26.5.09

Desde que os meus amigos e inimigos deram conta que eu era o responsável por estas crónicas amargas e doces os sorrisos não param de aumentar, uns dirigem-se a mim como: olha o senhor dos calhaus!, outros mais sarcásticos do que a minha avó, perguntam-me: não tens aí um calhau p'ra gente fumar, ó meu?


Bem, há de tudo na vida, como não há nada na morte. Enfim, fazer a rua direita completa sem dar nas vistas é assunto de trinta páginas para um futuro romance. As pessoas pasmam-se e exclamam: afinal o gajo que escreve aquelas tretas tem cabelo encaracolado! Infelizmente, a fama não me tem dado bons resultados, apenas uns copos de cerveja. E foi o que foi: esta manhã, sol de verão, olhava as montras só por olhar, um indivíduo de meia idade bateu-me nos costados com uma leveza que eu estranhei.

- Bom dia, amigo!

A palavra amigo tem dias que me custa a engolir, mas pronto, lá teve de ser. O seu sorriso dava a sensação de ser um sorriso a pilhas, mas ainda assim retribui: Bom dia!

Depois de uma breve introdução sobre as focas em extinção, de alguns casos de polícia, veio com esta ladaínha:

- Gosto muito de o ler, sabia?! – Continuou – Em minha casa todos o lemos. Só você e o Fernando Mendes!

Hum, fiz de conta que entendi a comparação e, como sei que isto é mesmo assim, agradeci a gentileza com um muito obrigado.

Durante uns dez minutos encheu-me o ego com elogios para cima e para baixo, que como escritor não há nenhum, blá blá blá, que as minhas crónicas terão mérito além fronteiras, etc, etc, qual Saramago qual quê...

Agradeci-lhe a simpatia umas trinta vezes, tinha ali fã, alguém que se preocupa com a pessoa que está por detrás destas palavras. O meu coração vacilou de bons espantos, é um facto.

Convidou-me a ir tomar um café ou que quisesse e, como terra-a-terra que sou, aceitei. Fomos ao café Conforto.

Havia qualquer coisa nos olhos dele que parecia querer falar mais alto do que a boca, o seu sorriso, esse, sempre de roda no ar.

Mais palavras, mais elogios sobre a minha escrita, mais escovadelas, mais umas minis geladinhas, mais semi-fusas no seu português que eu nem catrapiscava uma frase completa. Até que, o seu sorriso parou. Os seus olhos idem aspas.

Falou-me da crise do país com pequenos gritos na voz, na dificuldade que é em atravessar os meses e os dias, o emprego por um fio, a mulher a dar-lhe inúmeros avisos de separação, os filhos e essas coisas todas.

A única psicologia que lhe dava era apenas abanar com a cabeça.


No pico da conversa, veio aquela parte que todos sabemos: sabe como é, a vida de um pobre, isto está duro...se me pudesse emprestar algum, só para organizar a minha vida, quinhentos euricos, não peço mais, que daqui a dois mesitos, se tanto, devolvo-lhe o dinheiro, com juros se preferir, pode acreditar que sou uma pessoa de boas fés, e você, pessoa talentosa, de sensibilidade maior, se me poder desenrascar nesta fase crítica da vida, Deus falará ao seu coração com certeza.

Gostei das palavras, um pouco comoventes diga-se de passagem, mas, como lhe dizer que também eu ando num barco desconcertado onde o mínimo descuido, zás, caio ao mar. Como lhe dizer que isto de escrever para jornais não dá nem sequer para as sardinhas?

Sem círculos na língua, respondi-lhe:

- Vai-me desculpar mas não lhe posso ser útil nesse aspecto.


Foi que nem bomba, nesse cirúrgico momento sentiu-se mesmo a Terra a estremecer, o homem, que de sorriso aberto passou para o registo de sorriso fechado - mas com um canino de fora a brilhar - o cabelo levantou-se como tropas militares e ripostou em greco-romano:


- Vendo melhor as coisas, você não escreve nada! As suas teorias são indigestas e deploráveis. Só um mediocre é que escreveria aquelas coisas banais, tão banais que até faz mal ao fígado!

Mau, nesse momento senti mesmo a terra parar, fiquei a olhar o homem num cálculo à xadrezista, pois tinha em mente uma indecisão: ou saltar-lhe ao focinho ou ignorá-lo. Das duas uma. Virei-me para o céu em pedido de auxílio e perguntei:


- Que faço Senhor?


Para a maior das surpresas, ouvi uma voz a dizer: escolhe a primeira!

Afinal o homem tinha razão: Deus fala ao coração.

25.5.09

como te escrever com a luz viva dos faroleiros
se ainda ontem me despenhei contra o tempo

como acreditar no ar que toco
se celebro todas as coisas num só delírio

se agisse numa força eléctrica dentro do que sou
perguntar-te-ia: por que escutas (n)o silêncio
e tu dirias: para entender melhor tuas palavras

18.5.09

Amanhã apenas vestirei camisa nova

lavarei a face com água corrente

e caminharei pelas ruas com um fruto em cada mão


Se Deus quiser terei um poema como última refeição

e uma pinga de vinho para o dizer

Depois vou ensaiar muito a despedida

fechar os olhos

até sentir uma leve cegueira iluminada

olhar-me por dentro e ver que já não há pecados

não há pássaros a cismar ao meu ouvido

apenas uma impressão a garfo espetado na mesa

15.5.09

Farto de ser o pateta, o bombo da festa, um quase figurante desta vida, se calhar o pneu subslente de um carro ou parafusinho duma grande máquina em movimento. Farto de ser segundo plano, o pior remunerado, palhaço à força, o que diz bom dia mesmo que o dia esteja mau. Ele avisou que um dia vai parar a fita com um grito, ai vai vai, deixar de vez a vida de cão, mostrar que existe, que o palco será dele, um palco só para ele, apurar a sua gargalhada, arranjar uma namoradinha para os intervalos das gravações.

Nos estúdios da Walt Disney não se falava de outra coisa. O Pateta vai começar a sua carreira a solo.

12.5.09

O grupinho era sempre o mesmo: o Gaspar, o Gomes e o Berto, que bem podiam ser o três da vigairada, mas não, estes trio era um trio de ataque, mas não de futebol ou coisa que se pareça, estes três moinantes, desde que há conhecimento, sempre praticaram o chamado “encosto às raparigas”.

Eu defino: é colocar-se por detrás de uma mulher, bem encostadinho ao rabiosque dela, e deixar-se estar, deixar-se estar, feito lampião apagado.
Podem “actuar” nas feiras, na entrada do autocarro, numa greve, ou coisa que o valha, enfim, o que importa é que haja muita muita gente, nomeadamente, raparigas descomprometidas, que eles lá estão, os basófias, a dar ao zarelho, a encostar as suas carnes aos traseiros das raparigas como se não fosse nada com eles.

Mas é nas romarias, quando à noite a banda está a tocar ou quando se olha os foguetes no céu, que os seus sucessos aumentam e endurecem os seus paus como cajados. E deixam-se estar quietinhos para a presa não dar conta que alguém está tirando proveito da sua parte traseira e, ou prega-lhe um estalo ou vai-se embora sem dar o estalo.

Chegou a hora: a procissão a passar pelo meio da rua, com excentes de pessoas a assistir, dum lado e do outro da rua, e digam o que disserem, não existe melhor cenário do que este para o trio atacar e sentir, cada um à sua maneira, a carne fresca de umas nâdegas quaisquer.
É uma porcalhice incorrecta mas eles não estão nem aí, como diz a gente lá do brasil. É como a ressaca de um drogado, eles precisam deste alento para se sentirem vivos. Um fim de semana sem encostar, sem sentirem o cheiro delas bem perto dos seus narizes, óó, até a barraca abana.

O Gaspar, que já tem idade para tomar conta de netos, entretem-se a sentir o calor de uma jovem morena que na sua crença assiste à marcha do andor, dos barcos decorados com flores, sem que a inocente imagine que a pessoa que está coladinha a si, a fazer de conta que “tenho” me chegar para ver melhor, é um tarado sexual que não desgruda.

São tão depravados que nem com a nossa Senhora a ser levada por ombros, a dar a sensação que os está a topar, eles se medram. O Berto, esse, o que mais se arrisca, está mesmo coladinho a uma de trinta aninhos, pela aparência, a fantasiar-se todo, a sentir o coiso teso como um estandarte, cuja emoção é tanta que quase se lhe fecha a traqueia, e sufoca-se. Uma loucura, pensa ele.

Menor sorte tem o Gomes, pois a sua fraca aparência, a mirolhice antiga, não lhe cabe arriscar muito e, como ele diz «ó pá é melhor do que nada», ter de ficar pelas cinquentonas e e. Normalmente o saldo de cada um é positivo, pelo menos a olhar pelas histórias que trazem na gaveta da imaginação.

Quando se sentam no café do Licas, então é que é, derretem-se todos, falam de cus a torto e a direito, como se isso fosse de comer e encher a barriga.
São muito amigos, melhor, amissíssimos, por andarem sempre juntos parecem três putas à procura de emprego, protegendo-se uns aos outros.

Andaram neste rock ene de anos sem que alguém por sombras adivinhasse, ainda por cima todos casadinhos, filhos que deram tropa, filhas quase dôtoras, quem é que lá ia suspeitar que o trio atacava por trás as moiras nas festas em honra aos santos padroeiros.
Agora são tão madurinhos na idade que mal se aguentam nas canetas, caminhando pelas ruas a três pernas, só peles caídas no queixo, rugas que indicam passados de alguns temporais, vozes trémulas, o esquecimento dentro e fora deles, as ruas cheias de gente, o comércio a fazer-se, as meninas sorridentes dos balcões, e eles, o “famoso” trio de ataque, no sempre mesmo banco de jardim, consumindo nostalgias ao minuto, pesando o céu e o inferno, uma mulher passa com um vestidinho apertado e largam pequenos uivos, faz ressuscitar memórias, do longe vem-se aproximando um grupo de jovens a distribuir panfletos sobre a liberdade sexual de cada um, a consciência gay, sejamos tolerantes, o Gaspar, que pelas mãos pecou, apanhou com essas mesmas mãos um desses panfletos, olhou e deu-o a olhar aos outros dois que, desde que acossados pela asma, têm Francisco Xavier como remédio, da asma e das suas velhices, esquecidos, porque notam que o tempo já não lhes pertence, depois de ler com atenção, suspiraram:

- Ele agora há cada um...