar veracidade à minha dor de barriga, pedi-lhe que esperasse um pouco e fiz de conta que fui fazer atrás de uns bidões de gasolina. isso deu-me tempo para pensar na falta de respostas que o mundo tem para dar aos homens ao mesmo tempo que media o meu entusiasmo.
após esta rapidíssima tertúlia entre eu e o meu alter-ego, chegado à beira dela, convidei-a a conhecer um moinho sitiado em plena praia deserta. ela logo entusiasmou-se, sobretudo quando eu lhe disse que no seu interior ainda havia vestígios de visigodos. embora eu não perceba um caralho disso, disse-lhe isso.
a noite estava num estado fenomenal, diria mais, a noite estava perfeita para dar uma trolitada à luz da lua cheia. penso que, segundo o meu diário mental, será a primeira vez que farei em chão duro. só tenho de ter cuidado é com as aragens.
o meu corpo aquecia como se fosse a gás carbónico, eu só estava concentrado em. e ela sempre na sua meiguice, a olhar para todos os lados a ver se via os tais vestígios que falei, com aquele olharzinho de eucaristia mas que me dava cá um arrepio na costela número sete.
ao fim de dois minutos lá nos sentámos de frente para a lua cheia. eu não me importei, desde que ao fim de outros dois minutos ela tocasse violino aqui nas cordas dos meus pintelhos, está-se bem. no silêncio soube-lhe dizer coisas magnífcas, e na heráldica dos segredos dos amantes, também.
a minha mãozinha, com a prática de outros tempos, lá pousou na coxa dela, senti ali, um querer mais que bem que querer como disse o camões. comecei a subir, a subir, até à luz secreta. ela a contorcer-se mas a participar na borga. apertei-lhe a carne como uma vez vi aquele gajo italiano, peludo, dos filmes porno, a fazer. vocês conhecem.
quase perto de lhe conhecer o quinto império, dei tudo por tudo, passei-lhe a mão de leve na calcinha e, merda! desculpem o palavrão, mas foi aqui que descobri que ela tinha um enchumaço! e por sinal maior do que o meu! desmacarei-a, aliás, desmascarei-o com dois socos de cada lado. ele tirou a peruca e disse-me chamar-se rui!
(mudou o tom de voz, mais à homem)- então mano, não te lembras de mim? sou eu, o rui zincas, do liceu! óculos redondos, nariz de picareta, isso não te diz nada??
- o rui solha? o maricas? aquele que foi caço atrás do ginásio com a mão na massa de dois moçambicanos?
- esse mesmo!
- ei rui, estás...com um óptimo aspecto! dá cá um abraço, há que tempos! ó rui, desculpa lá, essas mamas são mesmo tuas? e esses biquinhos em tom de aveia, como conseguiste? posso...
antes que me atrevesse a comprovar a tenacidade delas, basei, a correr, a correr muito, a querer lá saber de artroses, que só parei em casa, dentro da bacia que faz de banheira, contemplando um sei lá bem o quê.
a partir desse dia cheguei à conclusão que as amizades só fodem um gajo.
5.10.09
poema: inspira, expira
os coelhos nos seus regressos a casa,
a dona maria a sacudir as passadeiras
os pássaros bocejando visões
as gruas
os automóveis azuis
as árvores a chuva e o milho
Mas mais que gruas que levam homens ao céu
inspira-me as luzes que cegam os mortos
O sol umbilicalmente aos dias
nas marquises
nos frutos
nas formigas a construirem suas pátrias
É você aí desse lado que me inspira
a descobrir que o silêncio é um bosque
a somar à dor de parto com que fico
Depois
expiro a casa que guarda o nome e os ossos dos meus avós
a criança na sua dicotomia de crescimento
este deus hipócrita partido em quatro
mas que eu amo
E se tiver tudo isto tenho amor
tenho Obra
e manjedoura
e Nath King Cole a dar voz às manhãs
Ó mar faz de mim um bonito cadáver!
3.10.09
monarcas e republicanos
protestantes e católicos romanos
senhor canalizador que no outro dia esteve lá em casa a consertar os meus livros editados
homens e mulheres dentro e fora de tempo
crianças no jardim das minhas estrofes
políticos sem sexo e caganeira.
Louvados sejam os meus críticos que resistiram à dor da minha dor
bibliotecários que não sabem em que estante me hão-de meter
senhora da loja que me baixou a baínha das calças velhas e assim poder continuar a usá-las.
Joaquim, obrigado pelo café do outro dia
pedro, que cigarro era aquele que me deste a provar, pá?
pai, amanhã falámos
mãe, o peixe estava bom
irmãos, guardem pelo menos o meu nome
isabella, desmarca a consulta
benfica, há muito que espero alegrias vossas!
doutor, algo me diz que o meu sangue está envenenado, ora confirme aí, por favor.
Cidade minha, qual é a tua?
ó pescador, que vai ser da tua vida quando os peixes voarem?
não digas nada, o futuro foi ontem.
ó índio, cede-me aí o teu cachimbo.
e se eu plantar os pés na terra, irei mais alto?
Meus queridos e desamados profetas
pensadores indecentes como eu
meu deus, desculpa aquilo do outro dia.
o meu país só chora, por que será?
digam-me na cara quantos anos afinal tem o mundo!
que raios afinal é um raio?
um dia o touro vai ganhar...
sentem-se à mesa que eu quero-vos dizer.
minto, na verdade não vos quero dizer nada.
niente, como dizem os italianos
apenas que aguardem um pouco nos vossos lugares
nessas poltronas onde a solidão reina com a sua coroa de alfinetes
mas não estranhem se a música tombar
ou se um fio de terramoto vos provocar enjoo
é que, pronto, vou ali cortar o fogo e volto já!
1.10.09
Expulsa a noite da tua pele,
Mas não te esqueças que na casa do silêncio\solidão
Tu és o irmão do meio
30.9.09
Mãe, ó mãeeee!
por ti eu nem ia ao café ali ao lado, tens medo que eu me perca pelo caminho, tenho de te pedir licença por tudo e por nada, sabes que eu gosto das camisas em tons de verde, mas tu, não, trazes sempre camisas azuis só porque meteste na cabeça que assim é que estou bem e longe de mim que diga o contrário!
Por ti casaria com a prima Joana só porque os tios têm umas terrinhas espalhadas em Bragança e têm um sotaque provinciano que tu elogias e eu detesto.
Tenho os meus direitos. Fui à escola por alguma razão! Não aprendi apenas as contas que me mandavam fazer.
Olha, por vezes aprende-se mais no recreio do que dentro de uma sala de aulas, entulados de teorias até o tutano.
Quando me acordas, com teus tiroteios na voz, a puxar os lencóis, bem antes das dez da manhã, nem sabes o quanto fico impuro. Nem dois bidões de lixívia dariam para limpar a minha alma de impurezas pelo excesso de ansiedade.
Quero dinheiro para ir ao Rock in Rio e tu, primeiro que te decidas a dar é um pandemónio de primeira categoria, quero um portátil novo e tu vens com a velha história, «deixa as coisas melhorarem», falar-te em aumentar a minha mesada é coisa para debater em assembleia num jantar de família.
Também te digo, peço-te que me deixes crescer, só isso, olha, escusas de me dar o beijinho da seca logo após eu me deitar. Ou julgas que eu não sinto a tua boca tocar-me na testa?
Mãe, por favor, sabes quantos são hoje não sabes?! Diz-me que não farás mais questão de me acompanhar até ao outro lado da rua porque os carros são muitos, que não me vais mais esperar às xis horas à saida da piscina.
Mais, a partir de hoje ligarás para o meu telemóvel apenas quando uma urgência apertar e não para perguntares se está tudo bem, se já lanchei, cuidado com o trânsito, etc.
Mãe, olha para mim, esta barba rija e abundante não te diz nada?
Vê os meus braços, olha as minhas pernas, não achas que cresceram como deve ser? Devias saber que eu já não uso nem bonézinho na cabeça, nem meia rendada até aos joelhos e, as borbulhas que tinha no rosto, só tu é que te lembras delas quando vens com os teus cremes Dove para limpar a minha cara como se fosse o rabinho de um menino de cinco anos. A minha voz está mais grave, não notas?, não sentes?
Quando me dizes que nasci cansado eu bem sei que é só para me negares dinheiro para tabaquinho, sabes que eu não sou doutor como o irmão porque as coisas não me correram lá muito bem. Mas não foi das noitadas, como dizem as más-línguas.
Se me deres uma nota de cem, eu prometo-te que vou arranjar emprego quando me tratarem pelo apelido e não por este diminutivo que carrego.
Mãe, não te esqueças que amanhã faço anos, são tantos que me perco a contar pelos dedos. Vá lá, quero um fato novo para vestir, preto de preferência, quero aquele perfume que te dei a cheirar uma amostra no outro dia mais uma Consola para as noites em que o sono não vem.
Oh please, me dá mais um tempo para eu arranjar uma namorada bem sucedida na vida! Alguma me há-de levar ao altar, nem que seja ao pontapé. Eu te prometo, mas desta vez sem fazer figas por debaixo da mesa.
Porra mãe!, quantas vezes já te disse que estas olheiras são de ver muita televisão?!, não me toques no cabelo, por favor, ele já é pouco, não insistas mais para eu me levantar cedo, para ir procurar um trabalho,
que me deixe de aventuras,
eu sei como se faz à vida,
vou fazer quarenta e três anos,
achas que ainda não sei tomar conta de mim?
Wak up!
26.9.09
“o amor é fodido”
febre alta,
comichão nas partes,
olhos de quem não vê senão a luz ao fundo do túnel, tremuras, escarros para o velho e refiscado penico debaixo da cama centagenária.
cristo na parede com ar de gozista.
rezei,
cantei em tom desmiolado,
não atendi chamadas telefónicas,
trostky à cabeceira, sonho e realidade em guerra, não sabia de que lado me ia pôr.
o dia lá fora: um retrato antigo. chamem o padre que eu preciso de me salvar, por dentro principalmente.
ter a mão na bíblia, acariciá-la, espetar-lhe uma unha,
invocar santos tresmalhados,
arranjar uma palavra para salvação.
pensei em desistir.
o frio era muito. talvez demasiado.
tenho cartas por escrever. as amantes que esperem.
é pena que as coisas acabem assim, sem cerimónia, sem um som que estremece.
não sei o que me fascina. se um vodka ou fatia de melancia. adio decisões.
o meu patrão que espere.
penso em poesia de fazer chorar. e choro.
sou assim. que me desculpem os homens com quem eu refilei. o amor é uma pedra em bicos-de-pé. qualquer doença dá que pensar. apetece-me partir para aventuras e levar livros com menos de cinquenta páginas.
a noite é já outra vez.
os grilos cantam porque cantar faz sonhar. mas eu não sei cantar. talvez um dia. a bem dizer, moro na curva do desespero e tenho a sorte de ver espectáculos de graça sobre miséria e frustrações.
não sei se vos contei, estive carente. foi preciso dois baldes de cimento para não deixar ruir meus sentimentos.
tudo abalava. desde o carpo à carótida.
por quê não sei. não porque fume demais, nem é o facto de certa vez ter sido enganado pelo silêncio. ou engasgado?
nem sei se tenho as vacinas em dia para combater a solidão. ou se vale a pena mais xaropes e messinhas.
mas de uma coisa tenho a certeza: “o amor é fodido”.
21.9.09
18.9.09
o dia morre sempre no dia seguinte.
teus filhos correm para o futuro ancorados nos pés.
fermenta em ti o mais puro poema, de um desses autores que morreram ao escrever a sangue suas palavras. não duvides da palavra amor, não queiras sombras de réplicas. a verdade constrói o seu palácio do outro lado do rio, tens de saber pelo lado que caminhas.
acorda antes que venha a nave espacial e te convoque para uma partida de futebol lá em cima. sê capaz de derreter aço em tuas mãos, cuidado com a cibernética do amor...
a ideia passa em seres feliz e que cantes como as crianças dos pátios.
15.9.09
cagar é viver!
sei que não acrescento nada de novo, pois toda a gente sabe que heinsten descobriu a fórmula da teoria da relatividade num momento alto em que puxava a rectaguarda com uma ferocidade medonha, onde no seu pico máximo, gritou: e=mc, que, depois de ficar mais solto, aliviado o trânsito intestinal, suspirou: ao quadrado! e desta forma teve a sua eureka: e=mc ao quadrado.
o senhor kafka, segundo notícias do sanatório, escreveu o Processo e a Metamorfose comodamente alapado na sanita, sem se preocupar com quem estivesse a seguir.
não se surpeenda com estas revelações, eu próprio estou a escrever este texto com as naldegas numa retrete branquinha, enquanto espero pacientemente de fazer a minha vida. aliás, e desculpe o meu exagerado presuncionismo, pergunto: quem é que nunca leu uma página de livro, revista, carta de amor ou enviou mensagens pelo telemóvel? quem é que nunca se sentou com o portátil nas coxas enquanto obra?
é um prazer, você sabe que sim, a gente ali, em módicos pensamentos ancestrais, num auto-conhecimento, deitando por fora toda a tristeza, ora diga lá se não é. mais: cagar é como o sexo: para bom funcionamento do corpo e alma é preciso quase um ritmo diário, um reloginho interno que, se falha por dois ou três dias, ah pois é, vai a nossa valentia para o tanas, e ainda por cima sujeitos a ser supositoriados.
aliás, esse equilíbrio é tão importante que, se houver greve em uma das partes, o nosso pensamento foge-nos para guerras frias.
saibam desde já que discurso de político também ele é feito dentro desta magia.
nossos olhos viram para dentro, há um arrepio de pele, uma força cósmica nos queixos e pescoço quando puxamos por ele, o tal, que começa em ca passa por ga e acaba em lhão.
meus amigos, este texto pode não ter poesia necessária, mas uma coisa vos digo: cagar é viver! e não se sensibilize, nem feche os olhos por ler o que leu, pois a vida termina no dia em que a tripa der um nó. dirão vocês que sou um desavergonhado, que a minha literatura é feita de esterco. enganam-se aqueles que pensam que sim, já que a maior parte dos profetas antigos foram altamente iluminados antes e depois do tal acto que vos venho falando.
é certo que a espiritualidade aumenta, a nossa comunhão com as questões universais, idem aspas, a nossa relação com a literatura é um caminho de descoberta. vejamos, eu próprio descobri, por estes dias, no frescor da minha casa-de-banho, margarida rebelo pinto, o que me deu um enorme prazer, pois agora sei - e recomendo - que há géneros literários especializados em casa-de-banho. a TV7+ também tem boas crónicas para o efeito. a revista Maria, já não, pois tem um formato muito pequeno e as folhas têm uma textura que...sinceramente...seca os dedos.
poderemos largar todos os vícios, negar os prazeres da amante, deixar de dar banho ao cão, mas, meus senhores, por mais bons costumes que tenhais, acabarais sempre numa retrete e, na maldita hora em que fizermos por nós abaixo, lá se vai o nosso Ser, a nossa metade, por que, enquanto tivermos forças para puxar, o nosso sorriso é de oiro.
nunca se esqueça: cagar é viver! e, quem diz que a vida é assim ou assado, não sabe o que diz, por que, como diz e bem o meu amigo poeta laureans: “a vida é a única merda que vale a pena cheirar”.
8.9.09
contra-pilas
para quê olhar o céu quando no teu bikini caminho por olhares nunca dantes olhados
para quê saber da felicidade se não sabemos o caminho das pedras
para quê ir, se verdadeiramente nunca chegamos onde queriamos chegar
para quê levar a amante para praias distantes, se mesmo lá vais encontrar os teus amigos
para quê um poema com fios de tristeza se mesmo a alegria nos faz chorar
para quê um peluche falante se eu próprio sei fazer melhor
meu amor, este poema é feito de carne, mas cuidado, que quando a fome aperta vai e pescoço e tudo.
Teste chinês aos olhos

Não consegues ler??
... experimenta puxar os cantos dos olhos como os chineses. Vais ver que resulta.
6.9.09
4.9.09
bom dia! bom dia!
Bom dia pátria, bom dia meus ex-colegas de turma, meus cultivadores de amoras, meu sino que agora tocas piedoso. bom dia vento, vento suão, vento parado, vento ventoso.
bom dia irmãzinha, como vai a nossa vida para além dessa túnica? serafim, joão, teresa, manela, bom dia! a todos que vão na estrada chuchando o dedo, ao sinatra na rádio, ao polícia que aceitou mais uma burla, à criança que pinta a sua passadeira, bom dia, aí comboios para a índia, bom dia céu, olá inferno, há quanto tempo,
olé olá petroleiros desesperados, jean sartre levantado da campa, saramagobytes, bom dia configurações do homem, bom dia ó pétalas, ó ideias, ó mar da apúlia, ó abastados e outros sem nada, sérios e moinantes, carecas e peludos, letrados e aprendizes, comunas e descomunados,
bom dia ao sol, à chuva que perfura a terra, ao senhor matias da tabacaria, à dona filomena da cavalaria. como vais relojoeiro com o teu bico doirado, e tu, cego da concertina, tudo bem meu irmão de outra mãe, ó ana das minhas loucas lembranças, ei carro-de-bois de onde vens para onde vais,
allô rio de janeiro, é só para te lembrar que estou aí pra semana que vem, então meu cavalo branco, estás pronto para mais um dia, ei pregador de manias, cuspidor de salivas.
olé olé limousines e carros velhos, como vai a nossa vida meu anjo meu escaravelho, bom dia portugal de jeans cossados,
aleluia carteiro, estava a ver que não vinha, olha aí carniceiro, cuidado com os dedos,
bom dia todos ouvintes outrintas ouquarentas, bom dia bife de fígado para o jantar, minha roda de moinho movida a hidro-pensamento,
olá pescador onde pescaste a minha dor,
ó silva pereira ó pereira da silva estamos juntos separados, bom dia, bom dia, bom dia centrais nucleares que desejais não serem acordadas, bom dia senhor ministro o que é que vem a ser isto, ei tu aí de saco cheio na cabeça, bom dia, paisagem, antenas, gruas, bichos-carpinteiro, a todos aquele abraço da manhã,
sem me esquecer de ti camisa rota,
surfistas em campo de milho,
dançarinas da meia-noite,
a ti também ó jesus que lá vou eu, e a ti ó tás-te a passar,
senhor doutor não fale mais em partir, ai que me arrepio, vai mais uma bolacha comendador. buenos dias a tu padre y a tu madre em limpeza espiritual, good morning capitão para que lado vou morrer? já agora um xi-coraçao à minha alma que conduz o meu sapato, ao meu peito em ruínas, que saudades de outros tempo!
um bom dia ao amor, mas que não volte a acordar tarde,
aos ombros deste grandioso andor,
aos manetas que me querem cumprimentar de mão e não podem,
ao lobo que anda por aí, ao salário que ainda há-de ser,
às amizades futuras que não contem comigo.
bom dia fortunas colossais, bom dia miséria sem inventário para descrever, famosos desconhecidos, à lógica sem ter lógica,
polícia ladrão,
padre sem vocação,
cabeça de pescada no prato,
os meus carnurentos bons dias,
ah quase me esquecia de vós outono\inverno que quando soprais, escolheis mal quem ides ferir,
ó sogreguidão que mal te fiz eu,
ih psicólogos armados em dramaturgos, oh tostão furado no olho direito da felicidade, eh batalha de leões contra formigas,
cantai ó velhos-novos acamados, ó lepresos, leprosozinhos parabéns a vocês,
se ainda tenho forças para vos dar bom dia é para vós arcanjos enganosos, reis de copas sem dama, minhas traças na roupa, minhas queridas revolucionárias, que vos saiba bem a minha pele também, os meus pensamentos cuidado, que dão azia,
xau aí minha santa, boa viagem para a coreia, que mal fiz eu em ser assim, bom dia greves e feriados, olho negro da costureira que diz que se aleijou,
a todos, a muitos todos, a minha voz ao alto, no empedrado onde deus pinta retratos, os meus sinceros bons dias, até outro dia, que eu agora...ah...que eu agora... vou dormir!
1.9.09
ver-te por dentro da cegueira
onde o amor começa e o poema se consagra
28.8.09
26.8.09
17.8.09
uma história sem história
depois surgiu a ideia de fazer uma história sobre o aquecimento da terra mas, como tenho lido pouco sobre o assunto pensei: é melhor não. sei, pelo que já li, que numa história convém que haja ladrões, polícias,
padres, prostitutas,
o mau-da-fita,
o salvador e se possível um cavalo para o personagem principal dar à sola.
desculpe, não interprete isto como um insulto, se você souber um pouco de literatura verá que em nada lhe tenho contra, sabe, a imaginação nem sempre tem dias favoráveis, olhe como hoje por exemplo, eu para aqui a narrar banalidades e você perdendo o seu tempo na expectativa que daqui saia algum proveito.
tem de haver de tudo, não é o que diz o povo na sua culta ignorância? também eu podia estar no brasil a beber água de côco,
a apanhar sol nas trombas,
a catrapiscar uns biquinis,
mas não, como vê eu não saio da sepa torta, ando de frase em frase sem regra nem obediência, de cá para lá sem tonalidade sem sequer um sol apontado à mais pequeninha palavra. as histórias não se fazem do jeito que você pensa, que julga, que é só chegar aqui e pumba, já está a história feita? nãa, temos que ser duros neste ofício de narrativa lotadas de buracos, desviar o pensamento para não resvalarmos no próximo parágrafo.
7.8.09
que não tenha um verso em cada pétala
um dia virá o Grande dia
e todas juntas celebrarão o bendito poema
que depois do poeta sepultado
fará o coveiro chorar a sua enxada.
4.8.09
Ontem, pelas 22:30, hora de portugal continental, estando eu bem alapadinho no sofá vendo um talk-show no hot canal, de boca cheia de pipoca, quando, a emissão foi interrompida para uma notícia de útima hora: o desaparecimento do cão do sócrates!
Há muito que não se ouvia uma tragédia assim. Nem quando a queda das torres gémeas.
ao saber da tristérrima notícia, o parlamento reuniu-se numa sessão extraordinária e de imediato foi dado o alerta vermelho para que as buscas se realizassem, já que, o cão do sócrates, é para todos nós a coqueluxe da nação.
As autoridades pularam para o terreno com as suas sirenes em fúria. Colocou-se ainda a hipótese de a Alquaeda estar metida no assunto, mas logo se pôs esta questão fora de hipótese uma vez que o cão do sócrates, segundo vários opinadores, nutre simpatias pelo camelo do bin laden.
Todos os portugueses especaram de frente ao televisor na esperança que as coisas voltassem à normalidade. Os operadores de câmeras da SIC e TVI andaram à batatada pelas ruas lisboetas na ganância de ver qual deles o mais rato e o primeiro a encontrar o cão do sócrates. As ruas estavam escuras e não se via cavaco.
Quarteirões mais adiante, lá para os lados do hemiciclo, o cavalo do francisco louçã mais o burro do ministro da defesa metiam os seus focinhos onde eram chamados, mais concretamente, patrulhando urinóis públicos e parques infantis.
O cão do sócrates é um bicho indefeso, sem categoria para fazer jus das suas garras, inclusive houve um sábado de manhã que o macaco do paulo portas fugiu da jaula e deu em cima do bichano do sócrates, que o deixou com uma ferida aberta e inconsciente uma boa meia hora.
Na altura não deram muita importância ao caso, nem tãopouco abriram inquérito para averiguar se no meio da luta existiram outros tipos de malícias, já que todos sabem que o macaco do portas tem queda para o vale tudo menos arrancar olhos.
Dado o impasse das buscas, a comitiva socialista estava de trombas, pois sabem diante mão que se der como certo o desaparecimento do cão do sócrates pode pôr em risco as próximas eleições legislativas. As horas iam-se e não havia progressos. Nem mesmo o morcego do oliveira e costa, que é especialista ver melhor do que os outros, até mesmo interior de bolsos, não via a ponta de um corno.
Os portugueses uniram-se nesta nobre causa, e cada qual à sua maneira sairam à rua, tingidos de solidariedade, para achar o animal perdido. Tudo era vasculhado, desde atrás dos pinheiros (já gora, vocês sabem onde fica a parte de trás de um pinheiro?, é no lado onde a gente caga!); passando a pente fino museus arquelógicos até mesmo em casa de putas em serviço.
Tudo era palmilhado à mínima. Só assim é que o quadrúpede do sócrates haveria de ser encontrado, se possível vivo para não manchar a história de um partido.
A imprensa televisiva relatava todos os passos do caso com mestria, excepto quando o josé rodrigues dos santos largou os microfones e saiu a correr dos estudios com a cadela da sua prima, conhecida pelo seu sofisticado faro de longo alcance, que, salvo erro, faz parte do paquete da nossa querida GNR.
Com o nervosismo a aumentar, o governo decidiu atribuir uma recompensa a quem primeiro achasse o cão do sócrates que, segundo fontes próximas de não sei quem não sei que mais, foi visto na madragoa a dar duas dentadas na galinha da nela ferreira leite que a deixou com uma grande contusão. Tadinha!
A interpol, a judiciária, o fbi, os boinas verdes, detectives particulares, bufos reformados, todos accionaram os seus sistemas de alerta.
Cortaram ruas, ninguém podia entrar ou sair da cidade, os consumidores de coca viram-se à nora, o josé cid perdeu o comboio para o apuramento do festival da canção e estava a fritar miolos, trânsito parado, lojas arrombadas,
pretos brancos e amarelos aos murros,
ciganos com máquinas de flippers às costas, candidatos a bissexuais a arrombar vitrines de sex-shops. Estava tudo em pantanas!
A lili caneças deu à sola de uma clínica de estética com as tripas na mão. Um caos.
Se o cão do sócrates fosse encontrado vivo seria certo dois dias de feriado nacional, com direito a entremeadas feitas a partir da porca da ministra da educação.
O túmulo da amália foi encontrado aberto, deduziu-se que também ela se juntou à causa. propagandistas pelas ruas, de megafone em punho com o slogan: ajudem a encontrar o cão do sócrates! as pessoas entristeciam a cada minuto, os operáros de uma fábrica de panelas foram mandados para casa, nestes moldes não havia condições para paneleirices.
Transmissões em directo de suicídios, de peregrinos que prometiam à santa, repórteres na rua, nas gráficas já se imprimia a letras gordas os cabeçalhos do desaparecimento, tomara a deus que tinta não se acabe, há muito para dizer e contar. Mais do que na morte do michael jackson.
Os cronistas atiravam culpas ao partido da oposição, que tinham avisado que mais tarde ou mais cedo iria acontecer o pior. Vários bruxos catedráticos reuniram-se numa mesa de búzios, e nada. O dia a fazer-se, e nada.
O cão do sócrates foi desta para melhor afirmavam os mais fanáticos religiosos.
Era cerca das onze manhã quando pela escadaria do parlamento surgiu num andamento de vivaldi, o cão do sócrates. Houve quem falasse em milagre.
Houve quem fosse a correr dar duas esmolas a um pobre ao saber que ele estava ali, vivinho da silva.
Logo se fez aparato em volta do cão do sócrates, não contendo os populares em dar mimos e festejos ao animal, e este, sem perceber puto do que estava a acontecer.
Mas, em dois minutos breves ficou a saber os porquês das gentes ali e suas peocupações.
O cão do sócrates que, apesar de ser perito em alta-finança, ignorou e continuou a subir a escadaria do palácio de belém até aos seus aposentos caninos, e pensou lá com o seu rabo: já gora um gajo não pode ir a Vigo comprar caramelos que fica tudo em pulgas!
30.7.09
Museu é coisa triste
poesia é biblioteca universal
a arte é um louco crescente
o psicopata nunca distinguiu um quadro a óleo
de um arroz de pato
os homens não inventaram o linho
(hão-de vir contar)
museu é coisa triste
ontem revisitei Afmach
...
no centro planetário a recepcionista tem bom sorriso
assim que assina meu corpo com luz verde
vou pelo corredor das estrelas festejar meus vinte e sete anos-luz
...
Segundo a análise de um Louco
o interior da Alma
é um caroço erótico que se vai cobrindo
de pele
florescentemente boreal
...
A perfeição é um barco desiquilibrado
o homem insiste em navegar e lançar as redes
Depois da onda rebentar
despe-se a camisa e abraçamos nossos filhos
que se desprenderam do anzol
...
amanhã decido se vou ou não entender este cogumelo
...
Na pele formam-se mosaicos. arte rupestre do silêncio. escavado pela orgia do tempo
que quando nu se transforma leva água para a sede dos animais
...
Amanhã será mais um grito
mais uma variz à superfície
e um feno da madrugada
a lembrar que é Setembro
Se canto não morro
Se morro logo canto
A solidão não é um bicho estranho.
envelhecer é um tipo descontraído que troca anéis de ouro por conhecimento
de que vale uma guerra santa se os santos estão cravados nas paredes?
de que vale a palavra se as sílabas morrem ao sair da boca?
fundei uma revista que por falar de amor de amor de amor foi vandalizada.
dos papéis queimados sobrou-me este: capricorniano. vítima de lua cheia. inexplorável.
queres guardá-lo ou preferes esperar pelo encarnar da Primavera?
...
Na provisória cal dos afectos
Entende-se a expressão marítima do poente
As crianças inventam bússolas
Com origem nos rochedos
Misturam a cor viva do mar com dialectos
electrizantes
e falam de sereias que visitam quartos
como quem inventa uma nova Páscoa
...
É para lá que vamos
Disse o peixe do meu aquário
Consta-se que a vida roda em si mesmo
Que o açucar vem de uma planta
Que o céu é um mar completo a marear no silêncio
Que deus é um palerma se se
Não liguem ao peixe do meu aquário
Há muito que ele nada de costas
...
Esta paisagem: esta pedra oceânica: deslumbramento igual ao interior do sossego
Um desenho nocturno vestido de fogo
Esta paisagem nua: granito desfeito no ante-poema marmóreo
Lá em baixo: um marinheiro a pulsar inúmeros nortes
sonhando contrafeito
(n)o espesso mar:
uma tela não autografada.
O mar
a casa
o milagre da nascente
os sítios onde morremos todas as noites : nossos corpos irremediavelmente cansados pós- poema27.7.09
Conhecesse eu os mares
desde a sua infância
e num voo de ave regressar ao útero de minha mãe
*
Desvendasse eu o Tempo
de pôr amor sobre todas as Coisas
e as coisas todas sobre as manhãs que crescem nos vinhedos
Que uma criança ao nascer me diga o que viu
como se escreve os poemas simples
que eu estarei com a boca na vertigem para a ouvir
20.7.09
17.7.09
Sou talvez ou não um paranóico. falo assim porque custa-me afirmar que o seja. respiro fundo, concentro-me num bilião de coisas ao mesmo tempo, a marta que me liga a todas as horas a perguntar onde é que eu ando, o peixe do meu aquário que me dá os bons dias pela manhã e ninguém acredita.
pronto, confesso: eu sou um paranóico. mas não desses que andam por aí todos descabelados, com o indicador numa constante dentro do nariz. não! sou um paranóico sofisticado, ultra-moderno. escrevo livros, sabia? Mas não tenho contrato nenhum com editoras. Acho-as muito esotéricas.
Até hoje já dei uma data de entrevistas, jornais locais, é certo, pus-me em poses, acenei para objectivas, autografei em papel timbrado, mas tive um mau começo. dantes era um tipo revoltado, semi-possessivo, adepto de ansiolíticos para viajar sem sair do sítio.
Hoje sim, agradeço às pessoas que me negaram emprego, fechando-me as portas na cara em vez de: vai-te lavar! Mas, sem elas (as benditas pessoas) eu não poderia chegar aqui, a esta secretária, roída nas pontas, que eu digo a todos que perguntam quem roeu, respondendo: defeito de fabrico, defeito de fabrico!
Sei a forma exacta de conquistar uma mulher, mas por razões óbvias não posso revelar essa fórmula tão procurada. Esqueça esta parte. Faça de conta que eu só vim ao mundo para aplaudir.
Sou paranóico desde mil novecentos e noventa e sete, logo após ter entrado e saído de uma igreja evangélica, não sei se isto teve algo a ver com o facto de ter entrado e saído num passo de fox-trot, mas penso e creio que não. Deus não interfere nestes capítulos longos, nem seria tão sacaninha assim.
Na época fazia investigação de ostras num mar aqui ao perto. era um motivo para eu apanhar uns banhos de sol. A minha pele é branca e muito podia falar sobre ela. prefiro ficar calado. Tenho inimigos públicos.
Quando eu era normal as pessoas riam-se de mim, atiravam-me pedras metafísicas, diziam em tom cavernoso: olha, vai ali um tipo normal! e mostravam os dentes e as gengivas como sinal de querer afastamento.
Graças à bebida hoje sou um paranóico encartado, desconto um xis do meu salário para uma congregação nacional de paranóicos. temos de tudo, desde paranóicos acrobatas, ciclistas, engenheiros nocturnos até mesmo paranóicos que nos advogam.
Anualmente juntamo-nos todos a uma mesa para discutir certos poetas e pintores que cairam na realidade, coitados, que se casaram e têm filhos, inclusive, pagam impostos, rendas avultadas, frequentam hipermercados, vão à bola ao domingo, imitam kamassutras, e é de nossa condição estatutária ajudar esses beneficientes a enlouqueceram novamente e se sintam integrados e autónomos afim de prestarem uma literatura mais melhor boa.
Se você é um dos interessados em se tornar paranóico, contacte os nossos serviços pela linha azul 808 123 oliveira 4 ou em www.paranóicosdaluz.com.
Não hesite em ligar e faça-se membro. lembro que este serviço é grátis e em muito lhe poderá ser útil a que você tenha uma deliquência bem vincada, para que desta forma não caia nas malhas da realidade, esse flagelo enorme onde o número de vítimas é cada vez mais assustador.
não caia na real, junte-se a nós, unidos lutaremos por uma vida deliquente melhor.
7.7.09
eu a minha máquina de lavar
Mas nem tudo o tombo levou.
- Agora vivo tranquilamente, senhor Silver, na minha máquina de lavar, e ninguém me incomoda! – Diz o homem sem querer com isso provocar alguma inveja.
- Mas ó senhor Ernesto, a adaptação devia ter custado um pouco, não?, principalmente para os costados – Perguntei-lhe.
- Quando entrei pela primeira vez para a minha nova moradia, sim. Não sabia onde é que iria pôr uma terrina da cristal D’arque que veio junto no enxuval ou, quando quero fumar um cigarrito, tenho de sair da máquina para não deixar cheiro na roupa.
- Mas você não tem o sonho de morar numa...numa...bem, você sabe.
- Não compreendo, mas isso não será no mínimo...apertado!
- Nada disso, tenho o projecto na cabeça, se tudo correr bem no dia 27 de Maio estarei eu e a minha Mélinha na nossa nova máquina de lavar, a contar o dinheiro das prendas antes de estrearmos o colchão ortopédico, que só Deus sabe o quanto lutei em tribunal pela custódia dele.
- Sabe, Silver, estou muito contente, vivo os melhores dias da minha vida!
Depois, um silêncio nostálgico, um poisar de olhos pelas varandas, e, como o vento nada trazia nada levava, despedimo-nos com um sabor a chocolate estragado, mas, antes disso, perguntou-me:
- E você, senhor Silver, como vai a sua vida?
literaturamente só
conheço muitas ruas desde as suas nascenças. de caminho de cabras até serem auto-estradas rasgando montes onde antes haviam eucalíptos, pinheiros, grutas, tocas de bichos estranhos, faúlhas, ninhos, raparigas que se ofereciam, etc. conheço o mundo antes de ele me dar alguns conselhos. sou uma espécie de vento que caminha rasteiro e alto pelas multidões.
tenho histórias mal contadas na minha cabeceira que me pedem para eu lá entrar. livros que remontam há época dos dinossauros voadores, da inquisição e dos falsos padres. também tenho algo sobre a fascinação das flores, para rever conceitos, normalmente cinco minutos antes de bater asas para voar. adormeço quase sempre para o lado poente por questões de vaidade.
tenho aproximadamente mil anos, mas há quem me dê mais anos, pela aparência, pela gravidade da minha voz. sou um caso a pensar.
assisti à descoberta da lâmpada, ajudei um homem a ser deus, conduzi naus e outros tipos de embarcações, fui estrangeiro, fui roubado, fui obrigado a nada. leio: na simbologia dos cegos, pontas dos dedos sobre o papel. procuro: uma morte limpa e serena como a do meu pai.
a minha verdade é um fruto que todos querem compôr a sua versão ou sabor. o que me dói são as palavras. estou quase. maravilho-me por dentro por saber que estou quase. que me perdoem os meus amores de algum dia, a falta de ouvido para a música.
a minha idade está pronta, o meu cavalo também, vejo-o a sorrir, de crina bem penteada, cascos mudados, um olhar em frente, e a força de arrastar o chão. ele me levará para onde não posso dizer. não quero que me acompanhem. irei só. literaturamente só.
5.7.09
estou de frente para o mar.
estou prestes a terminar um poema. tenho um editor à minha espera para eu lhe enviar um poema a sair na próxima publicação do jornal.
tenho vinte minutos para o fazer. acabar o poema em vinte minutos. pensar em tudo na vida em vinte minutos que podiam ser uns milhares de segundos. se faço contas à vida perco-me na contagem. esta perdição é antiga.
o mar tem uma ciência dentro e fora dele mas há gente especializada nisso. gente que sabe todos os porquês e para quês. levaram anos até saberem isso: do mar e da terra o conhecimento é narrado em qualquer sala de aula. eu estive em algumas e aprendi sobre como enlouquecer em frente ao mar por palavras que não foram ditas.
o tempo não é nem deve ser apenas uma questão de modo verbal. tempo é o resultado dos fracassos e dos sucessos.
agora é que me lixo: tenho um minuto para fazer um miserável poema, algo que toque a dor, o equivalente a alguém que morde um fruto e sinta uma lâmina por dentro, um abismo decrescente no paladar.
um minuto: sessenta notas jazzísticas no meu peito. se me lembro da minha infância recuso-me a ser homem. por isso agarro todo o meu esquecimento e invoco todos os poetas da minha estante de livros.
quinze segundos e o poema faz-se numa erupção cutânea, sai-me das veias num impulso acrobático. escrevo num estilo cego.
a minha mão luta contra as burocracias do pensamento para assim ser mais fiel.
estou em queda livre, sem páraquedas, com o meu saxofone nas mãos. melhor seria falar dos traumas de guerra ou sobre os malefícios do tabaco. o poema requer o seu tempo, desde a formação da casca ao rebentamento da casca, ele se demora. tem um processo quase vinícola: da vindima à garrafa na mesa.
ainda por cima vou mal de amores e isso desvia-me.
4.7.09
eu não tenho um botão, entende isso?
fume um cigarro se quiser.
quantas ruas tem o pensamento, já pensou nisso? quantas horas cabem dentro dos segundos? acha que morrer ao fazer amor é uma morte feliz? e entrar na auto-estrada em contra-mão é um duelo?
respire fundo. controle a pulsação.
o mar há-de vir sobre nós. faça por acreditar na mais pequena ideia do céu. os anjos são pedaços de nós. creio.
tenho uma história na cabeça que não sei como a hei-de contar. para alguns é triste para outros é alegria. o soldado morreu na guerra quando tentava salvar uma criança, deu o seu corpo à bala para salvar a criança. eco: para salvar uma criança para salvar uma criança par-a sal-var uma cri ança crian-ça.
se o sangue falasse o que diria naquela hora? sei que a criança cresceu com uma deficiência no peito. mas não era deficiência física, era algo que os olhos não observam nem a medicina, através de múltiplos rasgos no corpo, não consegue lá chegar. pelo que parece do peito da criança que cresceu e que agora é adulto, saem gritos de guerra, como uma fúria de tambores.
pormenor: o peito pertence a uma rapariga que, como todas as raparigas deste mundo, pensa em ter um filho. assim aconteceu: a vinte de março a rapariga, cujo nome ficará no registo da parteira que lhe tirou o bebé do ventre, pariu um menino de olhos da cor do mar. detalhe: a criança tinha uma pequena mancha no braço esquerdo. assim que a parteira lavou o menino, envolveu-o num paninho quente de lã, entregou-o ao braços da mãe. foram dias felizes os que se seguiram. os gritos que saíam do peito sumiram-se com a mudança de estação.
ninguém sabe descrever a felicidade dos que a sentem, nem mesmo todos os escritores do mundo reunidos num papel. a criança foi crescendo e com ela crescia a pequena mancha do braço esquerdo que de facto se tornava maior e perceptível o seu desenho. há quem acerte no futuro mas não há quem adivinhe no futuro: são duas coisas distintas. já a vida e morte podem ser irmãs gémeas que caminham lado a lado. assim creio.
um dia, na terra, a claridade fez-se ver por dentro das coisas vivas e, na casa onde moravam: mãe pai e filho; se condensaram numa única luz, como se atados uns aos outros por um extenso fio de luz. eram uma fonte que brota.
não havia explicação.
nem método de ilusionismo para resolver o teorema.
repararam que a luz tinha uma origem, um começo: vinha da mancha do pequeno joão onde o desenho dava a vez a uma palavra. mas não era uma palavra qualquer. era uma palavra que em tempos pertencera a uma voz, a um corpo, a um sangue movido. palavra. palavras. palavra. palavras. palavras. palavras. todos sorriram. reunidos num segredo.
eu não sei bem o que dizia a tal palavra que reluzia mas acho que tem a ver com: pai filho e espírito santo.
