7.7.09

eu a minha máquina de lavar

Caríssimos leitores, sejam bem-vindos a mais uma rúbrica em que o autor, após queda ao experimentar o efeito dos saltos altos, deu de queixos na calçada portuguesa, voilá, por sorte, nenhum senhor da conservação do património estava a passar no momento, porque se não...

Mas nem tudo o tombo levou.
Nesse dia fiquei a conhecer o senhor Ernesto, exemplo de como contornar obstáculos sem ir à volta, ex-campeão regional de lançamento de cuspo, nos idos anos oitenta, com o record que ainda hoje se mantém, 35,17 metros de distância. Dizia com saudade e um choro miudinho, enquanto, deliciado, me exibia o seu cartão de praticante, que infelizmente a vida tem destas coisas, foi forçado a largar a modalidade desde que o vinho encareceu e, ainda para mais o tipo da adega que lhe patrocinava, às prestações, deu o badagaio, que nem vale a pena falar mais nisso, porque passado é passado.

Agora é uma pessoa feliz, diz-me, com a cramalheira a fugir para tons de beije sempre que sorri. E eu tento ripostar com sorriso da mesma envergadura, mas fico quilómetros aquém.
O senhor Ernesto, tem uma particularidade abismal, mora numa máquina de lavar roupa há cerca de ano e meio e recorda que os anos anteriores não lhe foram de todo favoráveis até porque corria na barra do tribunal o processo de separação e a custódia dos seus sete filhos e outros tantos por perfilhar.

- Agora vivo tranquilamente, senhor Silver, na minha máquina de lavar, e ninguém me incomoda! – Diz o homem sem querer com isso provocar alguma inveja.

- Mas ó senhor Ernesto, a adaptação devia ter custado um pouco, não?, principalmente para os costados – Perguntei-lhe.

- Quando entrei pela primeira vez para a minha nova moradia, sim. Não sabia onde é que iria pôr uma terrina da cristal D’arque que veio junto no enxuval ou, quando quero fumar um cigarrito, tenho de sair da máquina para não deixar cheiro na roupa.

- Mas você não tem o sonho de morar numa...numa...bem, você sabe.

- Claro que sim! o meu sonho é...como lhe dizer sem denunciar a minha timidez, não repare, sou assim, foi desde que conheci uma mulher, bonita como os raios de sol pela manhã, e, após falarmos disto, falarmos daquilo, os afectos a correr-nos nas veias, estamos a pensar em nos casar, juntar os ossos e as carnes, e como deve calcular, precisamos de mais espaço para unir as nossas vidas, os nossos sonhos, que temos vindo a batalhar, por isso uma máquina de lavar de 2 por 3, com um bom tambor de rotação, a baloiçar devagarinho, para os dias que custa adormecer, era o melhor que me podia acontecer. E se possível com um cantinho para a criança que vai nascer, e aí ela poder brincar à vontade.

- Não compreendo, mas isso não será no mínimo...apertado!

- Nada disso, tenho o projecto na cabeça, se tudo correr bem no dia 27 de Maio estarei eu e a minha Mélinha na nossa nova máquina de lavar, a contar o dinheiro das prendas antes de estrearmos o colchão ortopédico, que só Deus sabe o quanto lutei em tribunal pela custódia dele.

Continuou: na altura em que eu era atleta de lançamento de cuspo, estava em alta, e conheci muita gente importante, mexia-me bem no meio, foi a partir desses meus conhecimentos que, com uma cunha (chegou-se bem perto do meu ouvido, “mas não diga a ninguém”) obtive licença para colocar a máquina de lavar no alto de um pinheiro, situado num baldio da Panasqueira.

- Sabe, Silver, estou muito contente, vivo os melhores dias da minha vida!

Depois, um silêncio nostálgico, um poisar de olhos pelas varandas, e, como o vento nada trazia nada levava, despedimo-nos com um sabor a chocolate estragado, mas, antes disso, perguntou-me:

- E você, senhor Silver, como vai a sua vida?

Hesitei, trinquei o lábio de baixo para ter tempo de pensar, no curso de direito que tenho para acabar, depois estagiar no chupista do advogado, na obsessão que tenho pelas dietas, separar as gordurinhas, as ameaças de corte de luz, lembrei a bosta que foi quando apanhei Nita em flagra a gritar golo do Porto, a felicidade a ir pelo saneamento, pus-lhe a mão no ombro (entrou a música do Titanic) e perguntei-lhe: - que máquina de lavar me recomenda?

literaturamente só

A minha idade está pronta.
conheço muitas ruas desde as suas nascenças. de caminho de cabras até serem auto-estradas rasgando montes onde antes haviam eucalíptos, pinheiros, grutas, tocas de bichos estranhos, faúlhas, ninhos, raparigas que se ofereciam, etc. conheço o mundo antes de ele me dar alguns conselhos. sou uma espécie de vento que caminha rasteiro e alto pelas multidões.

tenho histórias mal contadas na minha cabeceira que me pedem para eu lá entrar. livros que remontam há época dos dinossauros voadores, da inquisição e dos falsos padres. também tenho algo sobre a fascinação das flores, para rever conceitos, normalmente cinco minutos antes de bater asas para voar. adormeço quase sempre para o lado poente por questões de vaidade.

tenho aproximadamente mil anos, mas há quem me dê mais anos, pela aparência, pela gravidade da minha voz. sou um caso a pensar.

assisti à descoberta da lâmpada, ajudei um homem a ser deus, conduzi naus e outros tipos de embarcações, fui estrangeiro, fui roubado, fui obrigado a nada. leio: na simbologia dos cegos, pontas dos dedos sobre o papel. procuro: uma morte limpa e serena como a do meu pai.

a minha verdade é um fruto que todos querem compôr a sua versão ou sabor. o que me dói são as palavras. estou quase. maravilho-me por dentro por saber que estou quase. que me perdoem os meus amores de algum dia, a falta de ouvido para a música.

a minha idade está pronta, o meu cavalo também, vejo-o a sorrir, de crina bem penteada, cascos mudados, um olhar em frente, e a força de arrastar o chão. ele me levará para onde não posso dizer. não quero que me acompanhem. irei só. literaturamente só.

5.7.09

estou sentado algures nesta cidade litoral.
estou de frente para o mar.
estou prestes a terminar um poema. tenho um editor à minha espera para eu lhe enviar um poema a sair na próxima publicação do jornal.

tenho vinte minutos para o fazer. acabar o poema em vinte minutos. pensar em tudo na vida em vinte minutos que podiam ser uns milhares de segundos. se faço contas à vida perco-me na contagem. esta perdição é antiga.

o mar tem uma ciência dentro e fora dele mas há gente especializada nisso. gente que sabe todos os porquês e para quês. levaram anos até saberem isso: do mar e da terra o conhecimento é narrado em qualquer sala de aula. eu estive em algumas e aprendi sobre como enlouquecer em frente ao mar por palavras que não foram ditas.

tenho um poema com dez linhas labirínticas e cinco metáforas que cairam do céu. todos os poemas são pedaços de suicídio? ou de amor? prefiro não responder.
o tempo não é nem deve ser apenas uma questão de modo verbal. tempo é o resultado dos fracassos e dos sucessos.

esqueço ao que vim: fazer o poema. o mar de repente encheu-se de coragem forte, ao contrário de mim quando um dia resolvi aprender a tocar sax e fazer disso a minha ciência pelas ruas de amesterdão.
agora é que me lixo: tenho um minuto para fazer um miserável poema, algo que toque a dor, o equivalente a alguém que morde um fruto e sinta uma lâmina por dentro, um abismo decrescente no paladar.
um minuto: sessenta notas jazzísticas no meu peito. se me lembro da minha infância recuso-me a ser homem. por isso agarro todo o meu esquecimento e invoco todos os poetas da minha estante de livros.

quinze segundos e o poema faz-se numa erupção cutânea, sai-me das veias num impulso acrobático. escrevo num estilo cego.
a minha mão luta contra as burocracias do pensamento para assim ser mais fiel.
estou em queda livre, sem páraquedas, com o meu saxofone nas mãos. melhor seria falar dos traumas de guerra ou sobre os malefícios do tabaco. o poema requer o seu tempo, desde a formação da casca ao rebentamento da casca, ele se demora. tem um processo quase vinícola: da vindima à garrafa na mesa.
ainda por cima vou mal de amores e isso desvia-me.

resta-me três segundos para enviar o poema ao editor. tem alguma ideia a sugerir? haverá algum método eficaz de como sobreviver a uma catástrofe? vamos dar as mãos a um poema universal, pode ser? assim ficaremos todos a ganhar, ok? vá lá, responda, diga o que está a pensar. vá lá, esforçe-se ao menos um bocadinho, reparta comigo a sua dor, os seus frutos magoados.
fim de tempo: o poema não foi a tempo de se concluir. não que chuva viesse estragar os meus planos. não que música seja uma mistura de bach com tiroteio numa favela.
hoje está um dia bom para lembrar que o poeta trabalha melhor com a espuma do mar nos lábios. conclusão: o poema nunca nasceu nem nunca nascerá num tubo de ensaio.

4.7.09

eu não tenho um botão, entende isso?

sente-se e ponha-se à vontade.
fume um cigarro se quiser.
quantas ruas tem o pensamento, já pensou nisso? quantas horas cabem dentro dos segundos? acha que morrer ao fazer amor é uma morte feliz? e entrar na auto-estrada em contra-mão é um duelo?
respire fundo. controle a pulsação.
o mar há-de vir sobre nós. faça por acreditar na mais pequena ideia do céu. os anjos são pedaços de nós. creio.

tenho uma história na cabeça que não sei como a hei-de contar. para alguns é triste para outros é alegria. o soldado morreu na guerra quando tentava salvar uma criança, deu o seu corpo à bala para salvar a criança. eco: para salvar uma criança para salvar uma criança par-a sal-var uma cri ança crian-ça.

se o sangue falasse o que diria naquela hora? sei que a criança cresceu com uma deficiência no peito. mas não era deficiência física, era algo que os olhos não observam nem a medicina, através de múltiplos rasgos no corpo, não consegue lá chegar. pelo que parece do peito da criança que cresceu e que agora é adulto, saem gritos de guerra, como uma fúria de tambores.

pormenor: o peito pertence a uma rapariga que, como todas as raparigas deste mundo, pensa em ter um filho. assim aconteceu: a vinte de março a rapariga, cujo nome ficará no registo da parteira que lhe tirou o bebé do ventre, pariu um menino de olhos da cor do mar. detalhe: a criança tinha uma pequena mancha no braço esquerdo. assim que a parteira lavou o menino, envolveu-o num paninho quente de lã, entregou-o ao braços da mãe. foram dias felizes os que se seguiram. os gritos que saíam do peito sumiram-se com a mudança de estação.

ninguém sabe descrever a felicidade dos que a sentem, nem mesmo todos os escritores do mundo reunidos num papel. a criança foi crescendo e com ela crescia a pequena mancha do braço esquerdo que de facto se tornava maior e perceptível o seu desenho. há quem acerte no futuro mas não há quem adivinhe no futuro: são duas coisas distintas. já a vida e morte podem ser irmãs gémeas que caminham lado a lado. assim creio.

um dia, na terra, a claridade fez-se ver por dentro das coisas vivas e, na casa onde moravam: mãe pai e filho; se condensaram numa única luz, como se atados uns aos outros por um extenso fio de luz. eram uma fonte que brota.
não havia explicação.
nem método de ilusionismo para resolver o teorema.
repararam que a luz tinha uma origem, um começo: vinha da mancha do pequeno joão onde o desenho dava a vez a uma palavra. mas não era uma palavra qualquer. era uma palavra que em tempos pertencera a uma voz, a um corpo, a um sangue movido. palavra. palavras. palavra. palavras. palavras. palavras. todos sorriram. reunidos num segredo.
eu não sei bem o que dizia a tal palavra que reluzia mas acho que tem a ver com: pai filho e espírito santo.

1.7.09

para se cozinhar o poema são precisas duas coisas fundamentais: corpo e alma.
todos os dias sobrevivo; e isso às vezes deixa-me irritado

...antónio só

27.6.09

guardem o contacto deste homem...

se-te-lembro, setembro é logo ali...

sobre o michael jackson disseram-me isto assim:

eu preciso ir para voltar

com outro corpo

com uma outra mente

e com a clarideia

que tenho de recomeçar ou terminar o que deixei

23.6.09

nem ácaro nem ácarozinho

Gosto de promoções. Gosto de ser enganado um bocadinho. Mas só um bocadinho. É que se passar de um bocadinho já me altera o nível do colestrol, o ácido úrico dispara e, a diabetes, nem vos digo. Gosto de comprar a metade do preço embora sem saber qual o preço inteiro. Gosto de pensar que os meus eurinhos foram bem investidos apesar de não entender nada de aplicações financeiras.

Outro dia vieram-me à porta bater, e desta vez não era da Jeová, ufa!, era um tipo bem arrumado dentro de um fato escuro que me queria explicar as funcionalidades múltiplas de um aspirador moderno, com desavinte botões coloridos que, com um bocado de jeito, até serve para tirar calos dos pés. Ao início pensei em despachar o senhor com o meu péssimo humor, fruto de assistir às assembleias camarárias, mas, e como diz um verso da Amália Rodrigues, “foi por vontade de Deus”, que eu abri as portas de minha casa para que o técnico de aspirações de ácaros e verdetes fizesse uma demonstração prática ao meu simplório T1, sem garagem e com vista para o acampamento de ciganos.

O senhor, com cerca de trinta anos, dotado de uma inteligência para assuntos de mecânica de aspiradores, tratou logo de me surpreender com a quantidade de lixo que microscópicamente coabitava num tapete que, por ter sido comprado na Festa do Avante, eu jamais imaginaria que insecto ou ácaro algum pudesse aderir ao tapete. Mas não! Os ácaros lá estavam, no meio de cinza de cigarro, nódoas de Borba e outros materiais que só a medicina forense é capaz de identificar. O meu espanto foi entendido com um riso efectuado pelo senhor dos aspiradores.

Passou à fase seguinte: verificar o colchão da minha cama. Feitas as manobras essenciais ao aspirador, este, mal accionado o botão, começou a sugar quanta porcaria existia no colchão. Mas que eu desconhecia! Garanto-vos que eu não sabia que as minhas lindas costas, como quem diz, assentavam naquele rectângulo fofo, mas cheiínho de ácaros quanto basta para que eu me sentisse envergonhado perante o agente dos aspiradores que, pelos vistos, não perdoava nem ácaro nem àcarozinho. Fiquei sem palavras perante aquele espectáculo de lixaria a subir pelo cano do aspirador até a um saquinho que ele fez o favor de me mostrar como prova da minha falta de asseio.

- Está a ver!

Feito isto, o técnico dos aspiradores miraculosos despiu o seu lado de fachineiro e vestiu-se de um outro que era: o de técnico de contratos. Só ao fim de dois minutos é que me apercebi que aquilo que ele falava de facto não era chinês, mas sim uma linguagem quase perto de ser considerada um Chamamento. Pela simples razão de o técnico, aquando o seu discurso meio filosófico, fazia uns gestos, de que me lembra, só o Papa João Paulo II é que os fazia quando na sua varanda orava para os seus fiés. À parte disto, e o seu ar angelical a propor “ande lá, compre o aspirador!”, fiquei cem por cento embriagado quando ele me disse o preço: 400 euros. Por extenso: quatrocentos euros a serem pagos em cómodas mensalidades. Aqui foi o momento crucial. Como lhe dizer que estou sem emprego e que não tenho crédito em lado nenhum? Comecei por lhe falar de estrelas cintilantes e astros por descobrir, mas o técnico, que era sabido como um raio, voltava ao assunto que o trouxe até mim: vender-me um aspirador moderno! Pedi-lhe mais uma prova das capacidades do aparelho, desta vez no meu escritório, pouco recomendado a ambientalistas, ao que ele, todo vaidoso, pegou no sofisticado engolidor de bactérias e, zás!, deixou-me o escritório num brinquinho. Depois mais uns tectos difíceis de alcançar, mais umas paredes mortas, mais uma divisão da casa, e por aí. De facto o aspirador tinha muitos aspectos positivos, excepto um: o preço. Tentei negociar. Que absurdo!, disse-me ele. 400 euros e nada menos! Comecei a ficar farto de limpezas, o tom da nossa conversa afiou-se, de senhor para aqui e para acolá comecámo-nos a tratar por tu, entretanto já era noite e, após longo impasse, sem querer abusar mais da paciência do homem virei-me para ele e perguntei-lhe:

- Quanto tempo demora a formação de novos ácaros?

- Cerca de seis meses – Respondeu-me ele de pronto.

Fiquei mais de sessenta segundos a admirar o aspirador numa contemplação quase-poética. Era lindo! Tinha uns encaixes bonitos, mas, feitas as minhas contas de cabeça, e olhando agora para a minha casa limpinha, os tapetes e colchões a reluzirem, isentos de pó e ácaros que ele fez o favor de os limpar sem pedir nada em troca, eu a ver como é que contornava a coisa e tal, eureka!, disse-lhe com a maior das latas, num jeito só meu:

- Sabes...acho-te um tipo especial, um artista, inclusive...olha que conto contigo daqui a seis meses, ouviste?

- Ahaa...ahaa...

- Que ahaa, deixa-te de modéstia homem, quando a minha família inteira ouvir falar de ti...!

22.6.09

todos os homens têm uma história para contar, principalmente às sextas

Todo o homem precisa de uma história para contar. Uma história que seja melhor do que aquela que o outro acabou de contar. O romancista tem esse papel: contar histórias que nunca viveu, criar vítimas,

sanguinários,

cobardes,

pisar o sangue.

- Na tropa dei um tiro no pé de um sargento.

Para ele é uma medalha que transporta na memória. Dar um tiro no pé a um sargento não acaba com a guerra. Todos os homens são estúpidos quando estão a dormir.

Um:

- Na Guiné dei um pontapé nos tomates a um preto.

Outro:

- Eu estive no coração de Amesterdão e mordi a cabeça de um touro.


A história dos povos é feita de personagens que conquistaram e varreram o mundo à base da espada e da flecha. Fizeram-se países, delimitaram seus territórios com carne falecida.

Nenhum homem é herói quando está a defecar.

Um agricultor deu uma sacholada na mulher e põe a culpa no demónio, nesse bicho vermelho que tem cornos e unhas para agarrar.

Os jornais falam de casos extremos em meia dúzia de caracteres. Eu tenho uma história para vos contar: a menina foi atropelada após ter sido violada. Não consigo contar mais do que isto. A menina fica sem história para contar e na escola vão reparar que ela escolhe sempre a carteira do fundo.

O escritor tem o hábito (ou vício) de imaginar e criar circunstâncias. Para ele a estratosfera não é o que os astronautas dizem. Nem com provas ele acredita.

A estratosfera é um lençol azul que vai escurecendo, escurecendo.

Depois há que criar o estilo e aplicar a metáfora de acordo com a luz.


Meu pai bateu-me quando fiz o primeiro poema, lembro. Tinha cinco anos quando fiz vinte riscos numa folha e disse-lhe que era uma flor. Bateu-me novamente. Quase não lembro. Pratiquei atletismo, subi ao pódio e puseram-me duas noites no curral.

Esqueci.

Todos os homens têm uma história para contar, principalmente às sextas à noite, que é quando entre eles cada um paga uma rodada, o absinto faz calor e no sábado ressaca-se.

O sábio fica em casa a prometer solução, um filho espreita da janela do trigésimo andar e dá-lhe cá uma vontade de experimentar o voo, a água da cafeteira desaparece porque subiu-nos à pele um desejo de amar a esposa que está a dar o biberão ao filho, um amante rodou a chave do carro e o carro explodiu.

Os minutos são contas mal feitas.

Em sessenta segundos apodrece o amor, passa de ouro a latão, numa décima de segundo o bombista aperta o botão. E é aqui que nos despedimos.

Estás a ver por que não conto?

21.6.09

esta gaja droga-se. pica-se. puta-se

- Um mar por favor.


Preste atenção ao que vou dizer, acha que alguém pode pedir um mar? A vida não é mascar chiclete e já está. A vida é a soma de todos os mares, mesmo aqueles que acordam de repente pessimistas, sem talco para as feridas.

Esta gaja droga-se. Pica-se. Puta-se. Ninguém pode pedir um mar. Nem praia nem o raio que a viole. Ela insiste e volta a pedir

- Um mar por favor.


Há razões para se desistir da vida, alfinetadas que nos tiram o prazer. Esta rapariga droga-se? O mar não pode ir a lado nenhum. As putas podem. Metem-se nos carros de qualquer um e voltam menos desejadas, descompostas da cintura para baixo.

A literatura repete-se a cada novo milénio. Para o ano tenho marcada uma queda livre de um sexto andar. Mesmo frente à biblioteca. Sonhos são sonhos. Evidências nem a pata de um burro.

Se eu bebesse um gole de tintura tratava-me por dentro, como não tenho aguento a democracia. Ouviste?

Para quê querer um mar se ele está sempre aqui?

O afogamento é uma carta do feiticeiro.

Esta não quererá certamente um sufoco igual ao do pequeno joão que largou a mão da sua avó para sentir o que é ter água pelo pescoço.

A verdade e a mentira são duas irmãs gémeas, embora que: uma seja puta e outra não. E a Mãe Vida sofre com isso. Repara como ela chora.

A rapariga caminha nua na praia. Se os cães soubessem a que horas ela vai, iam espiá-la e contemplá-la às escondidas.

O mar acolhe todas as alcunhas, desde os Pereiras, os Macedos, os Gomes, os Pedrosas.

Sofre-se com os sinos,

com a derrocada do prédio do lado,

com os epitáfios das campas. Para quê mais água se a cerveja faz melhores progressos?

Chamo-lhe Maria e, como todas as Marias, esta também sofre num canto da casa antes e depois do croché, corta os lábios num copo esquinado.

Parte da imaginação tem um gosto proibido, um sentimento cigano. Maria, de santa tem o seu nome. Seu corpo: uma bacia de roupa por lavar. Talvez seja por isso que ela queira um mar. Para se lavar por dentro, cicatrizar a alma com escamas de peixe.

Alguém lhe fez uma surpresa e ofereceu-lhe um aquário para remedeio. O aquário tinha um único peixe que dava com a cabeça minúscula no vidro. Com a água suja mal se percebia o fundo.

- Um mar por favor.


Deixaram de lhe responder, de lhe perguntar porquê porquê porquê. Maria sentiu-se verbalmente nua e, como achada na imensidão do espaço, meteu-se dentro do aquário e fechou o tampo.

Mais tarde alguém reparou nesse facto:

- Este aquário tem um peixe muito bonito. A que espécie pertence?

20.6.09

16.6.09

de última hora - meio bicho e fogo - valter hugo mãe

GOVERNO - Meio Bicho e Fogo from 8 e Meio on Vimeo.

12.6.09

clique na imagem para aumentar

11.6.09

Conhecida pelas lutas constantes em tudo quanto é colóquio, pequenas cimeiras, chegando mesmo a mandar uns nervosos ataques aproveitando o facto de as televisões estarem a transmitir em directo para o jornal da tarde. A conhecida Maria Paula desde que chegou a presidente do partido da terra decidiu avançar com o projecto pela qual se entrega de corpo e alma: à nobre causa de pôr um fim ao racismo, à desigualdade de oportunidades, Sim aos valores humanos.

- Estamos no século XXI e é inaceitável que os homens sejam catalogados pela cor da pele!

Frases sentimentais, com alto teor de justiça a que, aliás, angolanos, moçambicanos, guineenses, mulatos, mestiços, cabritos, uniram-se numa votação recorde para eleger Maria Paula à presidência da junta de freguesia de Portuzelo, que daqui a nada, sabe lá alguém adivinhar o futuro, não poderá disputar o governo nas próximas eleições, e quiçá, matar a indiferença ao mundo.

O perfil de Maria Paula, em traços gerais direi que é uma mulher do povo, de braços levantados para o que der e vier, aquela que espera os operários à saída das fábricas, nos bairros problemáticos e, nas bentas dos manda-chuvas, de megafone em punho, aí vai mais um discurso sobre a humanização, valores sócio-culturais, numa desenfreada canseira para a igualdade de todos os homens na terra. Afinal de contas o ser-se branco preto ou mulato é pintar um Deus com todas as cores e torná-lo mais universal. A favor da pluralidade e inter-racialidade, dizendo sempre com orgulho que é branca por fora e negrinha por dentro, depois agita as ancas tal qual uma preta num merengue.

Em casa está com dois rapazes pequenos a crescer e uma rapariga bem crescida, Maria Paula sempre soube conciliar a família com a política, dando provas em entrevistas que tem África na voz.

Mas a sua filha mais velha já dá nas vistas lá no bairro e os sabidolas olham-na de outras maneiras, tentam adivinhar o que vai por debaixo dos decotes.

A Maria Paula tem agora outra luta, menor, é certo, mas que lhe dá uma data de preocupações, é que a serigaita já gosta de ir num bar, chegar a casa depois da meia-noite, esconder dos outros que a sua boca perdeu todo o seu batôn e vá-se lá imaginar porquê. Por muito que Maria Paula cante a democracia, tem os seus bichinhos na cabeça, ao suspeitar que a sua filha anda enrolada com alguém, quer-lhe controlar os passos, não vá ela aparecer com um filho na barriga, e imagine o que os outros poderão dizer, podendo em último caso arruinar-lhe o sonho de fazer carreira política. Só que a sua filha, agora que está provando a loucura da adolescência, parece que herdou a boémia do seu pai quando ele tinha vintes, ao ponto de Maria Paula, certa vez, dar-lhe forte na telha em seguir os passos da sua mais velha numa dessas sextas-feiras malucas. E assim foi. Maria Paula botou em cima do seu corpo branco uma roupa disfarçada, um modesto chapéu para não atrair muito as atenções. No bar de encontro, na esplanada, a uma distância de trinta passos, meia camuflada pelo seu vestido negro, a noite a dar uma boa ajuda à sua camuflagem, Maria Paula podia observar nitidamente a sua filha no meio de um grupo de jovens em que, eles, com umas tiradas picantes, punham seus braços marotos nas cinturas de duas ou três raparigas, enquanto elas sem se importarem, participavam na breca. Entre uma delas a filha da Maria Paula, que parecia gostar do clima, principalmente da forma com o Jesualdo, negro como carvão, rapaz sossegado, com uma esperteza para as matemáticas, a punha a fazer contas ao coração.

Ou por julgar que os rapazes queriam tomar as raparigas por lorpa, ou porque as reuniões de assembleia tomam-lhe muito tempo e tem a desculpa de não estar habituada a estas modernices, sem muito bem entender se aquelas trocas de mimos eram de amizade ou de algo mais, ainda assim, em jeito democrático, Maria Paula decidiu avançar para perto do grupo como se nada fosse, exibindo o seu ar desportivo, a sua confiança política ao rubro, dando um olá geral à rapaziada. Ao darem conta que aquela pessoa é a tal de quem se fala nos jornais, a nobre idealista, soltaram uns valentes elogios, pois estar ali cara a cara com a número das mulheres que fará história no mundo. Era uma sensação de levantar cabelos. Feitas as cerimónias de apresentações e felicitações, após a euforia amainar, a Maria Paula, como quem não quer a coisa, aproximou-se da sua filha, suavemente, com o seu sorriso afixado, que só ambas entendem o significado, com uma das mãos em pala sobre a boca, para que dela não se perceba uma única palavra, sussurou-lhe com ordenança aos ouvidos:

- Vê lá o que queres da tua vidinha, porque nem penses em meter um preto lá em casa, ouviste?!

E Maria Paula foi-se embora, despedindo-se da malta com uns ya mans e curtam bué. E os brancos e os pretos aplaudiram longamente a mulher que um dia matará a desigualdade. Mas com palavras.

8.6.09

uma piada das boas

Numa operação nocturna a polícia manda parar um condutor e faz-lhe um teste de àlcool.

Quando obtém o resultado o polícia diz-lhe:

- Veja.... Não tem vergonha!??? (Mostrando-lhe o aparelho que marcava 3,45)

E responde o bêbado:

- Foda-se!!!! Um quarto prás 4 da manhã !!! A minha mulher vai-me matar!

chama-se a isto personalidade forte

5.6.09

se a minha boca impedisse de pronunciar o meu amo-te logo o meu peito explodiria

2.6.09

eu perguntei, alguém me respondeu assim:

uma letra

uma palavra

um ponto e vírgula

um monte reticências para continuar o teu silêncio

26.5.09

Desde que os meus amigos e inimigos deram conta que eu era o responsável por estas crónicas amargas e doces os sorrisos não param de aumentar, uns dirigem-se a mim como: olha o senhor dos calhaus!, outros mais sarcásticos do que a minha avó, perguntam-me: não tens aí um calhau p'ra gente fumar, ó meu?


Bem, há de tudo na vida, como não há nada na morte. Enfim, fazer a rua direita completa sem dar nas vistas é assunto de trinta páginas para um futuro romance. As pessoas pasmam-se e exclamam: afinal o gajo que escreve aquelas tretas tem cabelo encaracolado! Infelizmente, a fama não me tem dado bons resultados, apenas uns copos de cerveja. E foi o que foi: esta manhã, sol de verão, olhava as montras só por olhar, um indivíduo de meia idade bateu-me nos costados com uma leveza que eu estranhei.

- Bom dia, amigo!

A palavra amigo tem dias que me custa a engolir, mas pronto, lá teve de ser. O seu sorriso dava a sensação de ser um sorriso a pilhas, mas ainda assim retribui: Bom dia!

Depois de uma breve introdução sobre as focas em extinção, de alguns casos de polícia, veio com esta ladaínha:

- Gosto muito de o ler, sabia?! – Continuou – Em minha casa todos o lemos. Só você e o Fernando Mendes!

Hum, fiz de conta que entendi a comparação e, como sei que isto é mesmo assim, agradeci a gentileza com um muito obrigado.

Durante uns dez minutos encheu-me o ego com elogios para cima e para baixo, que como escritor não há nenhum, blá blá blá, que as minhas crónicas terão mérito além fronteiras, etc, etc, qual Saramago qual quê...

Agradeci-lhe a simpatia umas trinta vezes, tinha ali fã, alguém que se preocupa com a pessoa que está por detrás destas palavras. O meu coração vacilou de bons espantos, é um facto.

Convidou-me a ir tomar um café ou que quisesse e, como terra-a-terra que sou, aceitei. Fomos ao café Conforto.

Havia qualquer coisa nos olhos dele que parecia querer falar mais alto do que a boca, o seu sorriso, esse, sempre de roda no ar.

Mais palavras, mais elogios sobre a minha escrita, mais escovadelas, mais umas minis geladinhas, mais semi-fusas no seu português que eu nem catrapiscava uma frase completa. Até que, o seu sorriso parou. Os seus olhos idem aspas.

Falou-me da crise do país com pequenos gritos na voz, na dificuldade que é em atravessar os meses e os dias, o emprego por um fio, a mulher a dar-lhe inúmeros avisos de separação, os filhos e essas coisas todas.

A única psicologia que lhe dava era apenas abanar com a cabeça.


No pico da conversa, veio aquela parte que todos sabemos: sabe como é, a vida de um pobre, isto está duro...se me pudesse emprestar algum, só para organizar a minha vida, quinhentos euricos, não peço mais, que daqui a dois mesitos, se tanto, devolvo-lhe o dinheiro, com juros se preferir, pode acreditar que sou uma pessoa de boas fés, e você, pessoa talentosa, de sensibilidade maior, se me poder desenrascar nesta fase crítica da vida, Deus falará ao seu coração com certeza.

Gostei das palavras, um pouco comoventes diga-se de passagem, mas, como lhe dizer que também eu ando num barco desconcertado onde o mínimo descuido, zás, caio ao mar. Como lhe dizer que isto de escrever para jornais não dá nem sequer para as sardinhas?

Sem círculos na língua, respondi-lhe:

- Vai-me desculpar mas não lhe posso ser útil nesse aspecto.


Foi que nem bomba, nesse cirúrgico momento sentiu-se mesmo a Terra a estremecer, o homem, que de sorriso aberto passou para o registo de sorriso fechado - mas com um canino de fora a brilhar - o cabelo levantou-se como tropas militares e ripostou em greco-romano:


- Vendo melhor as coisas, você não escreve nada! As suas teorias são indigestas e deploráveis. Só um mediocre é que escreveria aquelas coisas banais, tão banais que até faz mal ao fígado!

Mau, nesse momento senti mesmo a terra parar, fiquei a olhar o homem num cálculo à xadrezista, pois tinha em mente uma indecisão: ou saltar-lhe ao focinho ou ignorá-lo. Das duas uma. Virei-me para o céu em pedido de auxílio e perguntei:


- Que faço Senhor?


Para a maior das surpresas, ouvi uma voz a dizer: escolhe a primeira!

Afinal o homem tinha razão: Deus fala ao coração.

25.5.09

como te escrever com a luz viva dos faroleiros
se ainda ontem me despenhei contra o tempo

como acreditar no ar que toco
se celebro todas as coisas num só delírio

se agisse numa força eléctrica dentro do que sou
perguntar-te-ia: por que escutas (n)o silêncio
e tu dirias: para entender melhor tuas palavras

23.5.09

para que se pense

18.5.09

Amanhã apenas vestirei camisa nova

lavarei a face com água corrente

e caminharei pelas ruas com um fruto em cada mão


Se Deus quiser terei um poema como última refeição

e uma pinga de vinho para o dizer

Depois vou ensaiar muito a despedida

fechar os olhos

até sentir uma leve cegueira iluminada

olhar-me por dentro e ver que já não há pecados

não há pássaros a cismar ao meu ouvido

apenas uma impressão a garfo espetado na mesa

15.5.09

Farto de ser o pateta, o bombo da festa, um quase figurante desta vida, se calhar o pneu subslente de um carro ou parafusinho duma grande máquina em movimento. Farto de ser segundo plano, o pior remunerado, palhaço à força, o que diz bom dia mesmo que o dia esteja mau. Ele avisou que um dia vai parar a fita com um grito, ai vai vai, deixar de vez a vida de cão, mostrar que existe, que o palco será dele, um palco só para ele, apurar a sua gargalhada, arranjar uma namoradinha para os intervalos das gravações.

Nos estúdios da Walt Disney não se falava de outra coisa. O Pateta vai começar a sua carreira a solo.

12.5.09

O grupinho era sempre o mesmo: o Gaspar, o Gomes e o Berto, que bem podiam ser o três da vigairada, mas não, estes trio era um trio de ataque, mas não de futebol ou coisa que se pareça, estes três moinantes, desde que há conhecimento, sempre praticaram o chamado “encosto às raparigas”.

Eu defino: é colocar-se por detrás de uma mulher, bem encostadinho ao rabiosque dela, e deixar-se estar, deixar-se estar, feito lampião apagado.
Podem “actuar” nas feiras, na entrada do autocarro, numa greve, ou coisa que o valha, enfim, o que importa é que haja muita muita gente, nomeadamente, raparigas descomprometidas, que eles lá estão, os basófias, a dar ao zarelho, a encostar as suas carnes aos traseiros das raparigas como se não fosse nada com eles.

Mas é nas romarias, quando à noite a banda está a tocar ou quando se olha os foguetes no céu, que os seus sucessos aumentam e endurecem os seus paus como cajados. E deixam-se estar quietinhos para a presa não dar conta que alguém está tirando proveito da sua parte traseira e, ou prega-lhe um estalo ou vai-se embora sem dar o estalo.

Chegou a hora: a procissão a passar pelo meio da rua, com excentes de pessoas a assistir, dum lado e do outro da rua, e digam o que disserem, não existe melhor cenário do que este para o trio atacar e sentir, cada um à sua maneira, a carne fresca de umas nâdegas quaisquer.
É uma porcalhice incorrecta mas eles não estão nem aí, como diz a gente lá do brasil. É como a ressaca de um drogado, eles precisam deste alento para se sentirem vivos. Um fim de semana sem encostar, sem sentirem o cheiro delas bem perto dos seus narizes, óó, até a barraca abana.

O Gaspar, que já tem idade para tomar conta de netos, entretem-se a sentir o calor de uma jovem morena que na sua crença assiste à marcha do andor, dos barcos decorados com flores, sem que a inocente imagine que a pessoa que está coladinha a si, a fazer de conta que “tenho” me chegar para ver melhor, é um tarado sexual que não desgruda.

São tão depravados que nem com a nossa Senhora a ser levada por ombros, a dar a sensação que os está a topar, eles se medram. O Berto, esse, o que mais se arrisca, está mesmo coladinho a uma de trinta aninhos, pela aparência, a fantasiar-se todo, a sentir o coiso teso como um estandarte, cuja emoção é tanta que quase se lhe fecha a traqueia, e sufoca-se. Uma loucura, pensa ele.

Menor sorte tem o Gomes, pois a sua fraca aparência, a mirolhice antiga, não lhe cabe arriscar muito e, como ele diz «ó pá é melhor do que nada», ter de ficar pelas cinquentonas e e. Normalmente o saldo de cada um é positivo, pelo menos a olhar pelas histórias que trazem na gaveta da imaginação.

Quando se sentam no café do Licas, então é que é, derretem-se todos, falam de cus a torto e a direito, como se isso fosse de comer e encher a barriga.
São muito amigos, melhor, amissíssimos, por andarem sempre juntos parecem três putas à procura de emprego, protegendo-se uns aos outros.

Andaram neste rock ene de anos sem que alguém por sombras adivinhasse, ainda por cima todos casadinhos, filhos que deram tropa, filhas quase dôtoras, quem é que lá ia suspeitar que o trio atacava por trás as moiras nas festas em honra aos santos padroeiros.
Agora são tão madurinhos na idade que mal se aguentam nas canetas, caminhando pelas ruas a três pernas, só peles caídas no queixo, rugas que indicam passados de alguns temporais, vozes trémulas, o esquecimento dentro e fora deles, as ruas cheias de gente, o comércio a fazer-se, as meninas sorridentes dos balcões, e eles, o “famoso” trio de ataque, no sempre mesmo banco de jardim, consumindo nostalgias ao minuto, pesando o céu e o inferno, uma mulher passa com um vestidinho apertado e largam pequenos uivos, faz ressuscitar memórias, do longe vem-se aproximando um grupo de jovens a distribuir panfletos sobre a liberdade sexual de cada um, a consciência gay, sejamos tolerantes, o Gaspar, que pelas mãos pecou, apanhou com essas mesmas mãos um desses panfletos, olhou e deu-o a olhar aos outros dois que, desde que acossados pela asma, têm Francisco Xavier como remédio, da asma e das suas velhices, esquecidos, porque notam que o tempo já não lhes pertence, depois de ler com atenção, suspiraram:

- Ele agora há cada um...

- É o que eu vos digo, pior do que crer nos políticos, acto de crueldade é um pai convencer o seu filho, que mal acabou de nascer, a ser adepto do benfica.


p.s. assim fala o benfiquista que sou.

9.5.09

8.5.09

7.5.09

Como dizer Deus em outra palavra?

Como dizer Deus em outra palavra?
Direi: poema!
Ao contrário das flores, os poemas não morrem
Vivem sem terra e sem gota de água,
basta um rosto mal esboçado, uma voz com pouca voltagem,
coração ao léu e imagina-se o resto do corpo

Deus é poema
e assim será o seu nome
porque o poema está para lá dos homens e das montanhas
uma vez imaginado é esperar pelas forças concêntricas
e que as palavras agitem os corações numa louca rotação

Milhões de braços para mudar uma palavra não basta
nem o amor é parvo ao ponto em pensar nisso

Poema é Deus entre os homens incompreendidos

Solte-se o grito já! E corra pelas ruas o eco como um veneno à solta
Está na hora do milagre: sentem-se à mesa... mas não roubem os talheres!
Eis o poema a subir do poço rumo às constelações: comecemos a adoração

Eu sei que Deus está em toda a parte
e que à parte disso não está em parte nenhuma
e num poema que nasça o silêncio põe seus ovos:
Deus e poema: matéria sólida a derreter-se no escuro

Eu tenho ambas as coisas no mesmo lugar
na mesma ferida, no corpo dactilografado,
sem que tenha trabalhado a infância, o poema, esse Deus
No entanto se “condensar o mundo num só grito”
a poesia será minha salvé rainha
e Deus e seus contrários hão-de-me pertencer por inteiro.
Até ver!

6.5.09

façam o favor de acreditar nas vossas existências

2.5.09


A imaginação é um instrumento quando mal usado é perigoso assim como a forma como usamos as nossas mãos com os seus dedos: cumprimentar, disparar, apontar, escrever, etc.

Sei que a vida é uma película de filme alargado em anos e décadas. Sei que um monstro não se domestica facilmente. Pode-se, em todo o caso, escondê-lo debaixo de uma pele que por certo não será conferida.

Mas o monstro anda e vagueia, dorme e acorda todos os dias diante dos olhos do nosso sangue. O coração ali, batendo, batendo, como que recebendo ordens, sempre a trabalhar, sempre a manter-nos vivos. Agora imagina alguém que ama demais o coração de outrém e o queira como objecto macio nas palmas das mãos. Arrancar um coração é uma imagem brutal e animalesca.

Não se pode extrair o amor com violência. Mas pensar e imaginar é o bom que a liberdade tem. Um homem e uma mulher que se amavam felizes, com projectos a dois, histórias ao ouvido, calores na pele, um dia puff tudo acaba, a embalagem frágil, que é o amor, é violada e estraga-se em segundos a pintura de uma vida.

Sofrer é um pedaço de nós. Amar é um estômago que armazena carícias e beijos.

A mulher chora pelo dever feminino, seus olhos diminuem, enlouquecem, as chamas incêndeiam os lábios quando pensam um no outro. A noite é antiga como o silêncio das bruxas. Ambas existem, mas onde? Eu sei que as definições não nos levam a lado nenhum assim como a morte que se adia. Era um dia sereno, com os grilos a encher os ouvidos, a criançada com os seus catecismos juntos aos peitos, o homem persegue a que fora sua mulher, persegue-a porque sente que ainda a ama e o ciúme é um ser dominante.

quere-a de volta

Sem que ela desse conta, na primeira oportunidade, e o barulho da criançada a ficar para trás, muito para trás, ele não compreende que morrendo o amor morrem as palavras, o lugar ermo é perfeito para se fazer vítimas, agora sim, tenta-a dominar com a vantagem da sua força.

o amor pode ressuscitar, amar duas vezes a mesma mulher?

Ela grita, ela esperneia, ele levanta-lhe a saia, ela aperta as coxas, tenta a libertação, uma mão, um braço, um soco na testa dele, ele ferra-lhe no pescoço porque não a consegue beijar, deita-a no chão, mostra-lhe o pénis levantado, ela implora para que não não não, ele sorri como um boi em pasto, ela acalma-se, sabe que deve participar, ouviu dizer que nestes casos é melhor assim, a vida não se salva com pontapés, deixou por instantes o monstro entrar em si, depois disso foi só conseguir fechar os olhos, morrendo devagar por perdoar, só mais esta vez.

<