6.2.12

O meu amor pode ser fraco,
mas tem voz que abraça
as árvores 

A minha poesia pode ser fraca,
mas imagina mães a guardarem
pássaros no ventre 

Os meus sonhos podem ser fracos, 
mas são da cor do mar
quando descalço os pés.

3.2.12

Que nunca te canse olhar o tempo, as flores, os rios, a poesia, ou sequer o amor. A sapiência está na capacidade de ler as legendas.

23.1.12

Ainda que cantes, 
para que entre os mortos e os vivos haja correspondência,
nenhuma sombra exibirá o seu lado de dentro

20.1.12

Ó noite, por que me queres tão vadio?
ó sol, por que me fazes parecer tão longe?

Ó Deus, por que pestanejas largatixamente?
ó sombras, explicai-me as árvores.

Ó delírio, a tua mulher pariu um sapato?
ó monge, para quê entender o perfume dos santos?

17.1.12

Semear o amor
plantar a loucura
e colher homens e mulheres 
mais felizes.
Não sei tombar como os guerreiros
não sei sangrar como um livro de História de Portugal
não sei rimar como o Eugénio rimou
não sei o segredo das cores primárias
nunca vi uma aranha a fabricar o seu vestido
nunca escutei o silêncio a dar um grito de mulher
Mas sei que a metafísica tem o seu deserto.

16.1.12

Símbolos? Meta-símbolos?
Odeio símbolos, os mestres-de-obras dos poemas, os clínicos
analistas das metáforas, os engenheiros do amor, os arquitetos
da foda, os psicanalista da música fúnebre. Odeio os que num verso
tentam perceber a minha vida toda. Invertem parábolas, agitam-nas,
sacodem-nas, analisam a minha dor à lupa.
Rais parta a simbologia, as pernas das letras, os nenúfares nas mesinha
de cabeceira, os poetas escriturários, belos, sentimentais e sonâmbulos
como os bois pela beirinha da estrada.
Odeio os que a modinho retiram a vesícula do poema, injetam sol
e pleonásmos, virgulam os sentidos.
Meus senhores, o que escrevo advém das flores, roubado às flores,
plagiado das flores. Esse é o meu crime, o meu sangue, que é fresco
e tem sete fuso horários.
Por favor, não me dêem cabo dos significados!

6.1.12

Quando tentei ser poeta original
vieram bandidos e esfregaram-me com ouro
líquido na cara. quando sonhei com a leveza 
dos pássaros perdidos, uma poetisa engravidou-se 
através das suas próprias mãos. quando vesti a túnica 
das esfinges gregas, uma criança chorou diante 
do altar do abandono. quando descobri o conforto do invisível,
parti para dentro de mim e acendi os olhos.

18.11.11

Quando eu morrer chorai por mim ó minhas velhas
ressuscitai os meus cabelos sentimentais
façam da dor algo mais que sofrer
façam-me cocegas nos pés com penas de pavão
acendam-me um cigarro inglesado
ponham-me poemas eróticos em vez de flores
rezai para que não abra a boca
quando eu morrer contem-me o dia de amanhã
não façam caso dos meus olhos fechados
pensem antes que estou a fazer amor às escuras
ou a meditar como em tantas outras vezes
ou a contar os tostões para logo à noite
Quando eu morrer não peçam para contar uma última piada
deixai-me ver a vida através das sombras
mas podeis falar alto e dar palpites sobre como morri
se o que fui foi ignorar-vos
ou se a minha única virtude foi saber cambalear
Quando eu morrer as crianças podem vir à janela
lançar confetis e tartes de morango
os tambores podem dividir a fome comigo
e os anarquistas lançar panfletos de amor sobre mim
Quando eu morrer esqueçam que há greve na Carris
que o governo é um travesti sem cosmética
que os banqueiros cobram altos juros por cada lágrima
esqueçam que o fogo é uma valsa lenta
dançai a meu redor
toquem cornetas e reco-recos
cantai até a terra ficar azul
quero provar das vossas indecências
quero ensandecer com um forte abraço
quero possuir o tempo como nunca fui capaz
quero-me vir só de saber que o infinito é já acolá
quando eu morrer haverá mais de mil homens e mulheres a sofrer
não porque eu tenha morrido
mas porque a minha voz ficou inacabada.

14.11.11

Porque enxotas o silêncio?
- Para dar de beber ao pensamento-casa

Porque morres todas as noites?
- Para aprender o instinto das libélulas

Porque amas as iniciadas flores?
- Para encontrar a fuga dentro do sono

Porque lês as mãos?
- Porque sou uma mulher amena, a inclinação da tarde.

11.11.11

vivi inúmeras palavras
assanhei a terra com os dedos
construí girassóis ao lado da casa
fiz poemas que são como mapas
pus crepúsculo numa jarra 
sou um quase Lugar
uma ideia sem promessas -  sem cal
e sobrevivo na folhagem do sossego
rente às estações.

10.11.11

À noite a música vomita o seu perfume
encosta-se ao lirismo das violetas
e sente-se o chão cada vez mais longe

9.11.11

ando há dias para te escrever
mas só hoje aquela luz vinda do nada
me entrou no peito como um salmo
e quase desmaiei ao ver que a verdade
é tão certa como o cheiro de uma rosa
sabias que colecciono mortos?
que o meu quarto está repleto de poetas loucos
sinais de vida em cada andor
cometas que sangram e deixam rastos
pelas páginas que vou pisando
e temo Deus porque ainda sou criança
e sou daqueles que chora pelos barcos
confio o futuro aos heróis da banda desenhada.
ando há dias para te escrever
tenho sonhado com poucas-vergonhas
porque no princípio de mim há
um anarquista de cabeleira verde
de pés enterrado na terra
à espera de sinónimos tão claros
que a Água dá um grito.
Todo barco é uma dor
os pássaros inventaram a religião - Felizes são 
os guarda-florestais no mês de janeiro!

8.11.11

 .: Quem desenterra, quer achar .:

7.11.11

- Questiono-me como uma dor. E percebo a voz dos insectos -

4.10.11

*
Plantei um pequeno fantoche na terra,
e esperei adormecer junto às sebes,
para vê-lo crescer.
*

3.10.11

Não tenho interesse pela literatura
não quero saber de poetas embriagados
com palavras de arsénico
Se jesus Cristo era um gajo porreiro, ou não.
Se maria madalena percebia de bricolage
se daqui a vinte anos irei somente escrever com os olhos
ou se a minha história será dada aos gatos para comer

Se a lua é um ovo estrelado, tanto me faz
como tanto me fez, saber que o meu destino rima com desatino
e o senhor da taberna não me fia mais nenhum copo de tinto

Não quero saber de tristes costureiras que passam horas
a cerzir o cu do tempo com fios de luz
é-me indiferente se a tristeza é a via rápida para o absinto
se na minha cama dormem leões, gambozinos, vermes;
se Nietzsche era um grande tocador de banjo
ou se os meus poemas terão sucesso dentro de uma gaveta

Estou-me literalmente nas tintas para as paredes e tectos
por mim, incendiava as bibliotecas todas para se escrever tudo de novo
e ver sofrer os romancistas e os poetas e os contadores de histórias picantes
e rir-me com a possibilidade de ser inteiramente feliz ao lado
de uma árvore que tem como fruto mulheres bonitas.

Ah, e escurecer de tanto imaginar!

Não quero saber se os ilusionistas tiram o céu da cartola
se a música anda metida com o silêncio
e em cada foda nasce um ateu.
Não me venham com horóscopos
nem previsões de temporais, nem sinais de esperança,
nem de invisuais a ler a terra com os dedos, 
que se dane a ética e os moralistas,
os saltimbancos e os fackirs.

Que se lixe o mês de Agosto
o champanhe francês, os decretos,
o papel higiénico, a mostarda, o esferovite, 
as palavras esdrúxulas, o fado, a couve galega, 
ou a cona da mãe Joana!

Se regressei à vida foi para escrever este poema
no peito iluminado de uma coruja.
foi para devolver a carne ao osso, foi
para amar todas as cartomantes com princípios de esgotamento.
Cansa-me a beleza dos santos, os anéis de jupiter
nos dedos dos escolásticos, dos escolióticos, das madressilvas, dos minotauros,
e dos que passam horas a pensar o mundo, a varrer o mundo
com infinitas asas.

Não quero saber do meu Eu, do teu Eu, do nosso EU,
das lembranças que fazem abrir regos na loucura,
do Despertar das galinhas, das feridas a fabricar pão.
Não me importa se depois deste poema irei ruir, se
na ponta de uma faca ergo um castelo, 
se Leonor vai descalça para a fonte ou de sapatilhas, se
o que digo faz temer as criancinhas.

Já amei uma maçã, um guarda-vestidos, um dióspiro descapotável,
um Deus todo petulante e vaidoso. Já masturbei árvores,
subi ao céu numa jangada e regressei a esta casa, 
a este quarto,  a esta cama, a este sono,
coberto de imaginações, e livros inesgotáveis. 

2.10.11


Se for preciso rasga-te ao meio. Um coração deve sonhar a dois
***
Valsa tão triste
que nem a terra
sente o ouro

*

30.9.11



Por mais curta que seja, há sempre um mar em cada distância

27.9.11

Antes de preencheres o vazio com palavras de universo
lê com cautela o que te vai no sangue.
Anda como se contasses os passos até ao dia de morrer
e dorme como se desejasses acordar com fome de vida,
do outro lado da vida, onde os teus sonhos são castelos concretos.

.

O amor é vago como o universo

.

29.8.11

Quisera eu ser noite para perceber que o silêncio tem contornos de mulher
Quisera eu ser remédio santo e abrir estradas verdes para cavalgar 
Quisera eu ser moinho e abrir altíssimas recordações na água
Quisera eu ser a mão esquerda de Deus
Quisera eu ser mais ninguém 
Quisera eu ser mais
Quisera eu ser
Quisera eu
Quisera

22.8.11

Serei sol em teus lugares
ave cantante nas tuas órbitas
serei pulso a puxar as manhãs
às tuas manhãs
silêncio estonteante a comover os frutos

Vem ter comigo, antes que respire o próximo pensamento!

26.7.11


Enquanto estiver a escrever um poema não me chamem para a mesa
Não me perguntem se amanhã vai estar bom tempo
Não questionem a minha existência
Não me convidem para orgias
Não me digam que a morte vem a correr como uma louca
Não façam caso de mim
Façam de conta que estou a morrer pela minha mão.

Enquanto escrevo um poema sou outro
Outro que eu desconheço nem lembro nem palpito
O meu sangue é burguês e gosta de inventar tornados
O meu coração é um esquizofrénicozinho
Porque a vida, meus senhores,
A vida é um escândalo e a morte é pornográfica!

Enquanto estiver a escrever um poema não me falem em tísicas fulanas
Não me matem mais do que já estou
Não me excitem o perónio
Nem me congratulem com santinhos para a cabeceira
Ignorem que estou a desistir
A ser fatal em cada movimento

Não vêem que estou a dar à luz um relógio de sala?

Não me ponham espelhos côncavos na frente
Nem navios a afundar.
Preciso de concentração para morrer
De me espetar contra o tempo como água no fogo
Ir a todos os fins e perceber que a realidade é pura ficção
Ir a colóquios sobre artes marciais e sair de lá mais pensativo que o mar.

Enquanto escrevo um poema finjo que o mundo me pertence
Entretenho-me a ruir-me e a arvorar-me de novo
A ser mais ridículo que a solidariedadezinha.  

Enquanto escrevo um poema inverto deus, sacudo-o,
E alimento o espírito com uma tal solidão de olhos azuis
Portanto, meus senhores,
Deixai-me escrever e ter saúde para abrir buracos na água.
Façam de conta que o parvo aqui sou eu!

18.7.11


Ainda bem que chegaram. 
Esperei todos estes anos por vós. 
Executei poemas de pulsos abertos para vos dar o melhor. 
Caminhei para o fogo por achar que o fogo seria Deus de braços abertos. 
Por favor, sentem-se, sentem-se.
Assistireis daqui a minutos à minha morte. Nada de arrepiar, nada de transcendente.
Trouxe-vos uma morte sem grandes tormentas, sem grandes manobras cinematográficas; uma morte branca, sincera, fenomenal.
Podeis observá-la de olhos abertos, muito abertos, até perto de criar dor.
Prometo que será bela como um poema do Eugénio. Será tão pedagógica quanto uma ausência.
Tão útil quanto um livro sobre jardinagem. Feliz como os caminhos de uma febre alta.
Vai valer a pena terem vindo assistir à morte do artista que por amor se fará cadáver.
Prometo não sujar os vossos pensamentos. Estudei a minha queda com precisão analítica.
Resolvi exercícios de amor atando duas flores com um fio grosso de silêncio.
Fiz sucessivas regressões e vi que a infância é um lugar sem tempo.
Portanto, quando a minha morte começar, não me atirem flores, mas sim poemas que falem daquilo que o mar é incapaz de acolher. Atirem-me restos de luas que vos ficaram entre dentes. Atirem-me o desejo, atirem-me os vossos sexos coroados de nomes.
Não chorem. Guardai as lágrimas para partos mais difíceis.
Não cantem. Deixai que o silêncio entre em constelação.
Não virem a cara ao lado. Saibam vós que um poeta nunca morre, vai escrever para outro lugar.
Deixem-se estar mais um pouco.
Só mais um pouco.
Aqui não há quem morra. Aqui não há quem viva. 
Porque, enquanto se sonha, o abismo fecha-se.

16.7.11



Um artista faz-se à tardinha, encostado a um balcão
de cervejaria, a ser ortograficamente um apaixonado,
cair em tentações e apurar o faro.
Ter uma paixão louca por iates e mulheres terrivelmente bonitas.
É útil saber pelo menos o nome de quatro escritores estrangeiros,
ter escrito um poema de amor na parte de trás de um cheque
e amar com uma falsa franqueza.

Para se fazer um artista não basta apreciar bons vinhos,
ser pedrado em altas fúrias e desejos; é preciso apostar na lotaria
da páscoa, sonhar com lavagantes na mesa,
ir à missa aos domingos de manhã e rezar para que nada mude.
Faz-se a caminho da escola, a contar piadas às amigas
sobre órgãos genitais. Ser sócio de um clube de amizade
e cagar nos amigos.
Basta-lhe confundir Pedro Alvares Cabral
com Vasco da Gama, saber que a vida é isto e nada mais do que isto.
 

Todo o artista tem de saber quem foi
Jesus Cristo e que história foi essa que ele inventou.
Não é preciso bom cérebro, bons bíceps,
nem sequer sonhar a noite inteira como um pedagogo
ou diferenciar o alho do bugalho, a consoante do consoante.
Um artista é alguém que ama todas as empregadas de mesa,
discute política em banhos turcos, e, de tão sentimental que é,
chora quando se lhe mancham os colarinhos.
Faz-se com mais ou menos dois baldes de muita paciência,
à volta de uma fogueira,
com mais treta menos treta, teta menos teta,
a assassinar meias de vidro,
e a admirar-se no porquê da dor se
na loja do chinês faz mais barato.

Para se fazer um artista basta tudo isto,
fazer do sexo um bom petisco,
Ter a proeza de chegar com a pila até ao próprio umbigo,
e por fim, voilá, um pouco de imaginação.

10.7.11

Há como morrer sem nunca ter nascido?

2.7.11

 .
Perguntei-te como era a dor, e tu não respondeste. Tocaste na água e ela abriu-se em dois.
.

27.6.11



o que escrevo é simples:
tem morte e vida no mesmo buraco do umbigo
tem desejos secretos de parir um boi
cabe em qualquer ferida
na língua sádica do coração
na demência precoce do trompetista
no mais pequeno cofre do amor

os meus versos são indecências acabadas de nascer
mas são da mesma forma que nasci
o que escrevo é o resultado da soma entre a fome e a sede
não preciso que venham matemáticos dizerem-me
que a morte é raiz quadrada de um escuro qualquer
ou de literatos dizerem-me que ódio leva assento no O
escrevo porque não me ensinaram nada sobre costura
escrevo para corrigir a minha vida
escrevo para conhecer o escuro por dentro
escrevo porque tenho dois ou três filhos
escrevo porque o taberneiro não aceita fiado
escrevo para aprender a bater asas

escrevo para fazer circular o ar 

escrevo porque a dor é um dom

escrevo porque não há carne no frigorífico

escrevo na medida do impossível
escrevo porque atrás de mim está outro mim
escrevo porque a psiquiatria fica dispendiosa
escrevo porque a esperança é uma espera
escrevo para me levantar do chão
escrevo porque não tive outra escolha 

escrevo porque o vazio ocupa-me bem

escrevo por saber que o amanhã não existe
escrevo porque vivo morrendo
escrevo para boi dormir
escrevo para ter noticias de mim
escrevo porque a palavra é um rim
escrevo porque não tenho terra para lavrar
escrevo o sangue ainda existe
escrevo porque a lucidez é uma chatice

escrevo porque a consciência é a minha empresa
escrevo porque fui picado por um insector

escrevo porque entendo que não entendo
escrevo para ter olhos nos olhos
escrevo porque o absinto não faz melhor
escrevo porque não sei morrer de outra maneira
escrevo porque estar sozinho é uma merda!

escrevo para não estar calado
escrevo para viajar sem ter de ir
escrevo mas depois não leio
porque a minha escrita dói!

enfim, o que escrevo é simples.
excepto quando as memórias vêm com tinta fresca!

23.6.11

Da primeira vez que fui ao teatro passei a amar o escuro
Da primeira vez que li um poema passei a existir por dentro
Da primeira vez que fiz amor passei a ficar mais tempo em casa
Da primeira vez que disse meu Deus dois pássaros suicidaram-se
Da primeira vez que olhei uma flor entendi a ópera
Da primeira vez que sonhei incendiaram-se-me as pálpebras
Da primeira vez que te vi o relógio tombou
Da última vez estavas no teatro a fazer um poema 
E pediste-me que te levasse a casa porque tinhas dois pássaros em flor
A sonhar com o tempo de agora.

20.6.11

Se for preciso
expira sobre o poema os tsunamis do oriente
e que do céu de Portugal
possas arrancar a mulher
como um cacho que espera as tuas mãos

E ainda que ao romper da noite
as árvores façam doer a terra
desliza no mármore do tempo
e canta como o Eugénio cantou
até que os versos rimem na carne

Se for preciso
vai à fonte encher os olhos
para que possas chorar pianisticamente
a partida e o regresso
daquele que lutou no travesseiro
por um melhor sono

Incendeia o interior das pedras
ergue em ti a catedral dos arvoredos
constrói um povo com o som de uma viola
e verás que nada se subtrai
tudo é fresco como as couves do meu jardim

Mulher ama o teu homem
homem ama a tua mulher
o poema também se faz de contra o vento
e haverá quem o ponha na língua do tempo
porque a seguir à garganta tem outra garganta

Se for preciso
levanta-se um morto sem lhe dizer porquê
unta-se-lhe um pouco de vida para que fale
de igual voz a um livro de memórias
em que os nós se multiplicam na corda dos dias
e perfeito é não saber que o dia tem cordas
mas saber que uma voz não se derrete

Ó cabos de alta tensão! Ó música idêntica a fogueiras!
Para que lado vão as feridas? Quantos santos se recusaram a ser santos?

Quem embala sempre corre mais depressa
e eu corro como um jumento que carrega - A vida
as manhãs inteiras na cabeça
a cana de pesca
as colheitas de uma solitária ramada
e todo o resto são varizes acomodadas

Eu digo:
As aves poisam nos astros simbólicos das minhas mãos
e penso nelas como quem espreme o sangue dos frutos
E o meu reino é o crepúsculo movimento
onde imito safiras
e lá num ângulo de uma musa
canto como uma onça no seu acasalamento

Ó rio que por mim atravessas! Ó solidão sem fronteira!
Agarra os pulsos da janela e escreve novas paisagens
inventa uma legião de estranhos para lhes dares a conhecer
os poemas mergulhados em saliva
os cantos maiorais do poeta
a vida enquanto é viva
para que a sede seja só uma expressão
pois nada é certo que o vinho termine amanhã!

30.5.11

A vida sem poesia é uma música morta


a vida sem música é uma poesia morta

27.5.11

quando a um poema nada se recusa
as palavras desbravam em nós a emoção celta das gaivotas
que, por saberem de fuso-horários,
correm traduzidas para o mar.

26.5.11

abre-me o corpo e vê como a noite dorme.
pousa os olhos no sossego da terra,
naquele espaço em que se aprende a sonhar como os marinheiros,
e faz de conta que o amor é uma viagem sem retorno.

25.5.11

sei do mar, sei das trevas, sei da vida;
sei que demorei muito para lá chegar.

24.5.11

sonho com as coisas invisíveis
e vejo-as ao redor da minha sede

sonho com as coisas infindáveis
e percorro-as pelo centro da minha fome
se morrer agora, que seja num poema teu
para que numa só palavra me devolvas à vida
e acorde rio no dia seguinte
num pais verde e amarelo
com um sol grande ao meio
a derramar-se

18.5.11

quando a força de sonhar ergue a flor descendente
e as corolas fazem-se de passadeiras
então é hora de poema
de cuspir a mais perfeita dor
com toda a pele e sem vacinação

6.5.11

não me importa a solidão nem a literatura. não quero saber 
dos pássaros nem dos campos nem de marinheiros que 
atracam em manicómios. só quero saber onde raio andas tu, 

ó Deus de uma figa, que me deixaste aqui a escrever sozinho, 
feito palerma, no meio de tanto poema, tanta ferida, tanta
sede impotável, tão cheio de ausência até empossar a garganta, 
sem silêncio para adorar, sem infância para envelhecer,
para que muitos possam ler e rir da primeira à última dor!

2.5.11

Só tu poeta, escutas a prenhe terra, adivinhas 
quando um fruto vem em queda livre e atiras a tua vida 
estendida como lençol para o amparar. só tu poeta, nasceste 
na colisão do sol e lua, maturas a semente feito um outono ao chegar,
tão crente como a terra a fechar uma ferida. só tu poeta, corres 
atrás da imortalidade, porque sabes que por detrás das palavras
estão outras palavras, que são as tais que brilham
no útero ardente do pensamento.